UFSC e Udesc não traçam planos de ensino durante a pandemia

Universidades alegam que desigualdade entre alunos dificulta EAD e atuam como se apenas esperassem a volta à normalidade

Enquanto escolas públicas e privadas se esforçam para se adaptar à nova realidade imposta pela pandemia, universidades vivem em um mundo paralelo em que parecem apenas esperar que tudo volte ao normal para retomar as atividades.

Passados mais de dois meses desde a suspensão das aulas presenciais, UFSC e Udesc não demonstram nenhum esforço em implementar algum método de acompanhamento dos alunos, como aulas online.

Aulas na UFSC estão suspensas por conta da pandemia – Foto: Pipo Quint/Agecom/UFSC/NDAulas na UFSC estão suspensas por conta da pandemia – Foto: Pipo Quint/Agecom/UFSC/ND

Esse descolamento da realidade fica explícito nas cartas que as duas entidades enviaram em resposta a um questionamento do movimento Floripa Sustentável, que tem quase 30 entidades representativas unidas.

Em nome do movimento, a coordenadora Zena Becker quis saber quais são os “impedimentos para implementação dessa modalidade (EAD), excepcionalmente em época de pandemia.”

A UFSC enumerou uma série de supostos empecilhos, entre os quais o argumento de que “a incorporação de EAD ou outra modalidade de ensino remoto pressupõe a modificação dos planos de ensino e sua aprovação em todas as instâncias”.

A universidade também diz que o uso de ferramentas pedagógicas e tecnológicas exige capacitação e acrescenta ser necessário verificar as condições dos estudantes para acompanhar o EAD, embora não tenha demonstrado empenho nessa verificação durante as primeiras semanas da pandemia.

A resposta chocou empresários e empreendedores da área de tecnologia.

“A UFSC tem a Fundação Certi, que é uma unidade de desenvolvimento e tecnologia e inovação dentro da própria universidade. É inconcebível que apenas feche tudo e espere o tempo passar”, afirma Zena.

A coordenadora do Floripa Sustentável pondera que a instituição tem inúmeros professores competentes e que muitos na pós-graduação e doutorado estão atuando por iniciativa própria, por acreditarem ser possível manter algum tipo de atividade.

A Udesc usa argumento semelhante ao da UFSC para até agora não implantar uma alternativa às aulas presenciais. Reitor da universidade, Dilmar Baretta alega que “a instituição ainda debate o retorno (mesmo que remoto) das atividades de graduação visto que tem muitos alunos carentes – sem acesso a computadores, tablets e internet – o que impossibilita o uso do ensino remoto.”

E acrescenta:

“Estamos estudando formas de fazer com que esses alunos mais carentes tenham acesso às aulas, bem como analisando quais as disciplinas poderão ser ofertadas de modo remoto.”

A princípio, a Udesc planeja começar com o EAD a partir de 15 de junho. Também busca uma forma de auxiliar financeiramente alunos que não tenham acesso à internet.

Udesc usa argumento semelhante ao da UFSC para não implantar atividades – Foto: Arquivo/UdescUdesc usa argumento semelhante ao da UFSC para não implantar atividades – Foto: Arquivo/Udesc

A inércia das instituições contrapõe-se ao ritmo mais acelerado com que se discute a adaptação e o retorno às atividades na educação básica, tanto pública quanto privada.

Após semanas paralisada, a UFSC decidiu somente em maio colocar em prática algum tipo de ação, e apenas para avaliar a possibilidade do EAD. É o que diz, em ofício, o reitor Ubaldo Cesar Balthazar:

“Considerando a complexidade revelada por todos os fatores acima expostos, na semana passada, a UFSC iniciou um processo de avaliação, planejamento e discussão, a fim de que se identifique, mediante levantamentos quanto a condições de acesso e adaptabilidade tecnológica, se há condições de oferta de alguma possibilidade de ensino remoto, desde que garantidos o acesso pleno e universal e a devida preservação da qualidade dos conteúdos.”

Sob o mesmo argumento, outras universidades do país também se negam a usar o EAD. Partem da premissa que os alunos não têm as mesmas condições, mas deixam de lado a informação de que conhecem o perfil dos matriculados e podem mitigar eventuais desníveis por meio da tecnologia de que dispõem.

Com o apoio de empresários, o movimento Floripa Sustentável se dispôs a iniciar uma campanha junto à sociedade para obter recursos auxiliares aos estudantes que mais precisam. Por enquanto, porém, esbarra na carência de dados das próprias universidades.

