Bibi Ferreira estreou no teatro com 24 dias de vida

Pelos dados oficiais, Bibi Ferreira tinha 77 anos de carreira. Mas a atriz e diretora, que morreu aos 96 anos de idade, estava no teatro havia muito mais tempo. Sua estreia ocorreu ainda aos 24 dias de vida – quando foi levada à cena para substituir uma boneca que havia sumido – e ela, desde então, esteve sob os holofotes. Dizia adorar as luzes. E, fosse cantando, fosse representando, havia sempre um próximo espetáculo nos planos de Bibi.

A carreira praticamente centenária, não lhe tirou, contudo, o nervosismo de iniciante. “Sabe que eu ainda sinto uma angústia naqueles instantes antes de entrar em cena? Aquele lugar, depois que você sai do camarim, e ainda não está no palco. Aquele cantinho… É ali que eu sinto um terror”, ela relatou em entrevista ao jornal “O Estado de S. Paulo”, quando completou 90 anos.

Falar com Bibi era estar diante do teatro brasileiro e de suas pequenas grandes revoluções. Filha de Procópio Ferreira (1898-1979), ela carregava do pai o amor pela cena e o pendor para o sucesso – a família vivia da bilheteria de seus espetáculos e não podia se dar ao luxo de um fracasso. Mas, curiosamente, foi Bibi uma das primeiras a suplantar o modelo de atuação que Procópio representava. Considerado o maior artista de seu tempo, ele reinava soberano quando as cortinas se abriam. Em cena, fazia o que bem queria, ajustava os textos ao seu talento, relegava todos os outros ao lugar de coadjuvantes. Tratava-se de um tempo em que o diretor não passava de mero ensaiador e todo o público estava interessado, unicamente, em ver o primeiro ator brilhar.

Bibi era filha da tradição (do teatro de comédia e do teatro de revista, onde trabalhara sua mãe), porém representante da modernidade. Nos anos 1940, tudo começava a mudar. O Teatro Brasileiro de Comédia chegava com novas ideias: o ator precisava decorar os seus diálogos, haveria um encenador que decidiria a concepção das montagens, sofisticava-se o repertório. A jovem Bibi se alinhava a essa corrente. À sua presença arrebatadora, acrescia uma técnica rara para os padrões da época. Ainda menina, integrou o Corpo de Baile do Teatro Municipal do Rio de Janeiro e, em 1946, foi estudar na Royal Academy of Dramatic Arts de Londres. Ao voltar, surpreendeu a crítica com sua primeira direção em Divórcio (1947) e fez ainda mais sucesso com a encenação de A Herdeira, de Henry James (1952).

Na sala do apartamento onde morava, no Rio, a atriz guardava um retrato emoldurado do pai. Mas não creditava apenas a ele as lições aprendidas. Era descendente de cantores líricos: “Meus bisavós se conheceram no coro do Teatro Solis, de Montevidéu”, contava. “E minha avó, filha deles, já acordava cantando árias de ópera. Cantava o dia inteiro”. Bibi também cantava o tempo todo. E cantava sem perceber. Parecia que cada lembrança de sua vida era acompanhada por uma canção, que ela desfiava a melodia como se fosse parte da história a ser contada.

Foi no teatro musicado, aliás, que Bibi deixou sua maior contribuição. Será lembrada por suas grandes atuações no gênero, como em My Fair Lady, (1964) e em O Homem de La Mancha (1972) – ambos com Paulo Autran. Outra parceria profícua na carreira ela estabeleceu com seu quarto e último marido, Paulo Pontes. Dele, dirigiu o musical Brasileiro: Profissão Esperança, obra de imenso sucesso, e protagonizou Gota Dágua (1975). A peça escrita por Pontes e Chico Buarque deu à atriz a oportunidade de viver uma personagem de coloração trágica. Talvez Joana tenha sido sua mais memorável interpretação – ninguém nunca superou sua versão para aquelas canções e ela ainda sabia, 40 anos depois, seus diálogos de cor.

Bibi dizia que o segredo da saúde era a vida regrada. Não fumava, não bebia. “Não que eu seja contra”, ela justificava. Mas seus vícios eram outros: Um par de sapatos sempre muito altos – para compensar a baixa estatura -, batom sempre vermelho, um copo de Coca-Cola, que ela ia tomando devagarinho enquanto conversava, e o trabalho. A grande atriz não pensava em parar. Ela ainda precisava voltar a viver Piaf, tornar a cantar Frank Sinatra, viajar pelo mundo. Estar sempre e mais uma vez no palco.

