A Ilha do Silício quer você

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Número de vagas abertas no setor de tecnologia deve superar quantidade de profissionais disponíveis nos próximos anos em Florianópolis

Se o futuro das profissões está diretamente ligado aos avanços tecnológicos, Florianópolis é a terra das oportunidades. A capital catarinense, antes conhecida principalmente por suas praias e belezas naturais, foi invadida pelas startups e hoje ostenta um título que atrai investidores e profissionais de todo o país: “Ilha do Silício”. 

Os números reforçam o apelido, que remete a uma região norte-americana onde estão situadas algumas das maiores companhias de tecnologia do mundo na Califórnia. A cidade tem a maior taxa de empresas por habitantes do país, com cinco empreendimentos para cada mil moradores. Em 2019, a região da Grande Florianópolis movimentou R$ 9,9 bilhões, o que representa 56,2% do faturamento total da área em Santa Catarina.

Florianópolis é a terra das oportunidades de empregos na área da tecnologia – Foto: Divulgação/NDFlorianópolis é a terra das oportunidades de empregos na área da tecnologia – Foto: Divulgação/ND

Projeções indicam que o setor deve prosperar ainda mais nos próximos anos, mas um problema deve se tornar recorrente, seja para pequenas ou grandes empresas: a falta de profissionais.

Notícia animadora para quem vê Florianópolis como o lugar ideal para viver e trabalhar. Porém, para entrar no mercado da tecnologia, é preciso estar bem preparado.

A quantidade de profissionais disponíveis no mercado não está acompanhando a alta acelerada do setor de tecnologia. 

Segundo a Acate (Associação Catarinense de Tecnologia), no Brasil a demanda estimada por mão-de-obra na área é de 100 mil profissionais ao ano, porém hoje são formados apenas 75 mil nas universidades nacionais, ou seja, há um déficit anual de 25 mil. 

Concorrência mundial

Em Santa Catarina, a carência é ainda maior, já que hoje os cursos superiores com perfil tecnológico formam apenas 12% das matrículas abertas inicialmente.

Para o vice-presidente de Talentos da Acate, Moacir Marafon, isso ocorre porque os estudantes não têm contato direto com o mercado de trabalho e faltam incentivos para que continuem na graduação. 

A falta de profissionais deve ficar ainda mais evidente num futuro próximo. Um estudo inédito da Acate projeta que Santa Catarina vai abrir cerca de 16.600 vagas no setor de tecnologia até 2023, quase metade delas na Grande Florianópolis. 

A Capital catarinense já não concorre apenas com outras cidades do Estado para atrair mão-de-obra.

“Quando olhamos para o mundo, a aceleração é ainda maior. Então o desafio das empresas catarinenses é competir com as empresas do mundo, porque esse profissional pode estar em qualquer lugar, ainda mais agora com o home office”, comenta Marafon.

Preparando para o futuro

Resolver o problema da falta de profissionais é um desafio de longo prazo, que passa por investimentos massivos em educação, mas com a união de forças entre poder público e iniciativa privada dá para acelerar soluções e ainda oferecer oportunidade de emprego a muitas pessoas.

Na Grande Florianópolis, uma série de programas busca capacitar profissionais para assumirem vagas na área de tecnologia. 

São cursos de curta e média duração, com valor atrativo e até bolsas integrais para os interessados e patrocinados por empresas, que geralmente contratam grande parte da turma após a conclusão.

“Nós defendemos muito a formação para o trabalho. Fizemos testes que comprovaram que, em seis meses, esses profissionais já estão aptos a iniciarem a carreira”, comemora Marafon.

Além de capacitar quem quer trabalhar na área, os programas despertam os profissionais para mais especializações e, em pouco tempo, alguém que começou como desenvolvedor pode se tornar um cientista de dados.

Uma das iniciativas promissoras é o DEVinhouse, projeto da Acate em parceria com o Senai que busca formar desenvolvedores em nove meses.

O único pré-requisito é o ensino médio completo. Há processo seletivo e quem possui conhecimentos básicos em desenvolvimento de sistemas e programação sai na frente.

“Em uma das primeiras edições, dos 40 participantes, em seis meses de curso a empresa madrinha contratou 12 e vários outros garantiram emprego ao longo dos estudos”, lembra Marafon.

A procura pela capacitação é grande, foram 800 inscritos, desde doutores até profissionais de outras áreas querendo migrar para a tecnologia.

São José também lançou um projeto pensando nas tendências globais para o mercado de trabalho.

Neste caso, focado em crianças e adolescentes. Chamada de “Movimento Geração do Futuro”, a ação pioneira no Brasil quer preparar os estudantes desde o ensino fundamental, com o apoio de empresas de tecnologia.

As aulas devem começar ainda em 2021, no contraturno escolar, atendendo mais de 2,7 mil alunos em quatro anos.

