Em busca do equilíbrio: moradores de Florianópolis contam suas fórmulas contra o estresse

Ex-jornalista, a professora de yoga Ana Paula Linhares tem aulas lotadas - Marco Santiago/ND
Ex-jornalista, a professora de yoga Ana Paula Linhares tem aulas lotadas – Marco Santiago/ND

Uma reportagem do “New York Times” publicada há pouco, em abril de 2017, destacou o sono como um símbolo de status: dorme quem pode, quantas horas conseguir. O texto analisou que muitas pessoas dormem 3, 4 horas por noite para dar conta das exigências do trabalho, família e estudos. Esse número, longe do ideal de 7 a 8 horas, prejudica o rendimento e a capacidade de raciocínio e, segundo a matéria, nenhuma outra coisa é capaz de oferecer ao nosso corpo os benefícios de uma noite bem dormida. Para estimular que as pessoas durmam mais, algumas empresas americanas estão dando bônus em dinheiro para os funcionários que comprovarem ter dormido pelo menos 7 horas por noite no mês anterior.

Já a colunista Ruth Manus, do “Estadão”, permaneceu vários dias entre os mais lidos do jornal com um texto sobre a culpa: nos sentimos culpados porque dormimos pouco. Culpados porque passamos pouco tempo com a família. Culpados porque comemos mal e nos exercitamos menos do que devíamos. Essa é a vida que lutamos para construir?

Lançada em abril deste ano, uma campanha da Organização Mundial da Saúde chamada “Let´s talk” convidou a população do planeta a conversar sobre depressão. Segundo a OMS, 350 milhões de pessoas de todas as faixas etárias sofrem de depressão no mundo todo. Ainda segundo a organização, 264 milhões de pessoas sofrem com transtornos de ansiedade.

Ou seja, a sociedade está doente, desequilibrada. A rotina exige energia, comprometimento, concentração. Mas o que fazemos para recarregar as baterias? Viver em equilíbrio é uma meta na sua vida? A reportagem do ND conversou com várias pessoas que encontraram formas de balancear o estresse da rotina com atividades lúdicas, zen, esportivas, que as ajudam a viver melhor. Convidamos o leitor a conhecer essas histórias e a refletir sobre sua própria vida. Você está em equilíbrio? O que está faltando em sua vida? Momentos de relaxamento, de paz? Momentos de descarga de adrenalina, de intensidade? Estamos todos em busca do equilíbrio, é preciso traçar um caminho que nos leve a ele.

O zen da yoga

Na academia Run, da Trindade, uma das aulas mais lotadas é a de yoga. As senhas para a prática muitas vezes se esgotam, tamanha a procura. A professora Ana Paula Linhares, ex-jornalista, diz para os alunos que “cada vez que vocês saem de casa para vir para minha aula vocês reafirmam minhas escolhas, meu caminho. É possível conciliar trabalho e prazer, trabalho e paixão”.

Durante a aula, ela estimula que os alunos desenvolvam a consciência corporal e explica o significado das posições: a postura da criança, por exemplo, nos coloca em contato com o solo, é a hora de agradecer a mãe terra por tudo que ela nos oferece.

Entre os praticantes estão Fernanda Latrônico e Maristela Tesman. Para Fernanda, a yoga foi uma forma de lidar com as pressões do doutorado e com a gravidez. “Comecei a praticar yoga em 2014, por indicação de uma amiga que praticava há 10 anos. Foi muito importante porque eu tinha acabado de começar o doutorado e o estresse era muito grande, muita cobrança. Comecei despretensiosamente, sem saber se realmente iria reduzir a ansiedade. Claro que é um processo sutil, as coisas acontecem aos poucos, mas me ajudou muito a ficar mais centrada, equilibrada e consciente das minhas atitudes”, define.

O relacionamento com a yoga continuou durante a gestação. Passados os três primeiros meses, Fernanda retornou para a prática e continuou até o oitavo mês da gravidez. “A prática de posições de abertura pélvica e de respiração me ajudaram muito a ter um parto natural. A yoga me ajudou com a concentração, o foco, com conseguir manter o equilíbrio ali na hora. Parei quando meu filho nasceu e quando ele completou 6 meses eu voltei para a aula que nem um zumbi, muito cansada, mas foi essencial retornar, até para conseguir conciliar o doutorado com a maternidade. Em uma semana eu já via a diferença. Eu sou muito ansiosa e a yoga me ajuda a ver a vida de uma forma diferente, me tornou uma pessoa mais amorosa, humana, mais conectada com minha essência e com a vida”, afirma.

Praticante desde 2015, Maristela Tesman afirma que a yoga foi importante para lidar com o estresse e com a perda. “É uma aula, mas é uma coisa que a gente leva para a vida. Aprendi a não me incomodar tanto com as coisas, a perceber e resolver tudo sem me estressar tanto. A yoga dá essa tranquilidade. A aula de meditação também é muito legal porque ajuda a lidar com emoções muito profundas. Foi muito importante porque nesse período, desde 2015, eu perdi meu pai e minha mãe. A yoga me deu forças”, garante.

