Escritora Chimamanda alerta para o perigo da história única em novo livro

Uma das características da escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie é a de discutir temas importantes e densos com uma leveza impressionante, a qual não deve ser confundida, de maneira alguma, com superficialidade. Essa leveza parece típica de contadores de história, como ela própria é, legado que recebeu da cultura de seu país.  Foi como contadora de história, aliás, que Chimamanda se apresentou, em 2009, numa palestra proferida no TED Talks, organização ligada à fundação Sapling, dos Estados Unidos, cujo slogan é “ideias que merecem ser disseminadas”. O tema da palestra era “O perigo de uma história única”, que, agora, a Cia das Letras publica em livro.

Tese da escritora, portanto, é a de que “as histórias importam. Muitas histórias importam” – Divulgação/ND

Passados 10 anos, o tema continua atual, pois parece que seguimos insistindo em contar uma única história sobre tudo; talvez porque seja mais fácil — rotulamos culturas, povos, classes sociais, etc., assim não precisamos lidar com surpresas e paradoxos –, ou talvez porque só tenhamos acesso de fato a um lado da história e nenhuma curiosidade de ir além dele.

Chimamanda conta que, quando criança, lia livros de autores de língua inglesa e por um longo tempo não sabia que existia uma literatura africana com personagens que não tinham apenas olhos azuis, “brincavam na neve e comiam maçãs”. Essa outra literatura ampliou seus horizontes e, segundo a escritora, salvou-a “de ter uma história única sobre livros”.

A tese da escritora, portanto, é a de que “as histórias importam. Muitas histórias importam”. A pluralidade de histórias só existe, contudo, se damos voz àqueles que as contam e se a ouvimos. Nesse sentido,  diz Chimamanda, “é impossível falar sobre a história única sem falar de poder”, pois “Assim como o mundo econômico e político, as histórias são definidas pelo princípio do nkali [“ser maior que o outro’, em igbo]: como elas são contadas, quem as conta, quando são contadas e quantas são contadas depende muito de poder”. E alerta: “Comece a história com as flechas dos indígenas americanos, e não com a chegada dos britânicos, e a história será completamente diferente”.

De fato, destaca a escritora: “O poder é a habilidade não apenas de contar a história de outra pessoa, mas de fazer que ela seja sua história definitiva”.

A propósito das histórias múltiplas, as universidades públicas no Brasil têm mudado consideravelmente nos últimos anos, principalmente, com a política de cotas, que permitiu não só que negros, índios, quilombolas etc. ingressassem no ensino superior, mas também que novos pontos de vista da história fossem contados e currículos fossem reorganizados incluindo nova bibliografia e novas disciplinas, como um novo ponto de vista da história. Como afirma a escritora nigeriana, “quando percebemos que nunca existe uma história única sobre lugar nenhum, reavemos uma espécie de paraíso”, que estaria relacionado talvez à ideia do “reconhecimento da nossa humanidade em comum”.

A respeito das universidades, na Nigéria elas também passaram por um momento bastante difícil, semelhante talvez ao que esteja acontecendo no Brasil. Chimamanda, cujo pai era professor universitário e a mãe administradora, conta que sua infância transcorreu durante os governos militares que “desvalorizavam a educação”, e que deixavam seus pais muitas vezes sem salário, e um legado de “medo político normalizado”. Mas a educação que Chimamanda recebeu transformou, parece-me, o “medo político” em reflexão e engajamento.

*ADICHIE, Chimamanda Ngozi. O perigo de uma história única. Tradução: Julia Romeu. São Paulo: Companhia das Letras, 2019. 64 p.

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