(Maria Eugênia de Menezes, São Paulo)

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Bibi Ferreira, que morreu nesta quarta, aos 96 anos, estreou no teatro com 24 dias de vida

Bibi Ferreira era versátil, na música interpretou canções de Edith Piaf, Amália Rodrigues, Carlos Gardel, entre outros, no palco, brilhou em espetáculos como “Gota d’água” - ANTÔNIO MILENA/ESTADÃO CONTEÚDO/ND
Bibi Ferreira era versátil, na música interpretou canções de Edith Piaf, Amália Rodrigues, Carlos Gardel, entre outros, no palco, brilhou em espetáculos como “Gota d’água” – ANTÔNIO MILENA/ESTADÃO CONTEÚDO/ND

Pelos dados oficiais, Bibi Ferreira tinha 77 anos de carreira. Mas a atriz e diretora, que morreu aos 96 anos de idade nesta quarta (13), estava no teatro havia muito mais tempo. Sua estreia ocorreu ainda aos 24 dias de vida – quando foi levada à cena para substituir uma boneca que havia sumido – e ela, desde então, esteve sob os holofotes. Dizia adorar as luzes. E, fosse cantando, fosse representando, havia sempre um próximo espetáculo nos planos de Bibi.

A carreira praticamente centenária, não lhe tirou, contudo, o nervosismo de iniciante. “Sabe que eu ainda sinto uma angústia naqueles instantes antes de entrar em cena? Aquele lugar, depois que você sai do camarim, e ainda não está no palco. Aquele cantinho… É ali que eu sinto um terror”, ela relatou em entrevista ao jornal “O Estado de S. Paulo”, quando completou 90 anos.

Falar com Bibi era estar diante do teatro brasileiro e de suas pequenas grandes revoluções. Filha de Procópio Ferreira (1898-1979), ela carregava do pai o amor pela cena e o pendor para o sucesso – a família vivia da bilheteria de seus espetáculos e não podia se dar ao luxo de um fracasso. Mas, curiosamente, foi Bibi uma das primeiras a suplantar o modelo de atuação que Procópio representava. Considerado o maior artista de seu tempo, ele reinava soberano quando as

cortinas se abriam. Em cena, fazia o que bem queria, ajustava os textos ao seu talento, relegava todos os outros ao lugar de coadjuvantes. Tratava-se de um tempo em que o diretor não passava de mero ensaiador e todo o público estava interessado, unicamente, em ver o primeiro ator brilhar.

Bibi era filha da tradição (do teatro de comédia e do teatro de revista, onde trabalhara sua mãe), porém representante da modernidade. Nos anos 1940, tudo começava a mudar. O Teatro Brasileiro de Comédia chegava com novas ideias: o ator precisava decorar os seus diálogos, haveria um encenador que decidiria a concepção das montagens, sofisticava-se o repertório. A jovem Bibi se alinhava a essa corrente. À sua presença arrebatadora, acrescia uma técnica rara para os padrões da época. Ainda menina, integrou o Corpo de Baile do Teatro Municipal do Rio de Janeiro e, em 1946, foi estudar na Royal Academy of Dramatic Arts de Londres. Ao voltar, surpreendeu a crítica com sua primeira direção em Divórcio (1947) e fez ainda mais sucesso com a encenação de A Herdeira, de Henry James (1952).

Na sala do apartamento onde morava, no Rio, a atriz guardava um retrato emoldurado do pai. Mas não creditava apenas a ele as lições aprendidas. Era descendente de cantores líricos: “Meus bisavós se conheceram no coro do Teatro Solis, de Montevidéu”, contava. “E minha avó, filha deles, já acordava cantando árias de ópera. Cantava o dia inteiro”. Bibi também cantava o tempo todo. E cantava sem perceber. Parecia que cada lembrança de sua vida era acompanhada por uma canção, que ela desfiava a melodia como se fosse parte da história a ser contada.

Foi no teatro musicado, aliás, que Bibi deixou sua maior contribuição. Será lembrada por suas grandes atuações no gênero, como em My Fair Lady, (1964) e em O Homem de La Mancha (1972) – ambos com Paulo Autran. Outra parceria profícua na carreira ela estabeleceu com seu quarto e último marido, Paulo Pontes. Dele, dirigiu o musical Brasileiro: Profissão Esperança, obra de imenso sucesso, e protagonizou Gota Dágua (1975). A peça escrita por Pontes e Chico Buarque deu à atriz a oportunidade de viver uma personagem de coloração trágica. Talvez Joana tenha sido sua mais memorável interpretação – ninguém nunca superou sua versão para aquelas canções e ela ainda sabia, 40 anos depois, seus diálogos de cor.

Bibi dizia que o segredo da saúde era a vida regrada. Não fumava, não bebia. “Não que eu seja contra”, ela justificava. Mas seus vícios eram outros: Um par de sapatos sempre muito altos – para compensar a baixa estatura -, batom sempre vermelho, um copo de Coca-Cola, que ela ia tomando devagarinho enquanto conversava, e o trabalho. A grande atriz não pensava em parar. Ela ainda precisava voltar a viver Piaf, tornar a cantar Frank Sinatra, viajar pelo mundo. Estar sempre e mais uma vez no palco.

(Maria Eugênia de Menezes, São Paulo)

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