Mais que um artista, Rodrigo de Haro é exaltado como uma usina de saber

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Rodrigo de Haro não nasceu em Paris por acaso – na sua Lagoa da Conceição ele reverbera, sem alarde, o que a Cidade Luz, centro do mundo por tantos séculos, representa em termos de arte, ideias e sabedoria. São poucas as pessoas que detêm, por aqui, semelhante erudição e ousadia no fazer artístico, seja em versos, seja a partir da manipulação do lápis e dos pincéis.

Na quarta-feira (6), Rodrigo completou 81 anos e, ainda que recolhido, teve o trabalho e o talento lembrados entre amigos, admiradores e nas redes sociais – uma boa ferramenta de expressão nesses tempos de confinamento.

O poeta e artista plástico é uma usina de saber, resultado de uma vida de imersão na leitura dos clássicos, na interpretação profunda da cultura oriental, na absorção do legado de filósofos e alquimistas de todas as latitudes.

Sua poesia faz referências ao Zodíaco, ao tarô, a videntes em êxtase, a crenças e seitas imemoriais, à sensualidade que seus traços ressaltam em desenhos sem grande ambição formal.

Ao mesmo tempo, se reporta a figuras e paisagens da Ilha de Santa Catarina, personagens que conheceu e lugares rústicos que o progresso escondeu ou apagou de cinco ou seis décadas para cá.

Um ícone em sua obra é Santa Catarina de Alexandria. “Ela viajou pelo Vaticano e Oriente Médio, vendo as maravilhas e os maiores perigos de seu tempo, e disse que era preciso ter educação e curiosidade pela vida”, contou em uma entrevista ao ND, em 2016.

Da infância e juventude, ele traz as memórias da casa do pai, o também pintor Martinho de Haro, que nasceu em São Joaquim e morava na então pacata rua Altamiro Guimarães. “Ali ouvia, apesar da distância, as tábuas da ponte Hercílio Luz batendo com o passar dos carros, e também escutava os batuques do Morro do Céu”. A seu modo, aquela já era uma cidade festiva, feérica.

Ecletismo e participação no cinema

Poeta, pintor, intelectual, pensador e mosaicista, ele é um criador inquieto, que não consegue ficar parado. Um exemplo de seu ecletismo foi o fato de ter feito os cenários do filme “Cruz e Sousa – O poeta do Desterro” (1998), do cineasta catarinense Sylvio Back.

Durante anos, dividiu-se entre Florianópolis e São Paulo, o que lhe abriu espaços em galerias e entre colecionadores importantes. Em artigo publicado em 2003, o escultor e painelista Henrique Gougon destacou que a arte do mosaico tem em Haro “um realizador emérito, pelo estilo, pela força, pela surpresa de suas obras, pela extravagância do colorido e pela temática, sempre comprometida com nossa latinidade, nossa gente, nossa fé e nossa cultura”.

A história das Américas em um mosaico

Os rastros de Rodrigo de Haro estão em todos os lugares, nas galerias, nas salas de colecionadores, nos museus e nos espaços públicos. Uma oportunidade ímpar de conhecer seu trabalho é apreciar o gigantesco mosaico presente na fachada do prédio da reitoria da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), em Florianópolis.

Ali, em mais de 70 metros quadrados, é possível ler a história das Américas por meio de relatos de viagens, crônicas pré-colombianas, lendas amazonenses, literatura colonial e poemas de autores contemporâneos. Esta obra foi restaurada e vem sendo ampliada, aos poucos, devendo tomar outras partes das paredes externas do prédio.

O gigantesca mosaico, feito em parceria com seu assistente Idésio Leal, traz excertos de textos do folclorista Câmara Cascudo, dos navegadores/cronistas Francisco Lopes de Gómara e Adelbert von Chamisso e de escritores brasileiros como Raul Bopp, Pedro Port e Alcides Buss.

No lado interno do edifício, parte de uma parede é dominada por um mosaico com a imagem de Catarina de Alexandria, padroeira dos estudantes e do Estado de Santa Catarina. E, numa parede a ser refeita, está a obra “Travessia”, com os traços de Rodrigo de Haro e os seres míticos que predominam em sua obra plástica.

As principais obras

Trinta poemas. São Paulo: Edição do autor, 1961

Pedra elegíaca. Porto Alegre: Edições Flama, 1971

Amigo da labareda. Poesia. São Paulo: Massao Ohno, 1991

Mistério de Santa Catarina. Florianópolis: Athanor, 1992

Porta. Florianópolis: Athanor, 1992

Naufrágios. Florianópolis: Paralelo 27, 1993

Caliban. Florianópolis: Athanor, 1995

Livro da borboleta verde. Florianópolis: Fenasoft, 1998

Andanças de Antônio. Florianópolis: Insular, 2005

Ofícios secretos. Poesia hermética. Florianópolis: Insular, 2011

Uma amizade de seis décadas

O escritor e pesquisador Gilberto Gerlach diz que não teria enveredado pelo universo do cineclubismo se não fosse o incentivo que teve de Rodrigo de Haro, seu amigo há 60 anos.

