Analfabeta até os 58 anos, catarinense lança livro de poesias inspirado na vida no campo

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Aos 58 anos de idade, Maria Moraes de Andrade ainda era analfabeta. Agora, aos 78, ela comemora o lançamento de seu primeiro livro de poesias, intitulado “Da enxada pro lápis”. A obra de Dona Maria, mãe de três filhos e natural de Criciúma, aborda temas do seu dia a dia de quando era agricultora.

A escritora, na frente do Palácio Cruz e Sousa – Foto: João Favila/Prefeitura de Florianópolis/Divulgação/ND

A narrativa da autora começa em Rondônia, na região Norte, onde ela morou por 30 anos. Junto ao falecido marido, José de Andrade, Maria Moraes de Andrade trabalhava no campo como agricultora. A catarinense voltou aos estudos incentivada por José, que sabia do amor da esposa pelos poemas. “Ele disse para mim que estava na hora de trocar a enxada pelo lápis”, conta.

Maria cultiva os traços de poetisa desde criança, quando seu sonho era escrever versos. Desde pequena, a ressignificação das palavras já estava presente nas suas criações mentais. As junções de palavras eram cantadas por ela, a criança cheia de esperança.

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“Minhas poesias são autodidatas, tenho influência nas letras de músicas de raiz sertaneja”, revela. A trilha dos estudos começou em Rondônia. Maria precisava ajudar o marido na fazenda, pois o sonho de José era ser proprietário de uma terra. Em um acordo com a professora, a poetisa conseguiu conciliar os dois mundos. Uma semana ela sentava no banco escolar e na outra ajudava o marido na lavoura.

Após José morrer por causa de um câncer, Maria mudou-se para Florianópolis. Na capital catarinense, conheceu a Educação de Jovens, Adultos e Idosos, a EJA. Graças à modalidade de ensino, Maria reacendeu seu antigo sonho de menina: escrever poemas. Esse sonho vem dos pais, que, assim como ela, faziam da vida inspiração para os versos.

Após se mudar para Florianópolis, Maria conheceu ao EJA e reacendeu seu antigo sonho de menina: escrever poemas – Foto: João Favila/Prefeitura de Florianópolis/Divulgação/ND

“Minha mãe Antônia contava histórias para que eu e meus irmãos caíssemos no sono. Um dia, ela disse que estava na hora de nós aprendermos a contá-las sozinhos”, comenta Maria. “O conto do bauzinho – que falava sobre as noivas que preparavam o enxoval – foi inspiração para a minha primeira poesia cantada, pois não sabia escrever”, lembra.

Um novo aprendizado

Em 2011, munida com a vontade de aprender, entrou na EJA, no Neti (Núcleo de Estudos da Terceira Idade), localizado na Universidade Federal de Santa Catarina. Após conquistar seu certificado, partiu rumo a mais uma etapa. Em 2017, Maria concluiu o ensino médio no Ceja (Centro de Educação de Jovens e Adultos).

Maria vira escritora

No dia em que completou seus 78 anos, a senhora, com olhar meigo e delicado, lançou seu primeiro livro de poesias, no Sesc Prainha, acompanhada dos filhos, netos, amigos e colegas orgulhosos pelo sucesso de sua trajetória. “Da enxada pro lápis” é recheado com 124 versos, de temas variados que abordam o dia a dia de uma longa vida. Alguns têm como tema a infância da escritora. Produzido pela editora Papa-livros, a obra custa R$ 30 e tem com 142 páginas.

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