Escola de cinema em Florianópolis estimula reflexão e provocações sobre a sétima arte

Cinéfila desde a infância, Ally realizou um sonho ao abrir a escola de cinema – Flavio Tin/ND

Cinéfila desde a infância, a professora de cinema Ally Collaço, de 34 anos, é natural de Florianópolis e há um ano, com o apoio e o incentivo da família, realizou um grande sonho: abriu a sua própria escola de cinema voltada para crianças, jovens e adultos.

A Ally Collaço – Escola de Cinema e Outras Artes tem como intuito, segundo a proprietária, “atuar na formação de público, ou seja, proporcionar uma maior sensibilidade e crítica nesses espectadores, promovendo uma aproximação de pessoas de todas as idades com o universo do cinema, e também para ensiná-las a utilizar os novos recursos digitais com o objetivo de trazer vida às ideias de cada aluno”.

Ally deixa claro que a sua escola não é um espaço profissionalizante de cinema e que, para esse fim, existem outros locais. O seu espaço é, antes de tudo, um lugar educativo para pensar sobre o cinema. Ela ressalta a importância de fazer indagações e provocações a respeito da sétima arte: em que contexto surgiu o cinema? Por meio de quais mecanismos técnicos ele foi criado? Como se conta uma boa história? Como as tecnologias atuais estão permitindo que novas gerações tenham acesso à produção de filmes? Essas são algumas das muitas perguntas que norteiam a sua escola.

Na adolescência, a proprietária era fã dos filmes hollywoodianos, tais como E.T. – O Extraterrestre, De Volta para o Futuro e Jurassic Park, além de ir ao cinema com frequência, passando boa parte das madrugadas adentro assistindo a filmes clássicos na televisão e fazendo maratonas de séries nos finais de semana. Mas a sua criatividade e o seu amor pelo cinema demoraram certo tempo para encontrar o seu próprio caminho.

Realização de um sonho

Aos 17 anos, na hora da escolha do curso para o qual iria prestar vestibular, veio o primeiro questionamento: como unir a sua paixão pelo cinema se ainda não havia cursos voltados a essas áreas nas universidades públicas da capital catarinense? Para não onerar as finanças da família, Ally, como aluna exemplar e dedicada, entrou na UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina) no curso de Comunicação e Expressão Visual, que teve a sua nomenclatura alterada para Design Gráfico, curso este que, para ela, naquela época, parecia estar mais próximo dos seus anseios. Mas a vida tomou seu próprio rumo, e em 2006, Ally conseguiu fazer uma transferência para o recém-inaugurado curso de Cinema da UFSC. Nessa mesma época, já estava atuando na área da educação e por isso decidiu fazer mestrado em Educação e, paralelamente, participar do Nica (Núcleo Infância, Comunicação, Cultura e Arte), coordenado pela professora e doutora Mônica Fantin, do Programa de pós-graduação em Educação da universidade. A partir daí, a relação de Ally com o mundo do cinema começou a ganhar um novo formato: o seu trabalho de conclusão de curso em Cinema e Educação foi o caminho por ela encontrado para dar forma ao seu sonho.

“Produzir um filme é muito caro e as novas tecnologias digitais permitiram  que muitas pessoas tivessem acesso aos mecanismos do cinema, como filmar e editar. No entanto, apesar disso, é preciso primeiro mediar essa relação das crianças com esses novos recursos, a quais conteúdos elas deveriam ter acesso e qual o tipo de narrativa que querem produzir nesse mar de bilhões de imagens que é a internet”, ressalta a professora e mestre.

Há 12 anos à frente da disciplina de Cinema na Escola da Ilha, ela diz que lá é o seu grande laboratório, junto dos jovens alunos. “Eu nunca aprendi tanto sobre a área como ensinando aos alunos sobre o que de fato é o cinema. Este é um ensinar que me ensina”, revela Collaço. E agrega: “Nos primeiros anos, minhas aulas eram muito experimentais, mas agora elas já ganharam um formato próprio de ensinar cinema, sempre procurando respeitar e envolver as particularidades de cada turma”.

Ally Collaço costuma dar oficinas de iniciação do cinema para as crianças e vender materiais educativos de cinema criados por ela em parceria com uma designer – Divulgação/ND

Parceria com a Mostra de Cinema Infantil

E estes anos dedicados à Escola da Ilha já renderam frutos. Em 2017, seus alunos da oficina extracurricular de Cinema foram convidados para participar como jurados mirins na 16a Mostra de Cinema Infantil, de Florianópolis. Em 2018, um dos filmes produzidos em sala de aula foi selecionado para ser apresentado na 13a Mostra de Cinema de Ouro Preto (CINEOP), e neste ano a professora participou de uma mesa-redonda sobre Cinema e Educação, ocasião em que comentou acerca da sua experiência na disciplina de Cinema e de como ensinar o documentário na escola.