Falsa dicotomia

Ao alegarem a desigualdade entre seus alunos como um dos fatores que impede a adoção do ensino a distância, UFSC e Udesc tentam buscar um pretexto que não tem nada de semelhante com a razão pela qual o Enem foi adiado.

O exame para ingressar em universidades envolve milhões de jovens de classes sociais e formações diferentes que, ao cabo, têm a responsabilidade individual por sua preparação. Aqueles com mais recursos e acesso à internet têm mais condições de se preparar para as provas, daí a necessidade de adiá-las, para não aumentar o fosso da desigualdade.

Nas universidades, porém, os alunos já estão matriculados e, em teoria, têm à disposição das instituições as informações necessárias para que elas façam um planejamento adequado para evitar desequilíbrios no aprendizado.

Partir do pressuposto de que existe uma desigualdade enorme e assim justificar a inércia é o oposto do que se deve fazer uma universidade pública, que é justamente encontrar os meios para a adequada formação para todos seus alunos.

A pandemia da Covid-19 já não é surpresa há bastante tempo. O que surpreende é a morosidade e a atitude quase irresponsável de instituições públicas que tardam em traçar algum tipo de plano diante de uma realidade que já está imposta.

Mudança na gestão também justifica demora, segundo Udesc

Em resposta ao movimento Floripa Sustentável, a Udesc enviou um ofício em 13 de maio no qual, além de atribuir aos alunos carentes a demora em estabelecer algum método de EAD, diz que “durante a pandemia ocorreu a transição entre duas gestões da reitoria”, tendo a atual assumido em 12 de abril. Ou seja, acrescenta questões burocráticas à paralisação das aulas.

A universidade reforça que “além do ensino, a instituição pública realiza ações de pesquisa e extensão que atingem milhares de catarinenses.”

UFSC não sabe se tem tecnologia

Ao encaminhar ofício ao movimento Floripa Sustentável, a UFSC exalta seu padrão de excelência em vários cursos, diz que tem “promovido um conjunto de ações de solidariedade e produção de insumos” durante a pandemia, mas alega ser “necessário verificar se a infraestrutura tecnológica da UFSC tem condições de atender a demanda intensiva exigida pelo uso” do ensino a distância.

Apesar de as aulas terem sido suspensas em março, apenas em maio, segundo a própria UFSC, foi iniciado um “processo de avaliação, planejamento e discussão, a fim de que se identifique, mediante levantamentos quanto a condições de acesso e adaptabilidade tecnológica, se há condições de oferta de alguma possibilidade de ensino remoto, desde que garantidos o acesso pleno e universal e a devida preservação da qualidade dos conteúdos. Até que essas condições estejam atendidas, não há nenhuma disposição, como medida geral, de substituir aulas presenciais por ensino remoto na UFSC.”

Por volta das 17h30, desta quinta-feira (21), a UDESC respondeu a reportagem com a seguinte nota:

A Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc) informa que retomará as aulas dos 50 cursos de mestrado e doutorado na próxima segunda-feira, 25, de forma remota. Além disso, as aulas dos cursos de graduação na modalidade a distância (Pedagogia, Administração Pública, Informática, Ciências Biológicas e Ciências e Tecnologia) já retornaram normalmente no início de maio.

Em paralelo, a instituição realiza uma série de ações de enfrentamento à pandemia, envolvendo professores, técnicos e alunos em áreas de ensino, pesquisa e extensão. As ações podem ser encontradas no documento Udesc em Ação e também no site www.udesc.br/coronavirus.

Além disso, foram tomadas medidas administrativas imediatas para retomada do trabalho dos servidores em forma remota, realização de formaturas online de alunos, realização de reuniões do Conselho Universitário (Consuni) pela internet e também redução de custos por conta da pandemia, entre outras.

Quanto às aulas dos cursos presenciais de graduação, ainda está em discussão entre os diretores dos 12 centros de ensino da universidade alternativas à forma de retorno durante o período de medidas restritivas.

Portanto, ao contrário do que foi veiculado na notícia intitulada “Ufsc e Udesc não traçam plano de ensino durante a pandemia”, a Udesc tem agido de forma responsável e com planejamento acerca de todas as demandas que envolvem o contexto da pandemia do novo coronavírus. Da mesma forma, tem buscado entregar à sociedade catarinense serviços essenciais no enfrentamento à COVID-19 em várias frentes.

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