Com acervo de 115 mil obras, Biblioteca Pública de Santa Catarina comemora 165 anos

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O bibliotecário Alzemi Machado, funcionário do Estado há 33 anos, zela pela história da própria instituição – Flavio Tin/ND

Nos três setores da Biblioteca Pública de Santa Catarina as mesas de madeira são ocupadas por cinco ou seis pessoas. É cedo, 9h da manhã. No primeiro andar do prédio, setor de obras gerais, a mesa do canto é ocupada por uma mulher que se atrapalha entre as anotações em um pequeno caderno e a leitura de um livro sobre Direito Constitucional. Perto da porta, um homem cantarola enquanto escreve no computador. O celular, proibido na biblioteca, é acessado rapidamente pela menina na seção de literatura. Ela se anima com as mensagens que fazem a tela do aparelho acender várias vezes no intervalo de cinco minutos.

Perto das 9h30 a Biblioteca Pública de Santa Catarina já está em pleno funcionamento. O prédio cinza na Rua Tenente Silveira abriga o acervo de livros, revistas e jornais desde 1979. No térreo estão localizadas as obras de literatura infanto-juvenil, a recepção, a máquina de fotocópias e a área de empréstimos, devoluções e cadastro.

No terceiro andar do prédio da Biblioteca os servidores se dedicam aos cuidados com obras raras e publicações históricas de Santa Catarina. Na parede, logo na entrada, edições dos extintos jornais “Conservador”, “Xapecó” e “O Estado” ficam expostas numa forma de recompensa aos visitantes que chegam ao local após subir seis lances de escada.

As obras que ficam ali podem ser acessadas pelo público, mas devem ser manuseadas com luvas e ficam armazenadas em um ambiente com temperatura controlada. Como não há a possibilidade de empréstimo deste material, foi criado o projeto “Hemeroteca Digital”, que faz a digitalização do acervo de periódicos publicados em Santa Catarina nos séculos 19, 20 e 21, alguns deles salvos graças a atitude corajosa de um funcionário.

A lei, de 1854, que criou a biblioteca em uma sala na Assembleia Legislativa Provincial – Flavio Tin/ND

Porteiro da Biblioteca Pública de Santa Catarina nos anos 20, João Crisóstomo Paiva salvou exemplares de jornais catarinenses do destino dado pelo então diretor do espaço, o lixo. Paiva mobilizou figuras importantes do Estado, como o historiador José Boiteux, para salvar as publicações históricas e acabou vitorioso. Morto em 1964, ele é personagem importante da história da Biblioteca que completa 165 anos neste mês.

A história de João é contada com carinho pelo bibliotecário Alzemi Machado, funcionário do Estado há 33 anos. Ele lembra que o porteiro foi aposentado como amanuense arquivista, cargo cuja função era cópia e registo de documentos.

reprodução de matéria sobre João Crisóstomo Paiva, porteiro que salvou livros e acervo da instituição – Flavio Tin/ND

Atualmente, a sexta biblioteca mais antiga do Brasil conta com uma equipe de 40 funcionários. Nove são bibliotecários e os demais exercem funções administrativas ou trabalham de forma terceirizada.

Acervo já recebeu obras da história nacional

Apreendida com Tiradentes, a obra “Récueil des loix constitutives des colonies angloises, confederées sous la denominacion d’Etats-Unis de l’Amerique Setentrionale”, que em livre tradução significa “Coleção das leis constitutivas das colônias inglesas confederadas sob a dominação dos Estados Unidos da América  Setentrional”, foi uma das primeiras aquisições da Biblioteca de Santa Catarina.

O livro doado pelo então diretor da Biblioteca Nacional Alexandre de Mello Morais junto a uma remessa de mil obras, era tido pelos inconfidentes como inspiração e teve circulação proibida pela Coroa Portuguesa. “Récuiel” ficou em Santa Catarina por 124 anos até ser transferida para o Museu da Inconfidência em Ouro Preto, Minas Gerais.

Sede na rua Trajano que funcionou de 1908 a 1960; – Divulgação/ND

Além da contribuição de Mello Morais, o primeiro acervo foi formado também por 207 materiais doados por Joaquim Antônio de Azevedo. Vieram mapas, gráficos, romances e livros didáticos que formaram o acervo de 474 volumes abrigados em uma sala de 50 m², no prédio da Assembleia Provincial.

Ao longo dos anos a Biblioteca teve oito sedes. Nas mudanças de espaço físico muito do acervo foi perdido. Alzemi Machado conta que o dia da transferência da instituição para a rua Tenente Silveira, uma chuva forte prejudicou o transporte dos livros. Muita também se perdeu ao longo dos anos.

Para identificar as obras do acervo está sendo feito um inventário da Biblioteca. O processo exige todos os materiais sejam revistos e catalogados, considerando também obras que não foram devolvidas. Com mais de 115 mil volumes, o valor estimado do acervo chega a R$ 100 milhões.

O edifício atual, na rua Tenente Silveira – Flavio Tin/ND

Comemoração do aniversário da Biblioteca

Criada por meio da Lei nº 573 em janeiro de 1854, a Biblioteca Pública só foi aberta ao público em 31 de maio do ano seguinte. Por essa razão, a partir do dia 27 de maio, serão comemorados os 165 anos da criação da instituição.

A programação inclui a exposição “Linha do Tempo da BPSC 165 anos”, bate-papo com a jogadora de vôlei Rosamaria Montibeller e o lançamento dos livros “O Correio do Povo 100 anos: recorte da nossa história”, “Nilêvera: caravana do passado” e “Cancioneiro Belchior”. Além de rodas de conversa, visitas guiadas, oficinas, contação de histórias, teatro e declamação de poesias.

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