Colaboradora há anos da idealizadora Luiza Lins na Mostra de Cinema Infantil, que neste ano começou no dia 29 de junho e terminou no dia 6 de julho, contando com uma extensa programação gratuita para toda a família no Teatro Pedro Ivo, na capital, Ally Collaço costuma dar oficinas de iniciação do cinema para as crianças e vender materiais educativos de cinema criados por ela em parceria com uma designer. “Minha escola de cinema nasceu a partir dessa demanda da Mostra de Cinema. Alguns pais e professores de artes me perguntavam onde poderiam adquirir os materiais educativos de cinema e onde as crianças poderiam aprender sobre o cinema de forma mais lúdica”. Ela destaca a importância de espaços que retratam a história do cinema, como o Museu da Imagem e do Som de Balneário Camboriú, que conta com uma das maiores coleções particulares da América Latina em um edifício de sete andares.

E pontua: “Embora Florianópolis tenha- também um Museu da Imagem e do Som, com exposições interessantes ligadas ao cinema, ainda fica muito a desejar nesse sentido, pois infelizmente não possui um acervo permanente exposto e aberto ao público com artefatos do mundo do cinema que possam ser vistos e tocados pelos estudantes e por outros interessados.

Outra parceria que rendeu bons frutos à Ally Collaço foi realizada com o produtor cultural Tailor Morais, da Marte Inovação Cultural e Produções Artísticas, que, por meio da Lei Municipal de Incentivo à Cultura, criou o projeto Sessão Animada de Cinema no Shopping Iguatemi, que em 2017 permitiu que muitos alunos de escola pública assistissem a sessões gratuitas de animações e que foram mediadas pela professora de cinema. No início e no final de cada sessão, Ally conversava com as crianças a respeito de como os filmes haviam sido produzidos, entre eles o Minha Vida de Abobrinha, de Claude Barras, de 2015, que foi realizado por meio da técnica do stop motion. “Esse projeto foi de suma importância para ampliar o repertório imagético das crianças, que muitas vezes está exclusivamente atrelado aos grandes estúdios de animação ou a temas que se limitam ao universo dos super-heróis. Sem dúvida, essas sessões ajudam na formação de espectador”, avalia a professora.

Crianças aprendem a questionar o cinema e têm acesso à formação crítica – Divulgação/ND

Ally Collaço destaca a importância dos produtores culturais e das leis de incentivo para estimular uma nova geração de espectadores. Agora no final de junho a escola completou um ano e vive de recursos próprios por meio de diferentes oficinas ligadas ao universo do cinema, como fotografia, roteiro, edição de vídeo, animação em stop motion e de Cineclubes para as crianças, e ela confessa que nem sempre é fácil manter sozinha o seu próprio negócio.

“O Cineclube permite que as crianças e seus pais saiam de casa para assistir a um filme infantil que vai além daqueles do circuito comercial e que muitas vezes são vazios de significado, em um espaço confortável e sem o custo exorbitante de uma ida ao cinema convencional”, conclui a idealizadora. A pipoca, inclusive, faz parte do evento.

Além disso, uma vez por mês, sempre aos domingos, no início da noite, a Escola Ally Collaço realiza uma sessão de Cinema na Praça para toda a família, no Córrego Grande, em parceria com a Associação dos Moradores do Jardim Albatroz (AMJA). São projetados filmes clássicos como Dançando na Chuva até animações mais atuais como Toy Story e O Pequeno Príncipe. Segundo a idealizadora, “é um projeto que permite que a minha família leve o cinema para outras famílias do bairro”. Quem passa pela praça da comunidade no dia da sessão de cinema fica admirado ao ver a movimentação de muitas famílias do bairro sentadas em cadeiras de praia ou sob as cangas, assistindo aos filmes com seus filhos, animais de estimação e vizinhos em um espaço público e democrático.

Ao final da entrevista, a proprietária da Escola de Cinema comenta sobre a importância de ter o seu nome Ally Collaço à frente de seu negócio. O universo do cinema é marcado por presença predominantemente masculina. As mulheres, em sua maioria, participam da indústria cinematográfica através de sua exposição à frente das câmeras, mas ainda são poucas as referências da presença feminina atrás das câmeras, dirigindo e produzindo, por exemplo. “É preciso reconsiderarmos o papel da mulher atrás da câmera como uma mente pensante e criativa, por isso tenho emoldurado a foto da cineasta francesa Alice Guy-Blaché, considerada “a mãe do cinema”, pois foi a primeira pessoa no mundo que dirigiu e roteirizou filmes ficcionais”, destaca a entrevistada.

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