Crítica: Em novo livro, Rita Lee resume os tempos obscuros de hoje para as crianças

Atualizado

*Autora, entre outros, de A biblioteca e a formação do leitor infantojuvenil: conversa com pais e professores (Iluminuras).

Não é a primeira vez que Rita Lee se aventura pela literatura infantojuvenil; nos anos 1980 e início dos anos 1990, a cantora e escritora publicou uma coleção de livros para crianças: “Dr. Alex” (1986), “Dr. Alex e os Reis de Angra” (1988), “Dr. Alex na Amazônia” (1990) e “Dr. Alex e o Oráculo de Quartz” (1992), todos pela editora Melhoramentos, que serão relançados em breve pela editora Globinho, a mesma que, agora, publica “Amiga Ursa: uma história triste, mas com final feliz” (Globinho). Três décadas separam o primeiro livro infantojuvenil de Rita Lee desse último, mas a temática das histórias é praticamente a mesma: o meio ambiente.

Rita Lee com a nova obra, também com viés ativista, “Amiga Ursa, Uma História Trista, Mas Com Final Feliz” – VAN CAMPOS/FOTOARENA/ESTADÃO CONTEÚDO/ND

Em 1988, quando publicou “Dr. Alex e os Reis de Angra”, por exemplo, sua preocupação, mais atual do que nunca por aqui, era com as usinas nucleares de Angra dos Reis, e não poderia ser diferente, a história provava, já naquela época, o perigo dessas usinas carregadas de material radioativo: em 1986, na então União Soviética, um acidente com um reator na Usina Nuclear de Chernobil matou milhares de pessoas, espalhando a contaminação para outros países, e até hoje a área do acidente permanece inabitada; em 1987, um acidente em Goiânia com um aparelho de radioterapia contendo Césio-137, que se encontrava abandonado no prédio privado do Instituto Goiano de Radioterapia e que foi achado e manuseado indevidamente por homens que buscavam sucata, deixou centenas de mortos, contando as mortes imediatas e as posteriores decorrentes da contaminação.

Esses alertas impulsionaram Rita Lee a escrever um livro que informasse às crianças (à nova geração) os perigos das usinas nucleares; era uma forma de pedir a desativação do complexo de usinas de Angra dos Reis: “— Mas será que aquele triste acidente lá em Goiânia não adiantou para acordar a população sobre os perigos do programa nuclear?”.

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Respondo agora, em 2019, não. Nem o césio-137, nem Chernobil, nem o mais recente acidente com a usina nuclear de Fukushima (Japão) adiantaram para incentivar o Brasil a buscar uma alternativa menos nociva e mais ecológica para a geração de energia. Muito pelo contrário, a construção da terceira usina de Angra dos Reis parece ser “projeto prioritário” do governo, como afirmou Bento Albuquerque, o atual ministro de Minas e Energia.

Amiga Ursa”, que conta a história de uma ursinha que sobreviveu às atrocidades dos seres humanos, parece resumir os tempos de hoje e alertar sobre a situação atual, quando há grupos pressionando o congresso para a liberação da caça, e se veem crianças, filhas de imigrantes ilegais, presas como animais em celas, nos Estados Unidos da América, ao mesmo tempo que se ventila no Brasil a volta do trabalho infantil.

A ursinha da história de Rita Lee carrega um pouco de cada uma dessas imagens: tirada de seu habitat natural, afastada de sua família, obrigada a trabalhar no circo quando criança e levada para a jaula de zoológico quando velha, acaba, por fim, acolhida por uma confederação de proteção animal.

Nessa breve narrativa, a propósito, verídica, Rita Lee discute temas importantes e contundentes. Ela não se furta a falar de morte, de separação, de solidão, de perda de identidade. O final é feliz, mas ainda fica um gostinho, a meu ver, de que nada daquilo deveria ter acontecido: “Afinal, para que serve um animal selvagem capturado de seu habitat e preso numa jaula?”, diz a ursinha.

“Amiga Ursa” traz à cena a atriz e ativista francesa Brigitte Bardot, que há décadas vem se dedicando à causa da proteção de animais. Bardot, na Europa, e Rita Lee e a ativista Luisa Mell, no Brasil, são, nessa narrativa, figuras míticas, espécie de feiticeiras, de papisas, como Rita Lee se refere a Bardot.

Em determinados momentos da história, Rita Lee suspende a narrativa para dar voz aos leitores, estimulando-os a pesquisar sobre o tema e a escrever suas próprias conclusões nas páginas do livro. Assim, ela remete o leitor para fora da narrativa e o incentiva a criar um diálogo que vai além do que ela escreve. Encoraja o leitor a não ser simplesmente pacífico, a ser um questionador e a buscar outras explicações sobre aquilo que lhe é apresentado.

As ilustrações são de Guilherme Francini, mas rouba a cena a fotografia, na última página do livro, de Rita Lee com a protagonista de sua história, no Racho dos Gnomos, santuário no interior de São Paulo.

LEE, Rita. “Amiga Ursa: uma história triste, mas com final feliz”. São Paulo: Globo, 2019. 46p.

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