Eles estão um passo à frente

Há quem diga que os dados são o petróleo do século 21: só têm valor se são processados. Na era do big data, em que bilhões de informações são geradas a cada segundo, interpretá-las e transformá-las em estratégia virou tarefa essencial dentro das empresas.

Por isso, um dos profissionais mais requisitados atualmente é o cientista de dados, carreira considerada pela Harvard Business School como a “mais quente” dos próximos anos. 

Richerland Medeiros, 33 anos, antecipou uma demanda que nem existia quando surgiu o interesse pela tecnologia, ainda na infância. Começou trabalhando com provedores de internet, se apaixonou pelo desenvolvimento de sistemas e foi fisgado de vez pela inteligência artificial, área na qual se destacou.

O cientista participou da criação do primeiro software jurídico do país, que foi vendido para o banco Itaú. 

Adquirir conhecimento para desenvolver um produto pioneiro levou tempo. A facilidade com a área das exatas, especialmente matemática e estatística, ajudaram Richerland a traçar um caminho de sucesso.

Na época o diploma ainda tinha um peso grande na hora da contratação, então era imprescindível cursar a graduação. Só que para o cientista foi difícil acertar o curso: ele iniciou sete faculdades, mas só concluiu uma.

Apesar disso, nunca parou de estudar, fez mestrado e quer começar o doutorado em breve.

O currículo recheado de habilidades chamou a atenção de empresas catarinenses. Até que um recrutador convidou Richerland para trabalhar em uma startup manézinha.

Ele largou São Paulo e embarcou rumo a Florianópolis, onde foi responsável por montar a equipe de inteligência artificial de uma das maiores companhias de desenvolvimento de software do país. Hoje ele atua como chefe de tecnologia da Pixeon, que produz sistemas de gestão para hospitais, laboratórios e outros empreendimentos na área da saúde.

Cargos cobiçados

O cientista de dados é cobiçado por grandes empresas. Hoje já faltam profissionais qualificados para ocupar as vagas em aberto e Richerland acredita que nos próximos cinco anos a escassez deve aumentar.

Como a oferta é menor que a demanda, a carreira costuma ter remuneração elevada, que de acordo com o Guia Salarial 2021 da Robert Half, pode chegar até R$ 26,7 mil, dependendo do nível de experiência.

Ninguém se torna cientista de dados da noite para o dia. Quando Richerland apostou na profissão, ainda não existiam cursos específicos para formar esse tipo de profissional.

Mas as instituições de ensino superior já entenderam a importância da carreira e hoje a Universidade de São Paulo, a melhor do país segundo vários rankings, oferece curso de graduação em estatística e ciência de dados.

Crimes cibernéticos criaram novas demandas de trabalho

Ritchiê Alves Lehmkuhl, 37 anos, também arriscou quando assumiu a carreira de perito forense digital, há 10 anos.

Ele já trabalhava com tecnologia, portanto tinha conhecimento em informática e segurança da informação, e participou dos primeiros cursos na área oferecidos no Brasil.

No início a demanda por serviço não era surpreendente, mas nos últimos cinco anos houve um boom da profissão.

<span style="font-weight: 400;">Ritchiê Alves Lehmkuhl é perito forense digital</span> &#8211; Foto: Leo Munhoz/NDRitchiê Alves Lehmkuhl é perito forense digital – Foto: Leo Munhoz/ND

Com as pessoas cada vez mais conectadas ao ambiente digital, redes sociais bombando e facilidade de anonimato na internet, os crimes cibernéticos, como golpe do WhatsApp e clonagem de dados bancários, aumentaram.

Durante a pandemia, os ataques se tornaram ainda mais frequentes e o Brasil chegou a registrar 3,4 bilhões de tentativas criminosas em 2020, de acordo com a Fortinet Intelligence Insider Latin America. 

O perito forense digital faz o rastreamento de crimes cibernéticos e reúne provas para identificar os culpados.

Pode trabalhar como oficial, quando é nomeado por um juiz para fornecer um parecer em casos, ou de maneira não oficial, tentando provar a autoria de ataques cometidos dentro de empresas, por exemplo.

Apesar de não exigir uma formação específica, Ritchiê lembra que, para seguir na carreira, é necessária uma gama vasta de conhecimentos técnicos, já que o profissional pode fazer desde perícias simples em celulares até em relógios-ponto.

Os honorários da profissão são elevados, o que, segundo Ritchiê, às vezes impede a contratação, já que muitas pessoas ainda não se dispõem a pagar pelo serviço.

Para identificar o autor de uma injúria racial anônima no Instagram, por exemplo, o valor varia de R$ 4 mil a R$ 5 mil.

Porém, o catarinense garante que o mercado de trabalho para peritos forenses é promissor.

Hoje existem cerca de 500 profissionais inscritos nos tribunais do Estado, mas muitos não são convocados por não possuírem os conhecimentos necessários.

Por isso, para se destacar na carreira, a fórmula é apostar em cursos de especialização e até de pós-graduação, que já existem no Brasil com duração de 10 meses.