A par disso, teve a oportunidade de ouvir da mãe do artista, Maria Palma de Haro, as peripécias da família quando o marido Martinho, que se tornaria um dos pintores mais consagrados de Santa Catarina, estudava na França, no fim da década de 1930.

Se, de um lado, havia os temores da guerra e eles foram obrigados a fugir, Maria relatou eventos como o lançamento do clássico “A regra de jogo” e o fato de ter visto passar ao seu lado o cineasta Jean Renoir, diretor do filme.

Para Gilberto, então um jovem cinéfilo, não haveria conversa melhor. Depois, Rodrigo fez as telas que foram para as paredes do recém-reformado Theatro Adolpho Mello, em São José, que também abrigou o Cineclube Nossa Senhora do Desterro.

Em 2019, Gilberto leu, em homenagem aos 80 de Rodrigo, um resumo do livro “A lanterna mágica”, fazendo referências a figuras incríveis do Desterro que quase não aparecem na história oficial. Entre eles, os governadores Tovar de Albuquerque, que promovia enforcamentos no adro da matriz; e Teixeira Omem, o “Sete-carapuças”, que andava pelas ruas, descalço, recitando poemas em latim.

Ao mesmo tempo, para atestar seu amor pela Ilha, Rodrigo fala de marinheiros, artesãs, noviços e desocupados que viviam à margem da orla e do porto.

A lanterna mágica que dá título ao livro é um protótipo do cinematógrafo que chegou ao Desterro em 1785 com o explorador francês Jean-François de La Pérouse. Corriam os anos da revolução francesa, e as precárias exibições eram feitas no largo da matriz, ainda sem as árvores que hoje ornamentam a praça 15 de Novembro.

Um carpinteiro das palavras

A professora e pesquisadora Lélia Pereira da Silva Nunes, que já foi superintendente da Fundação Franklin Cascaes, conheceu a família de Haro no início da década de 1970 e muito cedo aprendeu a admirar o “requinte de ser humano” que é Rodrigo de Haro.

Com vários livros publicados, a maioria voltada para a memória e as manifestações da cultura da Ilha de Santa Catarina, ela é mais uma que se rendeu à “elegância de atitudes” do artista, característica presente em tudo o que faz.

Lélia destaca “a poesia e a carpintaria das obras de Rodrigo” e chama a atenção para sua profunda reverência à imagem e às facetas filosófica e poética de Santa Catarina de Alexandria.

Ao mesmo tempo, Rodrigo de Haro ressalta o lado místico e bruxólico da Ilha, seja na poesia, seja na prosa, seja nas obras de arte que produz. “Ele demonstra requinte no uso da palavra e se preocupa com seus significados”, afirma Lélia ao falar do amigo.

Este ano, que marca o centenário da Academia Catarinense de Letras, é ideia da instituição realizar exposição em homenagem ao artista, cuja erudição não o impede de mesclar a admiração pela cultura milenar do Oriente, por exemplo, com as lendas e contos de origem açoriana e portuguesa trazidos para o Sul do Brasil a partir de meados do século 18.

A Ilha é galopada pelos cavalos

da memória, azuis e negros.

A Ilha desconhece o esquecimento, cipreste

branco. Espumas e pedra”.

(Fragmento do poema “Desterro”, 2002)

Obra singela e profundamente instigante

Por Zeca Pires, cineasta

Meu pai (Aníbal Nunes Pires) frequentava a casa de Martinho e Rodrigo de Haro, artistas que – entre outros – contribuíram com seus talentos nas capas da Revista Sul. Digo isso para mostrar que nossos laços vêm de desde quando eu ainda não era nascido.

A obra de Rodrigo de Haro, seus poemas e textos, suas pinturas e mosaicos,  revelam as riquezas e o estofo cultural desse artista múltiplo e extremamente sensível, que em sua maturidade profícua e criativa – dos pontos altos das suas oito décadas de vida – nos apresenta uma obra singela e profundamente instigante.

Dois exemplos dessa magnitude e dimensão artísticas são os maravilhosos painéis do pai Martinho de Haro e o mosaico do filho, Rodrigo, na UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina).

Passo por ali diariamente e nunca passei direto – cada olhar é uma descoberta. E às vezes tento imaginar quantas histórias essas obras já contaram, quantos olhos já as admiraram, quantos objetos de divulgação da universidade e de fora dela essas obras já embelezaram, quantos filmes as usaram como cenário. Isso é história da arte de Santa Catarina… eternamente!

Inspira!