Geração Z: os primeiros nativos de um mundo digital

Atualizado

Chegamos ao ano de 2019 com uma marca que impressiona aos mais velhos: as pessoas nascidas no século 21 já são um terço da população mundial. De acordo com a ONU (Organização das Nações Unidas), 32% das 7,7 bilhões de pessoas no mundo nasceram após o ano 2000, e isso faz com que a Geração Z tenha o maior número de indivíduos no planeta, ultrapassando os Millennials (também conhecidos como Geração Y).

A definição sobre gerações pode variar de acordo com a fonte. Algumas colocam a Geração Z como os nascidos neste século, mas o consenso diz que são as pessoas que nasceram entre 1995 e 2010. Isso garante a principal característica desse grupo que é não conhecer o mundo sem internet. Com isso, crescer com fontes infinitas de informação à disposição e estar conectado com a maioria do planeta resultou em mudanças significativas na forma de ver a vida.

Principal característica da Geração Z é não conhecer o mundo sem internet - Renata Bomfim
Principal característica da Geração Z é não conhecer o mundo sem internet – Renata Bomfim

“Eles já na nasceram num mundo totalmente conectado e com menos barreiras, por isso nasceram com valores diferentes, essa é a principal diferença para a geração anterior. São conscientes de seu impacto no mundo, não gostam de definições quadradas, seja sobre gênero, orientação sexual ou até mesmo carreira. É a geração do celular, do instantâneo, do Instagram. O maior desafio é o equilíbrio entre essa velocidade e aquilo que desejam conquistar em longo prazo”, explicou a psicóloga e consultora, Karina Matheus dos Santos.

Informação na hora e de graça

“Acho que a gente traz muita coisa nova, é tudo muito rápido, mas as gerações mais velhas não conseguiram acompanhar e não reagiram muito bem. Nós chegamos quebrando muito tabu, agora a gente fala coisas que não se falavam antes e temos a possibilidade de expressar ao tempo todo nossas diferenças”, falou Sophia Cordeiro, aluna do 3º ano do Instituto Estadual de Educação (IEE), em Florianópolis, maior escola pública da América Latina.

Viver em um mundo com internet também possibilita aos mais jovens aproveitar ao máximo as oportunidades de um mundo online e digital já estabelecidos, diferente dos millennials e da Geração X  que tiveram que  criar e se adaptar a esse espaço. Exemplo disso é o acesso a novos aprendizados, a qualquer hora e de graça. A Sophia gosta de maquiagem e aprendeu várias dicas na internet que também é fonte para os seus colegas de turma. O Kaynã Fernandes aproveita para gravar e divulgar seus raps que faz sobre beats gratuitos, enquanto o Daniel Cabral aprimora suas técnicas de culinária.

Sofia Cordeiro, Kaynã Fernandes e Daniel Cabral são íntimos de ferramentas disponíveis na internet - Renata Bomfim
Sofia Cordeiro, Kaynã Fernandes e Daniel Cabral são íntimos de ferramentas disponíveis na internet – Renata Bomfim

Com essa independência e facilidade de adquirir conhecimentos mais técnicos, o mercado de trabalho também passou por mudanças, como explicou Camila Carvalho, talent acquisition da Resultado Digitais, responsável pelos programas de estágio e trainee da empresa que referência em Marketing Digital do país.

“O mercado precisou se tornar muito mais dinâmico, rápido. Esta geração já nasceu com a tecnologia em mãos e isso tem um impacto muito forte no processo de formação de suas personalidades e comportamentos devido à velocidade com que a informação sempre teve ao chegar a vida deles.  Isso trouxe uma necessidade dos líderes das organizações aprenderem, cada vez mais, a administrar um nível de ansiedade crescente em seus times.”

Idealistas não, conscientes sim

Se por um lado os trabalhos mudaram seus métodos, do outro os empregados também modificaram sua relação com o trabalho. A Geração Z não busca mais a estabilidade como a Geração X, nem o trabalho dos sonhos como os Millennials. Em geral, são mais práticos, procuram se manter no mercado de trabalho, mas estão abertos a novos desafios.

