Bares do Centro Leste de Florianópolis buscam alternativas para não fecharem as portas

Atualizado

Os sócios Guto Lima e Luiz Henrique Cudo rifaram quatro peças antigas raras no último dia 19 para pagar as diversas contas do seu negócio. O valor arrecadado será para manter vivo o Tralharia, um dos primeiros bares de uma leva que abriram na porção leste do Centro de Florianópolis desde 2015.

A casa está fechada desde o dia 17, após o Governo Estadual estabelecer o fechamento de “serviços não essenciais” para combater o avanço do coronavírus. Os donos de bares da região central enfrentam dificuldades em manter seus negócios, recorrendo a novas ideias e ao apoio dos clientes cativos para sobreviverem.

Vida noturna na avenida Victor Meirelles, no Centro de Florianópolis – Foto: Arquivo/Anderson Coelho/ND

Com vigência de sete dias, o decreto estadual de isolamento foi prorrogado por mais sete. Nesta quinta (26), o governo de Santa Catarina apresentou um plano de retomada de setores econômicos, o que inclui a abertura parcial de bares a partir de quarta (1). Porém com o agravamento da epidemia em Santa Catarina e o registro da primeira morte no Estado, há pouca previsão para a situação voltar à normalidade. Mesmo com a reabertura, os proprietários temem a diminuição do público devido ao medo.

Uma festa de dança flamenca foi o último evento do Tralharia, que é também café, loja de antiguidades e espaço de shows. Três dias depois, a roda de choro agendada teve de ser cancelada devido ao decreto assinado no mesmo dia.

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Com rifas oscilando entre R$ 50 a R$ 80, o Tralharia passou a sortear peças que faziam parte da sua loja. “As pessoas estão encampando, nossos clientes são amigos”, conta Lima. Dentre os produtos estão uma máquina, da década de 1930, o quadro do filme “The Looters”, uma câmera fotográfica de 1931 e um baleiro amarelo no estilo vintage.

O dinheiro está sendo direcionado para pagar as contas. Mesmo com as portas fechadas e sem giro de caixa, os sócios continuam pagando o salário da funcionária que atua na casa e dos fornecedores. As contas, como água e luz, e o aluguel das dependências também continuam sendo cobradas.

Entretanto, a dificuldade permanece. “O perfil dos bares daqui não é aquele dos grandes investidores. São bares pequenos que nasceram de uma ideia, não temos esse capital para segurar um estabelecimento fechado. A gente não sabe o que vai acontecer” afirma Lima.

Suspensões de contas não contemplam pequeno empresário

Preocupado com a saúde do público, o recém-inaugurado Desvio Bar, na rua Victor Meirelles, fechou as portas dois dias antes do decreto assinado pelo governador Carlos Moisés “Temos só dois meses, o fluxo de caixa é baixo.Tem aluguel, água, luz. Contamos com a determinação do governo para prorrogar” conta Marcos Espíndola, sócio do bar.

A negativa de algumas imobiliárias em adiar o pagamento de aluguéis dos estabelecimentos, cujo preço na região costuma ultrapassar a casa dos R$ 2 mil, é a que mais preocupa.

Além disso, relatam que as políticas adotadas pelo poder público em meio à pandemia não atingem os pequenos empresários. O adiamento do pagamentos de contas de luz elétrica, água e IPTU (Imposto sobre a Propriedade Predial e Territorial Urbana), entre outros, foram restritos às pessoas físicas.

Os negócios da região sobrevivem um dia após o outro, conta Antônio Turnes, sócio do bar Blues Velvet. “Estudos mostram que para uma nova empresa se estabilizar no mercado leva em torno de dois anos e meio. Somos uma pequena empresa ainda no início da caminhada e com uma grande crise econômica para enfrentar” afirma Turnes.

Reflexos da diminuição do horário

A diminuição do horário de funcionamento dos bares da região pelo Ministério Público em 2019 gerou reflexos na atual crise, dificultando ainda mais a vida dos proprietários, afirma Rose Bär, sócia do Madalena, localizado também na rua Victor Meirelles.

Na época, com o objetivo de “garantir mais segurança”, a redução de horário perdurou por quatro meses.

Apesar de terem alvará para funcionarem até às 2h da manhã, em agosto os bares funcionaram até às 00h. De setembro a novembro o horário foi aumentado em uma hora e os bares passaram funcionar até a primeira hora da madrugada.

“Isso reduziu nosso faturamento bruto entre 50 a 70%. Quando estávamos começando a se recuperar desse baque, vem mais esse”, afirma Rose. “Se a atitude do poder público tivesse sido outra, teria sido mais fácil passar por esse período de crise”, completa.

Para Rose, o Madalena corre sério risco de fechamento. O bar vem negociando com a imobiliária e com os fornecedores a prorrogação dos pagamentos. “O adiamento do aluguel é o que mais nos preocupa, porque é o que mais vai custar. Nesse momento garantir o salário dos fixos é mais importante”.

Estratégias e novos modelos de negócio

Além das rifas, o Tralharia  passou a vender vouchers de consumo (combos de bebidas, entre outros), através de uma plataforma online. Eles poderão ser utilizados pelos clientes assim que o bar reabrir. A medida também foi adotada pelo Blues Velvet. Desde o início desta semana até esta quarta (26) cada bar arrecadou em torno de R$ 1.000.

As sócias do Madalena vêm estudando a possibilidade de começar a fazer delivery dos drinques produzidos. “O problema é que ainda não temos o material suficiente e apropriado para fazer a entrega” conta Rosa. As proprietárias também estudam investir no modelo de vouchers.

Investir no delivery também vêm sendo uma possibilidade estudada pela equipe do Desvio, conta Marcos Espíndola. O bar produz lanches veganos. “Estamos pensando semana a semana, e a cada uma vamos discutindo o que fazer” afirma o sócio.

Os donos dos bares ainda defendem que o Governo deva suspender contas como água e luz, “mesmo que nesse período sejam mínimas”, afirma Rose.

Políticas públicas

Para Rose, o país deveria adotar medidas semelhantes àquelas que estão sendo aplicadas em países europeus, como a Alemanha, França e Espanha. Além da redução ou isenção dos impostos, os países estão direcionando subsídios para os pequenos empresários.

Os comerciantes da região também estão tentando dialogar com as imobiliárias para propor soluções para o pagamento dos alugueis do mês, como a suspensão ou o parcelamento.

No momento de reabertura, Espíndola espera que os poderes forneçam medidas que auxiliem a reestruturação das empresas, como suporte a linha de crédito para cobrir as taxas. Além disso, conta com medidas como a redução de juros para captação de crédito.

Para o sócio, as políticas governamentais são ainda mais necessárias uma vez que os problemas econômicos também atingem os clientes. “Tem a descapitalização nossa, mas também a do público. Há muita gente que trabalha de forma autônoma”, afirma.
 

Campanhas

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-> Campanha O Tralharia é Nosso

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