Castelo no bairro José Mendes ajuda a contar a história do bairro

Atualizado

O bairro José Mendes, na região central de Florianópolis, tem uma escola estadual, duas creches, um sítio arqueológico, uma ilha, dez escritórios de advocacia, seis hotéis, duas praias, uma igreja e um castelo.

O castelinho, como é chamado pelos moradores é uma importante construção para os bairros José Mendes e Saco dos Limões – Foto: Flávio Tin/ND

O último, uma construção da década de 1960, é motivo de suposições e fofocas. Há quem já tenha visto placas de venda e anúncios na internet.

Com cinco andares e vista para a Baía Sul, o “castelinho”, como é carinhosamente chamado pelos moradores, foi construído pelo Coronel Rui Stockler de Souza.

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Stockler ocupou o comando da Polícia Militar de Santa Catarina pelo curtíssimo período que separa os dias 17 de setembro de 1963 e 20 de outubro do mesmo ano. O coronel esteve também à frente da penitenciária de Florianópolis.

Quem lembra bem do vai-e-vem de pedreiros e serventes é Beto Boca. Morador do bairro há quase 70 anos, Beto vive em frente à construção desde o dia em que nasceu. “Não nasci em maternidade, nasci em casa de parteira”, recorda.

Beto conta que Stockler projetou no José Mendes uma construção ambiciosa. Com torres com detalhes avermelhados e paredes de pedras, o castelo tomou forma com o trabalho dos apenados da penitenciária.

O coronel Rui Stockler de Souza planejou o castelinho – Foto: PMSC/Divulgação

O coronel morreu em antes que o castelo estivesse pronto. Contudo, a construção inacabada serviu de moradia para sua companheira e os dois filhos do casal.

Vendido anos depois pelos filhos de Stockler, o castelo teve finalmente sua edificação completada. Além dos cinco andares, ele ganhou píer, piscina, churrasqueira e salão de festas.

Limite com o Saco dos Limões

Segundos os limites distritais estabelecidos pela Prefeitura de Florianópolis, o “castelinho” pertence ao Saco dos Limões, bairro vizinho ao José Mendes.

A divisão é feita respeitando a curva da rua José Maria da Luz. Tudo que está do lado esquerdo Centro Espírita Juvêncio Araújo Figueiredo é José Mendes. A direita, Saco dos Limões.

Localizado à direita, o castelo está oficialmente localizado no Saco dos Limões. O que acontece é que antes da divisão, ele servia como referência para dividir os dois bairros.

“Recebemos a conta de luz chamando de José Mendes e a de água falando em Saco dos Limões”, comenta Erick, um dos funcionários do M&M consultoria.

As peculiaridades do José Mendes

O José Mendes é o bairro onde, na época do geógrafo Eduardo de Souza, se brincava de ratoeira e boi-de-mamão. Hoje em dia, as crianças aproveitam a falta de lotação em um estacionamento para brincar.

Eduardo, que é diretor da Escola de Ensino Básico Jurema Cavallazzi e morador da curva que separa geograficamente o Saco dos Limões do José Mendes, tem verdadeira paixão pelo bairro.

Ele é o responsável pelo livro “Conhecendo o bairro José Mendes”. Em 26 páginas, o texto apresenta a história, lendas e características de fauna e flora.

No José Mendes, após a construção do túnel Antonieta de Barros em 2000, foi possível ouvir o canto das gaivotas, biguás, martins pescador, atobás, talhas-mar, trinta-réis e aracuãs.

As aves típicas da fauna do bairro somam-se aos botos, que ocasionalmente aparecem para uma visita. Outra moradora conhecida é a aranha-ferro. Sua principal característica é odor forte, emitido quando se sente ameaçada.

Pelo bairro à beira-mar percorrem pelo menos cinco linhas de ônibus —  135 (Volta ao Morro/Carvoeira Norte), 136 (Volta ao Morro/Carvoeira Sul), 137 (Volta ao Morro/Pantanal Norte), 138 (Volta ao Morro /Pantanal Sul) e 183 (Corredor Sudoeste).

Casamento deu origem ao bairro

O livro de Eduardo conta também a história do português José Mendes dos Reis. Natural da cidade de Leira, ele chegou a Florianópolis em 1737 como membro da Tropa Militar.

José casou com Maria Rita, filha do frei Agostinho da Trindade. Ele recebeu como dote parte das terras que hoje formam o bairro José Mendes, inclusive uma ilha.

O bairro passou então a se chamar José Mendes. Vieram também os casarões, as fábricas de pólvora, da Coca-Cola, a distribuidoras de bebidas, as famílias Xavier — e com eles os fogos de artifício.

Segundo o censo de IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), em 2010 a população do bairro era de 3.514 habitantes. Desse montante pelo menos dois continuam no bairro: Osmarina e Paulo Villalva.

O casal têm em comum a paixão e conhecimento pelas artes. Osmarina e Paulo montam no jardim de casa presépios em tamanho natural há 13 anos. No bairro moram há 27.

O amor pelo José Mendes não fica restrito apenas aos moradores. O arquiteto Cesar Floriano enxerga o lugar como um dos mais nobres da área central de Florianópolis. “O bairro tem potencial para ser a nossa Santa Tereza”, diz em referência a localidade turística do Rio de Janeiro.

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