‘A demanda por profissionais é muito maior do que a oferta’, diz representante da Acate

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A escassez de mão de obra no setor tecnológico em Santa Catarina ainda é um desafio de longo prazo, de acordo com o vice-presidente de talentos da associação, Moacir Marafon

Resolver o problema da falta de profissionais é um desafio de longo prazo, que passa por investimentos massivos em educação, mas com a união de forças entre poder público e iniciativa privada, dá para acelerar a solução e ainda oferecer oportunidade de emprego a muitas pessoas.

Na Grande Florianópolis, uma série de programas busca capacitar profissionais para assumirem vagas na área de tecnologia. 

Moacir Marafon, vice-presidente de talentos da Acate – Foto: Divulgação/NDMoacir Marafon, vice-presidente de talentos da Acate – Foto: Divulgação/ND

São cursos de curta e média duração, com valor atrativo e até bolsas integrais para os interessados e patrocinados por empresas, que geralmente contratam grande parte da turma após a conclusão.

“Nós defendemos muito a formação para o trabalho. Fizemos testes que comprovaram que, em seis meses, esses profissionais já estão aptos a iniciarem a carreira”, comemora Moacir Marafon, vice-presidente de talentos da Acate (Associação Catarinense de Tecnologia).

Além de capacitar quem quer trabalhar na área, os programas despertam os profissionais para mais especializações e, em pouco tempo, alguém que começou como desenvolvedor pode se tornar um cientista de dados.

Uma das iniciativas promissoras é o DEVinhouse, projeto da Acate em parceria com o Senai que busca formar desenvolvedores em nove meses.

O único pré-requisito é o ensino médio completo, todavia há processo seletivo e quem possui conhecimentos básicos em desenvolvimento de sistemas e programação sai na frente.

“Em uma das primeiras edições, dos 40 participantes, em seis meses de curso a empresa madrinha contratou 12 e vários outros garantiram emprego ao longo dos estudos”, lembra Marafon.

São José também lançou um projeto pensando nas tendências globais para o mercado de trabalho, neste caso, focado em crianças e adolescentes.

Chamado de “Movimento Geração do Futuro”, a ação pioneira no Brasil quer preparar os estudantes desde o ensino fundamental, com o apoio de empresas de tecnologia.

As aulas devem começar em 2021, no contraturno escolar, atendendo mais de 2,7 mil alunos em quatro anos.

O setor de tecnologia enfrenta escassez de mão de obra em SC?

Nós recentemente concluímos uma pesquisa em nível estadual da demanda de profissionais com perfil tecnológico no setor de tecnologia.

Chegamos aos seguintes números: em 2021 as empresas esperavam contratar 4.500 novos profissionais durante o ano, em 2022 esse número passa para 5.300, arredondando assim, em 2023 esse número deve chegar a 6.600 profissionais com perfil tecnológico.

Isso no setor de tecnologia. Na nossa pesquisa nós tivemos 228 empresas respondentes, mas no Estado nós temos 12 mil empresas. 

Isso é algo também que se repete, mas é muito importante porque tem um número aqui extraordinário.

A pandemia acelerou a transformação digital, existe um estudo da Mackenzie que diz que em 8 semanas de pandemia a transformação digital foi acelerada em 5 anos.

Teríamos levado 5 anos para atingir o mesmo nível do uso da tecnologia no mundo digital. Então isso fez com que as empresas, de alguma forma, em outra pesquisa feita, que 45% das empresas lançaram algum produto às pressas, alguma forma de atender seu cliente de forma digital. 

As adaptações em empresas que não são da área e a necessidade de profissionais da tecnologia atuando em outros nichos do mercado prejudica o crescimento do setor?

Essa transformação digital, por trás, tem quem constrói isso, que são soluções de software.

Então essa demanda que já vinha acelerada para profissionais com perfil tecnológico já tinha uma demanda acima da oferta e isso realmente se transformou em algo que está comprometendo inclusive o crescimento do nosso setor. 

Tem outro número importante, que a cada três profissionais de tecnologia da informação, dois estão no setor de tecnologia e um está em outros setores da economia.

O que significa dizer que mais um terço dessa demanda está espalhada em todas as demais empresas dos mais variados setores. 

A escassez de mão de obra acontece apenas em Santa Catarina ou afeta todo o país?

Na nossa pesquisa, mais de 50% da demanda do perfil tecnológico são desenvolvedores de software.

Outros são, por exemplo, profissionais que precisam manter um ambiente funcionando, manter os computadores, redes funcionando, a conexão com a internet funcionando.

São outros profissionais, cientistas de dados que ajudam a analisar os dados da empresa, pois ali tem uma riqueza incrível para as instituições, então o que o nosso setor está pensando, o que ele está fazendo? A gente tem consciência que esse desafio, essa demanda por profissionais é muito maior do que a oferta. 

Tem um número, por exemplo, em nível nacional da Associação Brasileira das Empresas Software, que a cada ano nós estamos com um déficit desse perfil na ordem de 24 mil por ano. Ou seja, se contratar 70 mil a mais por ano, dos 70 mil nós temos 46 mil disponíveis e faltam 24 mil por ano. Em quatro anos eu vou ter 100 mil vagas não preenchidas. 

Qual o tamanho do desafio para o setor em SC?

Além de ser por si só uma potência, que hoje representa na ordem de 7% do PIB catarinense e que pode chegar facilmente até 2030 a 10%, hoje o que acontece com as empresas é que elas estão com dificuldades de entregar os projetos. Quanto que isso vai afetar em termos de números a gente não tem essa clareza, mas com certeza um setor que cresce na ordem de 8% ao ano, até 10% ao ano, esse crescimento pode estar comprometido em função dessa escassez de profissionais preparados para ocupar esses espaços disponíveis. 

Nós hoje temos consciência de que esse é um desafio que tem que ser encarado de forma coletiva, porque não adianta as empresas terem recrutadores, não adianta publicarem vagas, o que nós chamamos hoje que é um “rouba monte”, que um tira do outro. Nós temos que inverter isso, que seja um jogo de “ganha ganha”.

Como os setores devem atuar para cumprir esse jogo de “ganha ganha”?

O setor tecnológico, o governo, o terceiro setor, as instituições de ensino, as associações, precisam se juntar para que a gente forme e consiga preparar mais profissionais em curto tempo.

Nós sabemos que esse perfil do profissional não demanda para começo de carreira o curso superior, nós não somos contra os cursos superiores, pelo contrário, mas é uma experiência que a gente já tem em números sólidos, de que em 9 meses nós conseguimos ter profissionais que já possam entrar na carreira. 

Nós temos um programa, esse movimento, essa sinergia com a Acate, tomou essa dianteira, criou uma vice-presidência de talento em que me convidaram para ocupar esse posto.

Nós estruturamos um time e fomos atuando em várias frentes, uma delas é a pesquisa, nós precisamos de números para sermos mais precisos, mas já sabíamos que a demanda era grande porque tem empresas aqui em Florianópolis com 80 vagas abertas. 

Uma das parcerias foi com o Senai Santa Catarina, que criou um programa chamado DEVin House, ou seja, desenvolvedores preparados juntamente com as empresas. É uma parceria do Senai, Acate e empresas madrinhas.