Tecnologia é a maior aliada dos professores durante a pandemia e na retomada

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No Dia do Professor, profissionais de educação falam das mudanças com a pandemia, a retomada das aulas presenciais e a paixão por ensinar

A tecnologia entrou de vez nas salas de aula na pandemia, possibilitando a continuidade do ensino. E os professores, em Florianópolis, até se surpreenderam com a adaptação. Do Colégio Catarinense, Rodrigo dos Passos ressalta que o colégio não perdeu alunos, pelo contrário, absorveu. Da Escola Básica Municipal José Amaro Cordeiro, no Morro das Pedras, Luciano Kercher Greis disse que alguns alunos até mudaram de cidade, mas seguiram no ensino remoto.

O professor Luciano Kercher Greis atua no Morro das PedrasO professor Luciano Kercher Greis fez os alunos projetarem um submarino que vai coletas amostras de água na Lagoa do Peri – Foto: Leo Munhoz/ND

Dedicados em seu ofício, Rodrigo e Luciano ensinam em duas realidades distintas, mas têm, em comum, o amor por educação. Rodrigo dos Passos é manezinho, tem 45 anos, 22 ensinando. É professor de geografia no Colégio Catarinense, um dos mais tradicionais da cidade, e no Colégio Bom Jesus, também na Capital.

“Amo dar aula. Quando entro em sala, o mundo melhora, esqueço de tudo”, comenta. Segundo ele, a vontade de ser professor surgiu na faculdade nos anos 1990.

“Quando entrei na geografia, vi que gostava de ensinar e começar a dar aula foi um pulo. Para mim, o principal é que o professor precisa compreender o aluno. Entender os anseios dele, perceber do que ele precisa, a forma que aprende”, comenta.

Sobre ensinar na pandemia, especificamente no caso do Catarinense, Rodrigo disse que o colégio já era muito tecnológico antes da crise sanitária.

Professor Rodrigo, do Colégio CatarinenseProfessor de geografia no Catarinense, Rodrigo dos Passos acredita que o colégio está na vanguarda tecnológica – Foto: Leo Munhoz/ND

“Tudo que usamos hoje, nós tínhamos. Claro que não se usava nem 10%. Para nós, a grande adaptação foi ter que dar aula assim. Mas o colégio em si tem um suporte muito grande”, avalia Rodrigo. “O que marca para mim é a resiliência. Conseguimos dar a volta por cima. Fizemos o possível, da melhor maneira”, acredita.

Submarino escolar vai coletar água da Lagoa do Peri

Luciano Kercher Greis trabalhava com tecnologia da informação. Ele é de Canoas, no Rio Grande do Sul, e está na Capital desde 2011. “Encontrei essa área que envolvia tecnologia e educação, gostei e segui”, explica.

Hoje, ele é pedagogo, com habilitação multimeios em informática educativa. Luciano tem mestrado e doutorado em educação, ramo em que atua há 14 anos, e ensina alunos do 1º ao 5º ano na sala informatizada da Escola José Amaro Cordeiro.

“Queria trabalhar com projeto e dei a ideia de criarmos uma ‘sala maker’. O conceito é colocar a mão na massa, os alunos criarem algo, no nosso caso, usando tecnologia”, afirma.

Os alunos dele desenvolveram um submarino que será colocado na Lagoa do Peri para coletar amostras de água a serem analisadas no laboratório de ciências da escola. “Está pronto, estamos fazendo os últimos testes e vamos lançá-lo segunda-feira (18)”, revela.

O submarino da EBM José Amaro Cordeiro fará coletas em diferentes pontos da lagoa – Foto: Leo Munhoz/NDO submarino da EBM José Amaro Cordeiro fará coletas em diferentes pontos da lagoa – Foto: Leo Munhoz/ND

O aparato tecnológico tem uma câmera capaz de gravar a 10 metros de profundidade e um dispositivo para captar água no fundo da lagoa. “Vamos comparar, no laboratório, água do fundo e da beira em épocas diferentes do ano”, comenta.

Na pandemia, Luciano deixou de atender alunos e ficou no suporte aos professores na ferramenta online para os colegas darem aula. A escola dele também não sofreu com evasão e alguns alunos que precisaram voltar para seu Estado de origem, por exemplo, continuaram estudando online.

Na retomada, ele disse que os alunos voltaram com bastante vontade. “Tem um grupo que ainda não voltou presencial, mas a maior parte, sim. Temos um modelo híbrido, uma semana online, uma semana a distância. Na semana presencial, a escola está cheia”.

Aconselhando quem está pensando em ser professor, é sincero. “É um desafio muito grande, com muitas dificuldades, mas é uma profissão gratificante, que dá um retorno muito bom. Ainda é uma profissão interessante”.

Meta é melhorar ensino estadual

A meta para educação catarinense em 2022 é tornar o Estado referência nacional, segundo o secretário estadual de educação, Luiz Fernando Vampiro.

“No prêmio de competitividade de São Paulo, somos o segundo colocado. Só perdemos para São Paulo mesmo. O grande desafio é nos tornarmos os primeiros e aumentar nossa nota no Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica)”, comenta Vampiro. Em 2021, os professores da rede estadual receberam excelente notícia: o piso salarial passou a ser de R$ 5 mil.

