Cobertura polêmica do Mercado Público de Florianópolis é finalista em prêmio nacional

Necessária, reivindicada há pelo menos uma década e envolta de opiniões divergentes após sua conclusão, a cobertura do vão central do Mercado Público de Florianópolis completa um ano de sua entrega oficial neste sábado (1) e como concorrente a um prêmio de arquitetura nacional. No último dia 12 de junho foi anunciado que o projeto ficou entre os dez finalistas do 4º Prêmio Tomie Ohtake, escolhido entre os 186 inscritos provenientes de 12 Estados brasileiros e Distrito Federal.

A premiação é destinada exclusivamente a arquitetos brasileiros ou estrangeiros que vivam no Brasil há pelo menos dois anos, com até 45 anos de idade, e projetos construídos durante os últimos dez anos. Entre os concorrentes há obras localizadas em São Paulo, Tocantins, Distrito Federal, Rio Grande do Sul e Cidade do México, além de Santa Catarina. O nome do grande vencedor sai no dia 10 de agosto, em São Paulo.

Cobertura do vão central do Mercado Público de Florianópolis - Marco Santiago/ND
O fato de ela ser robusta demais e de não proteger totalmente em dias de chuva foram os principais pontos de crítica – Marco Santiago/ND


Mas além da expectativa em Florianópolis, a cobertura está longe de ser unânime. O concurso nacional para a escolha do projeto foi realizado em setembro de 2013 pela prefeitura de Florianópolis em parceria com o IAB-SC (Instituto de Arquitetos do Brasil). Uma das principais exigências era que ela fosse retrátil e transparente.

Ao todo foram inscritos 64 trabalhos. O resultado saiu dois meses depois. Os vencedores foram os arquitetos paranaenses Gustavo Correia Utrabo e Pedro Lass, que receberam o prêmio de R$ 20 mil. A cobertura do vão central custou R$ 4,2 milhões à prefeitura. A Esfera Sul executou a parte de instalação da estrutura e da cobertura retrátil, e está com a manutenção da estrutura até 2018, segundo a SMDU (Secretaria Municipal do Meio Ambiente Desenvolvimento Urbano).

A estrutura é composta por um metal não oxidável com partes retráteis, para possibilitar a abertura e fechamento da cobertura de acordo com as mudanças climáticas, e deve permanecer no local por 30 anos. O sistema de abre e fecha ocorre por meio de uma sala de controle, e em casos de vento acima de 69 km/h ou incêndio, abre automaticamente.

O arquiteto Lass, em entrevista ao Notícias do Dia, explicou que em quase 100% dos concursos de arquitetura, o pedido é por projetos em estágio de “Estudo Preliminar” ou “Anteprojeto”. Isso significa que não foi entregue o projeto da cobertura do Mercado Público finalizado, com todos os desenhos e medidas, mas ideias de soluções partidas. Já a construção da cobertura ficou sob responsabilidade da Esfera Sul, escolhida por meio de licitação e supervisionada pela secretaria de obras.

Parte do memorial para o projeto explica que “no contexto onde se insere o projeto, há uma multiplicidade de tempos concomitantes, pautados nos últimos 160 anos pela afluência de usuários ao Mercado Público de Florianópolis, cuja história inclui demolições, mudanças de local, renovações diversas, e a participação ativa de gerações de consumidores, vendedores e administradores. A nova cobertura para o vão central configura-se, então, como mais um elemento nessa narrativa, e como tal deve respeitar e adicionar ao existente sem tornar-se irrelevante ou caracterizar-se como mero fechamento. Cria-se uma nova escala, protegida dos elementos, com o intuito de suportar adequadamente novas histórias complementares: feiras temporárias, apresentações culturais, festividades, projeções, desfiles, etc.”

Cobertura não impede a chuva 

Hoje, segundo o presidente da associação do Mercado Público, Aldonei Brito, a cobertura funciona perfeitamente e atende às necessidades dos comerciantes. “O vão central é só de restaurantes e bares, e para atender com calor, o guarda-sol virava, além da chuva que mandava todo mundo embora. Agora os clientes têm comodidade”, explica Brito.

Apesar dos benefícios da cobertura, uma das reivindicações do concurso era que a nova estrutura não encostasse nas paredes do Mercado, com isso, de acordo com Brito, foi preciso fazer um afastamento da coberta nas laterais de cerca de 1m20cm, fazendo com que a chuva ainda atrapalhe quem passa pelo local. “A chuva atinge o corredor ainda, mas resolvemos usando os ombrelones”, diz.

O arquiteto Lass coloca que todo processo foi feito com aprovações junto aos órgãos da prefeitura e do patrimônio histórico de Florianópolis, e que as mudanças no projeto – como o caso da lona que era para ser translúcida, mas foi usada a branca por causa do calor -, vieram a partir de questões técnicas e econômicas sempre com conversas com o corpo de profissionais do patrimônio. “Desde o concurso, a grande restrição é que a cobertura não deveria tocar o edifício existente, por questões de respeito ao prédio mas também por questões estruturais, assim ele fica um pouco mais sujeito às intempéries em caso de chuvas com ventos mais fortes. É também uma ideia de não se descaracterizar o local como espaço público/rua tornando-o completamente hermético e desvinculado do exterior”, pontuou Lass.

