Escola de Oleiros de São José passa por reformas e se prepara para receber nova turma de alunos

O objetivo é priorizar o trabalho profissionalizante

Rosane Lima/ND

Lourival Medeiros assumiu a olaria do pai há 12 anos

O antigo telhado foi trocado, as paredes ganharam novos tons, a fachada foi revitalizada. Com essas mudanças, a casa de 130 anos que abriga a Escola de Oleiros Joaquim Antônio de Medeiros, na Ponta de Baixo, em São José, se prepara para receber novos alunos a partir desta quarta-feira (22). As aulas também mudaram de foco e vão priorizar o trabalho profissionalizante da centenária arte local. Quatro professores vão receber os cerca de 150 alunos de todas as idades que frequentem as aulas. Mais que ensinar, eles têm uma nobre missão: manter viva a tradição.

Atual diretor da escola, Lourival Medeiros aprendeu ali a lidar com a cerâmica. Durante toda a vida, deu a ela um contexto mais artístico até que, há 12 anos, assumiu a olaria do pai, no centro histórico de São José. É um dos poucos estabelecimentos que sobreviveram na cidade. Segundo Lourival, é possível contar nos dedos quantos são. Percebendo que a tradição tendia a morrer, surgiu a ideia da criação da escola, há 22 anos. “Veio em uma época bem oportuna porque conseguiu manter viva essa tradição”, avalia Lourival. Mantida pela Fundação Cultural do município, a unidade tem sobrevivido ao tempo, cumprido seu papel e ainda garantido uma fonte de renda para a população.

A maioria dos alunos tem entre 30 e 40 anos. “São pessoas que já têm uma trajetória e optam por um estilo de vida diferente”, analisa o diretor. Mas há, também, crianças a partir dos nove anos que se interessam pelo assunto. “Algumas acabam se encontrando com seu dom artístico e começam a se descobrir aqui também”, completa.    

O curso oferece diferentes possibilidades: roda de oleiro, figurativo e de modelagem livre. No total, o aluno pode passar até quatro anos estudando ali. E Lourival faz planos para que o trabalho seja ainda mais abrangente. “Tenho projeto de construção de uma nova sala e uma olaria que seja uma incubadora, para que os alunos aprendam a produzir em série até conseguir mercado”, explica. Apoio para que isso aconteça não falta.

Professores são parte da história

Na última segunda-feira (20), no meio do que para muitos se tratava de um feriadão prolongado, professores da escola trabalhavam ao lado dos operários que finalizavam a reforma. Cuidavam do jardim e dos acabamentos. Myllene Machado de Albuquerque, 57 anos, professora de modelagem e peças figurativas, foi aluna da escola e hoje ensina. “Aprendi com os mestres e voltei como professora”, resume.

Luciano da Silva, 39, ensina modelagem. “Sou neto de oleiro”, ele conta. Conheceu a escola anos trás quando acompanhava um amigo e fez algumas aulas. Dedica-se à função de professor desde 2001.

Ilson Roberto dos Santos, 58, aprendeu a profissão com o pai e o avô e hoje ensina os alunos a trabalharem na roda tradicional de oleiro. “Deixamos as pessoas preparadas para continuar essa tradição”, acredita. É isso que também motiva Pedro João da Rosa, 67, oleiro há 53 anos. “Enquanto estivermos vivos, essa profissão vai sobreviver”, garante.

Pedro aprendeu a função no início da adolescência. “Fui aluno da segunda oleira de São José”, salienta, ao lembrar de ‘Dona Nilza’. Pedro conta que se tratava de uma profissão masculina, mas ela, transgressora, não se intimidou. “Chamavam de ‘machorra’, e ela desafiou. Começou em Joinville, onde nasceu, e trouxe seu brilhantismo para cá”, conta. Com Dona Nilza, Pedro começou a trabalhar e não abandonou mais a profissão. Nativo de São José, viu muitas olarias abrirem, fecharem e chegou a temer que a função não sobrevivesse. É por isso que faz sua parte, todos os dias, para que a tradição seja mantida. Até porque não sabe, e nem quer, fazer outra coisa da vida.

Escola é referência

O diretor da unidade, Lourival Medeiros, conta que se trata da única escola com esse perfil na América Latina. Além disso, em viagem à Europa, percebeu que nem mesmo no berço da cerâmica feita aqui a tradição é mantida de forma tão específica. “Nossa cerâmica, o método de trabalho, é açoriano. Mas mesmo nos Açores, eu estive lá, não tem uma escola como a nossa. Em razão disso, a cerâmica feita aqui se encontra mais conservada do que a feita lá”, afirma. “Para ver a importância que tem essa escola para a cidade, porque uma das maiores tradições da cultura josefense é a cerâmica”, completa. Com esse conhecimento do cenário, Lourival pretende buscar parcerias, inclusive com Portugal, para manter a tradição.

Ele é um fiel defensor da arte e acredita que vale a pena incentivar a capacitação. “Há um mercado, eu tenho certeza disso, e acredito que hoje existe mais demanda de procura do que de oferta”, avalia. “Restaurantes, lojas de decoração, procuravam cerâmica em São José. Eles continuam atuando, a procura fica maior, há um mercado muito grande. É questão de organizar isso e abrir novas olarias para que saibam que São José continua produzindo”, aposta Lourival. 

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