Vampiro deixou a Alesc (Assembleia Legislativa do Estado de Santa Catarina) para dar as diretrizes da Educação no Estado – Foto: Maria Fernanda Salinet/NDVampiro deixou a Alesc (Assembleia Legislativa do Estado de Santa Catarina) para dar as diretrizes da Educação no Estado – Foto: Maria Fernanda Salinet/ND

Para o secretário, o retorno às aulas presenciais está consolidado no Estado. “Com a busca ativa, em pouco menos de um ano viramos referência. Fomos o primeiro Estado do Brasil, desde março de 2020, a retornar com as aulas presenciais em 18 de fevereiro de 2021”.

Sobre evasão, o secretário disse que existiu, sim, e foi ampliada. “Perdemos 10 mil alunos e resgatamos 2 mil. Temos 8 mil ainda que estamos atrás, mas tenha certeza, vamos trazer os que abandonaram e, principalmente, não deixar quem está na escola sair”, promete.

Outra meta da rede estadual para 2022 é extinguir o sistema híbrido e voltar 100% ao presencial. Ele disse que, atualmente, esta é a realidade na maioria das escolas, exceto nas salas sem capacidade para receber todos os alunos.

“Vários profissionais do sistema privado estão olhando para nós com olhar diferente. Quem dava aula 10 horas aqui e 10 horas lá e tinha que se matar para obter remuneração justa, agora vai fazer 40 horas em uma escola, ganhando R$ 5 mil e trabalhando perto de casa”, ressalta.

Santa Catarina ainda tem 8 mil alunos fora da salsa de aula na rede estadual – Foto: Julio Cavalheiro/Secom/NDSanta Catarina ainda tem 8 mil alunos fora da salsa de aula na rede estadual – Foto: Julio Cavalheiro/Secom/ND

Mas a remuneração do Estado não é a realidade de todos. Na avaliação do presidente do Sinepe-SC (Sindicato das Escolas Particulares de Santa Catarina), Marcelo Batista de Sousa, é fundamental que a educação seja discutida de forma séria e desapaixonada.

“A formação e o aperfeiçoamento dos professores, com a consequente remuneração compatível com os padrões de dignidade humana, são providências que não podem mais tardar, tirando do discurso oficial as boas intenções para transformá-las em realizações concretas”, declarou Sousa.

Vida de professor na Capital

A capital do Estado tem 5.240 professores, divididos em 37 escolas e 83 creches. O secretário de educação de Florianópolis, Maurício Fernandes, disse que a evasão não foi um problema para o município na pandemia e os mecanismos para buscar uma criança que some da escola funcionam bem.

“Via de regra, a evasão escolar se deu porque as escolas fecharam, mas, agora, voltaram a sua normalidade. Não há dados alarmantes, apenas índices tradicionais”, conta Fernandes. Segundo ele, considerando os 38 mil estudantes, o percentual de alunos fora da escola não chega a 1% na Capital.

Mauricio Fernandes está à frente da Secretaria de Educação de Florianópolis desde o primeiro mandato de Gean na Capital – Foto: Divulgação/NDMauricio Fernandes está à frente da Secretaria de Educação de Florianópolis desde o primeiro mandato de Gean na Capital – Foto: Divulgação/ND

O secretário vai comemorar o 15 de outubro em dois momentos. Na tradicional transmissão ao vivo na internet de hoje com entrevista da professora Gisele Toledo, que venceu o câncer de mama. A transmissão, às 10h, abordará a luta da professora e a campanha Outubro Rosa. E, às 14h30, será a vez de Eliane Debus, com o tema educação.

Domínio do conteúdo, didática e generosidade

Maurício Fernandes foi professor do curso de administração da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), de 1995 a 2015, onde ensinava alunos do início e final da graduação e também do mestrado e doutorado.

“Quando andamos pela vida hoje e encontramos um estudante que tem uma empresa, está em um banco, em uma área pública e lembra das nossas aulas, é extremamente gratificante”, conta ele.

Questionado se a secretaria está valorizando os professores da Capital, Fernandes destacou algumas ações e disse que os profissionais também precisam se autovalorizar.

Professor Rodrigo, do Colégio CatarinenseRodrigo é o tipo de professor que conquista facilmente a admiração e respeito dos alunos – Foto: Leo Munhoz/ND

“Eles têm duas formas de fazer seu ofício: a partir da imposição do poder ou da conquista da autoridade”. Para o secretário, um professor nota dez tem domínio do conteúdo, didática e atitudes pessoais de generosidade, fatores que permitem a conquista da autoridade.

Sobre as ações da secretaria, falou na qualificação dos espaços pedagógicos. “Uma sala de aula nossa tem quadro de vidro e não mais de giz. Todas as escolas têm internet, laptop, datashow, infraestrutura tecnológica à disposição do professor, justamente em decorrência de ele ter a característica de ser o intermediador do conhecimento”, ressaltou Fernandes.

Segundo o secretário, a prefeitura também entregou um kit com 13 livros para os mais de 5 mil professores do município. Entre as temáticas das obras estão questão étnico-racial, educação de jovens e adultos, matemática, legislação, educação ambiental e tecnologias da informação.