Proprietária da Cenarium Escola de Dança, Aline Menezes acredita que a dança muda rotinas e vidas - Marco Santiago/ND
Proprietária da Cenarium Escola de Dança, Aline Menezes acredita que a dança muda rotinas e vidas – Marco Santiago/ND

O caminho da dança

Bailarina, psicóloga e proprietária da Cenarium Escola de Dança, Aline Menezes acredita que a dança muda rotinas e vidas. “Famílias inteiras dançam aqui na escola, cinco, seis pessoas da mesma família: o pai e mãe fazem uma aula juntos, o filho faz capoeira, a filha faz ballet. É muito legal ver como a dança consegue mover as pessoas e modificá-las. Temos casais que tiram o dia da dança como um dia para cultivar o relacionamento. A escola tem 12 anos, tem um casal que há 12 anos faz aula com a gente. Eles criaram uma rotina: o dia da aula é o dia em que eles saem para jantar juntos. É um dia para eles, independente do que aconteça”, conta. Ela conhece muitos alunos que procuraram a dança devido a vários tipos de indicação médica, seja para sair do sedentarismo, seja por questões psicológicas, que vão desde depressão e ansiedade até a síndrome do pânico.

Uma dessas pessoas é Denise Facca. A aposentada se lembra bem do trajeto que a levou até a dança power ímpar, que pratica há cerca de dois anos. “Demorei seis meses para criar coragem de entrar aqui na escola. Eu passava na frente, pensava em entrar e seguia reto. Eu estava tentando sair de uma depressão, sabia que isso aqui poderia me ajudar. Um dia resolvi entrar, assisti essa aula e gostei. Já faz dois anos que frequento e gosto muito do ambiente da escola. Aqui não tem ostentação, não tem vaidade. A escola faz festa quase todo sábado, então a gente vai se entrosando, conhecendo pessoas. As alunas da turma variam bastante, mas tem umas 10 que estão sempre aqui. Nos tornamos amigas: saímos juntas, nos falamos todos os dias, somos muito companheiras e unidas. Para mim é uma questão de saúde física e mental fazer a aula de dança. A convivência fora da escola, principalmente, é um bem para a alma. Eu estou muito bem agora, a amizade delas me fortaleceu. Sou aposentada e posso dizer que agora me dedico a viver bem a vida”, relatou.

Para Rodrigo Mônico, lutar é uma forma de relaxamento - Marco Santiago/ND
Para Rodrigo Mônico, lutar é uma forma de relaxamento – Marco Santiago/ND

A adrenalina da luta

Aluno da aula de boxe da Academia Ellite, no Santa Mônica, o estudante do curso de Física Rodrigo Mônico tem um envolvimento antigo com lutas. “Faço aulas de luta desde pequeno. Fiz caratê dos 4 aos 12 anos, depois fiz kung fu, dos 15 aos 18. Parei com o kung fu por causa do vestibular, fiquei parado nos últimos anos e quando soube da aula de boxe resolvi experimentar. Comecei há duas semanas e estou adorando”, conta.

Para o estudante, a aula é uma forma de relaxar. “É um exercício muito intenso, descarrega uma energia que a gente fica acumulando e que não é legal levar para casa, para o trabalho. Eu me sinto muito mais calmo quando faço uma luta. A gente sai muito cansado, mas também muito relaxado, mais de bem consigo mesmo. É uma seção de descarrego”, brinca.

A história de Rodrigo com as artes marciais é similar à do professor da aula, Bruno Jordão, mais conhecido como Monstro. No início da aula, ele diz aos alunos: “Aquecimento padrão, corda, contem 50 saltos rápidos, parou, respirou, mais 50. Capricha no som, DJ!”, e assim começa o treinamento. Filho de um carateca profissional, ele assistia o pai em competições e apreciava a beleza do esporte. “Acabei me envolvendo, me graduei no caratê e sigo a doutrina oriental até hoje como filosofia de vida: o bushido, que são os princípios do guerreiro. A filosofia dos antigos samurais prega o respeito, autocontrole, sobriedade e justiça”, explica.

Depois de passar pelo Jiu Jitsu e Muay Thay, o professor, que é publicitário, foi desafiado a conhecer o boxe em 2007. “O professor Ronaldo Sica disse que eu devia treinar boxe e me desafiou para um sparring, que é uma luta, com um cara que estava treinando boxe há seis meses. Eu treinava Muay Thay há quatro anos e não consegui achar o cara no ringue. Reconheci uma limitação na minha técnica e fui instigado a aprender mais. Comecei a treinar boxe com o Ronaldo e me apaixonei”, relembra.

A paixão pelo boxe o levou a deixar de lado a publicidade e uma vinda para Florianópolis mudou o destino do carioca. “Vim para fazer um curso de técnicas de boxe e nunca mais consegui ir embora”, afirma. “Comecei a dar aula em academias, gostaram do meu trabalho e aqui a vida é totalmente diferente. Lá no Rio está violento para caramba, o carro da minha mãe foi alvejado, levou três tiros. Você tem que ficar ligado o tempo todo. Aqui ainda dá para confiar nas pessoas. Eu dou aula na academia, digo para o pessoal: ‘tem seis alunos’. Eles me pagam, depois que vão conferir que se são 6 alunos mesmo. As pessoas ainda confiam umas nas outras”.

Rodrigo Mônico diz que quando veio para cá não pensou apenas no dinheiro. “Dar aula me faz feliz”, confessa. “Eu ofereço o melhor de mim e as pessoas levam isso para casa. Eu ensino pessoas a amarem o que eu amo. Financeiramente, se eu fosse depender do boxe seria mais difícil, como tive outros negócios, tenho outras fontes de renda, mas mesmo se não tivesse eu acho que faria isso: 90% dos meus alunos gostam das minhas aulas. Isso é muito mais gratificante do que ganhar muito dinheiro”.

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