Cobertura do vão central do Mercado Público de Florianópolis - Marco Santiago/ND
Júri destacou projetos que atenderam de maneira exemplar usos coletivos e condições sociais – Marco Santiago/ND


Projeto marca um tempo 

Especialistas no assunto em Florianópolis ainda não acreditam que projeto tenha sido a melhor escolha para a estrutura arquitetônica do Mercado. Gustavo Andrade, arquiteto morador de Florianópolis, pesquisador do Laboratório Cidade e Sociedade da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), com doutorado em urbanismo em Barcelona, afirma que o fato de surgir um concurso nacional para uma obra do município é positivo e necessário para transformações mais significativas na cidade. “Por si só, o concurso tem o mérito de democratizar a decisão sobre uma reforma que afeta a vida dos comerciantes do mercado, mas da população que o utiliza e que se relaciona com a preservação de um patrimônio arquitetônico importante na história e na memória de Florianópolis”, diz.

Para ele, o projeto escolhido propôs uma nova estrutura metálica independente que não toca o edifício antigo, uma atitude de respeito ao patrimônio. Mas ao mesmo tempo a nova estrutura, excessivamente robusta, busca se destacar indevidamente pelo protagonismo em um contexto onde seria melhor a discrição. “O projeto foi infeliz ao propor colunas e vigas de aparência superdimensionada, com peso visual desequilibrado, resultado da redução da estrutura a apenas dois pontos de apoio. Seria preferível uma estrutura mais esbelta, ainda que necessitasse mais pontos de apoio. A interferência visual seria menor, seria uma solução mais respeitosa com o edifício do Mercado Público e o resultado seria esteticamente mais elegante”, opina Andrade.

O arquiteto finaliza explicando que “reabilitar edifícios antigos e promover novos usos sem excluir os usuários tradicionais têm sido um dos maiores desafios contemporâneos na intervenção no patrimônio histórico”. Segundo ele, a cidade de Barcelona, por exemplo, enfrentou críticas no passado quando construiu uma nova cobertura para o antigo mercado de Santa Caterina, projetada pelo arquiteto Enric Miralles. “Apesar da beleza da nova estrutura e do seu sucesso entre os turistas, os moradores do entorno acabaram deixando de utilizar o espaço. Atualmente, qualquer intervenção nos mercados da cidade passa necessariamente por discussões com a população”, diz.

O professor do curso de arquitetura da UFSC Luiz Eduardo Teixeira, também um pesquisador do patrimônio cultural, fala em uma privatização “branca” do Mercado, com a cobertura. “O espaço central, único entre os Mercados do país, está plenamente ocupado pelos restaurantes e suas mesas, vedando qualquer outro uso público. Além disso, alegando custos, os mesmos comerciantes não obedeceram a possibilidade da cobertura ser retrátil, deixando uma cobertura em lona clara, o que não necessitaria de pilares e vigas tão robustas”, afirma. Para ele, não é uma questão meramente estética, e sim um desrespeito a um bem patrimonial público, “atingido em sua integridade arquitetônica por intervenção um tanto espetacular e, porque não, arrogante”.

Já para a arquiteta e professora da Univali, Kátia Alves, a cobertura traz aspectos positivos na utilização do espaço, e, ao que se propõe, resolve bem, valorizando o local. Ela explica que existem várias correntes sobre obras contemporâneas aliadas a patrimônio histórico, e que nesse quesito é bem “partidária”, sendo a favor de algo menos impactante. “A arquitetura marca um tempo. Poderiam ter pensado em uma referência em um contexto diferente, mas entendo a necessidade de marcar o momento”, coloca.

Soluções arquitetônicas

O júri do prêmio do Instituto Tomie Ohtake, formado pelos arquitetos Carla Juaçaba, Gustavo Penna, Nabil Bonduki e Priscyla Gomes, não pôde se pronunciar sobre a escolha do projeto da cobertura do vão central de Mercado Público de Florianópolis. A assessoria do evento apenas encaminhou uma resposta formulada para explicar o critério da escolha dos dez finalistas.

“O Prêmio de Arquitetura Instituto Tomie Ohtake AkzoNobel realizou uma seleção criteriosa dos 186 projetos enviados em sua 4º edição para apontar os 10 projetos de maior destaque. Ciente de que havia vasta diversidade entre os projetos, o júri buscou mapear os mais diferentes programas e ater-se a detalhes que conferiam aos projetos potencialidades individuais. Dessa diretriz, emergiram programas que atendiam de maneira exemplar condições sociais específicas, que previam usos coletivos a espaços, que reconfiguravam edifícios existentes, que pensavam soluções arquitetônicas concisas para lotes diminutos ou se adaptavam à topografia e condições climáticas. Além disso, surgem também soluções poéticas e mínimas que problematizam conceitualmente a produção arquitetônica. O que se obteve como resultado é uma gama de projetos que sinalizam as vocações da produção contemporânea brasileira.”

Artes