Convidados da Flip recomendam autores fora do radar literário

PARATY, RJ (FOLHAPRESS) – Em 1990, uma frustrada Hilda Hilst lançava seu pornográfico “O Caderno Rosa de Lori Lamby”. Frustrada porque, até então, não era reconhecida como deveria, achava ela. “Não é um livro, é uma banana que eu estou dando pro mercado editorial. Durante 40 anos trabalhei a sério e não aconteceu absolutamente nada”, disse em entrevista na época.

Medalhões como Clarice Lispector e Guimarães “estão postos, famosíssimos”, afirmou entre uma e outra baforada de cigarro na TV aberta (outros tempos). “Então, daqui a 50 anos vai ser ótimo, eu na cova, eu famosa…”

Não precisou de tanto. Ela é a homenageada do maior festival literário do país, a Flip, que termina neste domingo (29). A Folha de S.Paulo pediu a convidados desta edição para indicarem autores que, tal qual Hilda, por algum motivo margearam ou margeiam o radar literário de seu tempo.

André Aciman

escritor egípcio radicado nos EUA, sugere Dorothy Strachey, autora britânica

“Strachey escreveu apenas um romance, ‘Olivia’, publicado sob esse pseudônimo em 1949. O livro narra o amor entre duas garotas no colégio e foi a origem de ‘Me Chame pelo Seu Nome’ e do nome de Oliver [um dos protagonistas do livro de Aciman].”

Vasco Pimentel

diretor de som português, sugere o português João César Monteiro (1939-2003)

“A Cinemateca Portuguesa está a publicar as obras literárias completas deste cineasta. Roteiros filmados ou não, textos críticos, manifestos, polêmicas. Um dos maiores escritores da língua portuguesa do século 20. Uma ironia e um lirismo canalhas únicos. Machado de Assis ainda mais elegante e venenoso, barroco sem “neo”, Céline filho-da-puta mozartiano. Genial.”

Selva Almada

escritora argentina, sugere Estela Figueroa, poeta argentina

“A Estela é uma das minhas poetas argentinas favoritas, pela força e pela irreverência de sua poesia. Uma escritora de província, um segredo que nos últimos anos está gritando a vocês. Ela tem uma potência muitas vezes incômoda, é uma poeta que interpela com seus versos.”

Ricardo Domeneck

poeta paulista, sugere Sebastião Nunes, poeta mineiro

“Sebastião começou a publicar poemas visuais no fim dos anos 1960. Ele, que é um dos mais hábeis satiristas da poesia brasileira contemporânea, assume matizes complexas a partir da relação verbal e tipográfica de cada poema com sua página. Uma das maiores lições de seu trabalho é a qualidade excelente de sua escrita.”

Marcelino Freire

escritor pernambucano, sugere Geni Guimarães, autora paulista

“Ela escreveu ‘A Cor da Ternura’, tem 70 anos, nasceu e vive no interior de São Paulo, já ganhou o Jabuti. É estudada nos EUA, é negra. E sofreu nas mãos do marido que não se conformava com o sucesso que ela fazia como escritora. Ela é amiga de Conceição Evaristo. Procurem por ela.”

Ruy Castro

escritor e biógrafo mineiro, sugere Álvaro Moreyra (1888-1964), cronista gaúcho

“É uma grande figura do jornalismo e da crônica. Será um alto personagem do meu próximo livro [sobre o Rio de Janeiro moderno dos anos 1920].”

Igiaba Scego

romancista e ensaísta italiana filha de pais somalis, sugere Ennio Flaiano (1910-1972), roteirista, romancista e crítico italiano

“Ele escreveu ‘Tempo de Matar’, em que rememora seus tempos na Etiópia. É o primeiro livro sobre colonialismo.”

Gabriela Greeb

diretora de “Hilda Hilst Pede Contato”, sugere Ricardo Guilherme Dicke (1936-2008), romancista e contista mato-grossense

“Deixou obras como ‘Cerimônias do Sertão’, calhamaço sobre um professor mentalmente perturbado numa cidade pequena, e ‘Deus de Caim’, que trata de decadência moral no interior do Mato Grosso. Era citado por Hilda como um autor lamentavelmente desconhecido, pois ela o considerava tão grandioso como Guimarães Rosa.”

Zeca Camargo

jornalista, sugere Edward St. Aubyn, autor e jornalista inglês

“Edward merece ser mais lido -e ouvido- no Brasil. Todos os ‘Romances de Patrick Melrose’ já foram editados agora, pela Companhia das Letras –e a adaptação para a TV só vem arrancando elogios. Ele é uma das vozes mais sofisticadas e observadoras da atual literatura inglesa.”

Fernanda Diamant

editora da revista de resenhas Quatro Cinco Um, sugere Édouard Louis, escritor francês

“O Fim de ‘Eddy’, estreia do jovem autor Édouard Louis, é agressivo e delicado ao mesmo tempo. Conta a infância pobre e homofóbica de um menino no interior da França de forma desconcertante. Louis, que é um fenômeno em outros países, é muito pouco conhecido no Brasil. Toca em temas importantes sem ser panfletário.”

Josélia Aguiar

jornalista baiana e curadora da Flip, sugere Sosígenes Costa, poeta baiano

“Sosígenes era um poeta que o Jorge Amado adorava. É da região Grapiúna [na Bahia] também. É muito interessante.”

Cauê Ameni

editor paulista e curador da Flipei (Festa Literária das Editoras Independentes), sugere Lutz Taufer, ex-guerrilheiro alemão

“Recomendo o livro ‘Atravessando Fronteiras’, uma autobiografia deste ex-guerrilheiro que ficou preso 20 anos, dos quais 18 em solitária. Depois ele veio morar em favelas cariocas durante 10 anos.”

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