Professor relata ameaças após pedir retorno das aulas na UFSC: “ambiente tóxico”

Antônio Pinho, que faz doutorado na instituição, disse ter sido vítima de assédio moral após publicação de artigo pedindo retorno das aulas

O professor de língua portuguesa Antonio Pinho diz ter sido vítima de assédio moral após a publicação de um artigo no qual questiona o porquê de a UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina) não retomar as aulas.

UFSC está com aulas presencias paradas desde o dia 16 de março  – Foto: Divulgação

O texto foi publicado no Jornal ND na última sexta-feira (5) e está disponível também no nd+. Intitulado “Por que a UFSC não retorna suas atividades?”, o texto cobra ações mais efetivas da reitoria da instituição frente à paralisação das aulas, que acontecem desde o dia 16 de março.

Antonio é doutorando em Linguística na UFSC e relata ter recebido duas manifestações hostis após a publicação. A primeira veio dos demais colegas do programa de pós-graduação que, via e-mail, se posicionaram contrários a fala do professor. “[…] repudiamos o gesto de difamação do trabalho de professoras e professores, servidoras e servidores e demais entes da comunidade acadêmica”, diz parte do texto.

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No texto são elencadas ainda ações que a universidade e os próprios professores do programa de pós-graduação vem realizando durante esse período de paralisação das aulas presenciais. A nota foi publicada na página do programa na internet, vinculada ao site da UFSC.

Para Pinho, houve assédio moral na nota que, dentre outros fatores, fere o direito a pluralidade de opiniões. “Isso é exatamente triste. Espero que a cultura nacional volte a respeitar a pluralidade de pensamento”, disse ele em resposta a publicação.

“O que era “normal” antes da pandemia não voltará a existir”

Cobrando uma retratação, Antonio enviou e-mail aos coordenadores do programa de doutorado, que por sua vez, o responderam com uma carta-resposta escrita pelo chefe de gabinete da UFSC, Áureo Mafra de Moraes.

No carta, Áureo responde diretamente sobre os pontos levantados por Antonio no artigo sem citar o pedido de retratação. O chefe de gabinete diz que, em relação ao cumprimento do calendário acadêmico, “é necessário que a sociedade perceba – e tentamos fazer isso o tempo todo – que o que era ‘normal’ antes da pandemia não voltará a existir”.

Nota dos alunos continua disponível na página do programa de doutorado – Foto: Reprodução/UFSC

Sobre as aulas em EAD (Ensino a Distância), o chefe de gabinete diz que adaptar o ensino presencial a modalidade online não é uma tarefa fácil e que a simples conversão de modelos poderia causar um desastre. Áureo sugere ainda que “a energia que o senhor [Antonio] dirige à UFSC devesse ser redirecionada”.

Antônio acredita que às afirmações caracterizem assédio moral e diz pretende processar os envolvidos pelas falas. Ele relata também que não pretende tentar dar aulas na instituição. “Eu jamais me meteria em um ambiente tóxico como a UFSC”, diz.

Entidades criticam paralisação da UFSC

A paralisação das aulas na UFSC a reação do Floripa Sustentável, que defende “uma solução tecnológica que viabilize a continuidade das atividades no formato on-line”. O movimento é constituído por 44 entidades representativas do setor produtivo catarinense e florianopolitano.

A nota publicada pelo Floripa Sustentável enfatiza ainda que a UFSC estabeleceu mais 30 dias para que seja feito um diagnóstico completo sobre as condições de oferta de ensino.

“Aquilo que poderia ter sido feito ainda em março fica adiado até 30 deste mês, quando a universidade completará a incrível marca de 3 meses e 15 dias de paralisação das aulas. Porém, os salários prosseguem rigorosamente em dia”, disse a nota.

Uma portaria publicada no dia 29 de maio manteve a suspensão das aulas presenciais e dos atendimentos administrativos por, pelo menos, um mês. Assinado pelo reitor Ubaldo Cesar Balthazar, o documento também suspende bancas, concursos e reuniões presenciais.

Contraponto

Áureo Mafra de Moraes disse à reportagem que não proferiu nenhuma ofensa pessoal a Antonio, respondendo apenas aos questionamentos feitos no artigo. O chefe de gabinete pediu ainda que Pinho apresentasse provas de que professores estão de férias e assim deixando de cumprir seus deveres profissionais.

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