“Esta geração busca a rápida ascensão e conforto no ambiente de trabalho, não se preocupam tanto com o tempo em uma empresa e, se alguma oportunidade melhor aparecer, não se intimidam em mudar. O conceito de estabilidade e tempo de serviço, não é nada interessante para eles, bem diferente das outras gerações que se orgulhavam em se aposentar com 25 anos trabalhando na mesma empresa. Eles consideram fatores como: o ambiente, a flexibilidade, o dinamismo, possibilidade de desenvolver suas habilidades e poder expressar sua opinião”, contou Danielle Cidral, consultora de carreiras.

A Geração Z não quer mudar o mundo, mas procura fazer sua parte e o respeito aos próprios valores se manifesta tanto na hora de ganhar dinheiro quanto de gastá-lo. Isso se manifesta no entretenimento, na alimentação e até mesmo com a moda. Hoje, as lojas online das grandes empresas globais dividem o mesmo espaço que pequenas empresas locais, portanto o novo consumidor busca fabricantes que compartilham dos mesmos valores.

“Na internet, além das grandes marcas, estão também as menores, autorais, feitas por empreendedores locais, que se posicionam por uma moda consciente, uma produção vegana e uma identidade própria. Como esse público quer essa identidade, encontra na internet o acesso a esse tipo de produção que ele se identifica em termos de estilo e também com as bandeiras que levantam. Esse público não quer só consumir a marca, quer também posicionamento: aplaude quando há alguma iniciativa, mas reivindica se ações são só publicidade e não como uma verdade da empresa”, contou a consultora de estilo, Paula Salvador.

Olho na tela ou olho no olho?

A Geração Z carrega consigo muitos ideais de respeito ao próximo e ao planeta, defendem suas causas e também se simpatizam com outras. Por outro lado, se fecham com pessoas que têm o mesmo interesse, geralmente pelas redes sociais que, assim, consomem cada vez mais o tempo das pessoas. Você pode desenvolver laços com pessoas do outro lado do mundo, mas e com quem está ao seu lado?!  Os três amigos da turma 361 do IEE vêem isso como um problema de sua geração.

“Antes as pessoas eram muito mais unidas, saíam em grupos, se encontravam pessoalmente, mas hoje é muito por meio de telas, o contato é individualizado, não se compartilha mais tanta ideia em grupo, falta contato com pessoas diferentes até para desenvolvermos mais empatia com os outros”, falou Daniel. “E hoje as pessoas passam umas pelas outras, mas não conversam, muitas vezes têm os mesmos problemas e poderiam até se ajudar, mas não trocam ideias sobre isso”, completou Kaynã.

Em uma pesquisa de 2017 feita pela Consumoteca, três mil jovens de 17 a 21 anos do país foram entrevistados para entender como pensa a Geração Z e, na questão psicológica, o resultado é preocupante: 35% dos entrevistados admitiram ter sofrido depressão e 57% afirmaram conhecer alguém da mesma idade que já sofreu da doença.

A pressão por não poder errar, a comparação do seu cotidiano com as vidas felizes retratadas nas redes sociais e a falta de contato pessoais são alguns fatores que contribuem para esses índices.  A psicóloga Karina Matheus dos Santos analisa que o isolamento causado pelas redes sociais é comum a todas as gerações, mas que os mais novos tendem a sentir mais os efeitos desse problema.

“Hoje as pessoas se conectam com uma tela no meio, por isso é comum a todos o sentimento de solidão e de ansiedade, resultado de um mundo acelerado. Estes problemas são gerais, não apenas da Geração Z, porém, os adolescentes sentem mais o impacto por serem mais novos e não terem tantas ferramentas para lidar com isso. O bom é que essa é uma geração preocupada com a saúde, o que ajuda muito. A dica é se desconectar e fazer mais coisas no mundo offline: ler livros, fazer exercícios, ter boa alimentação e se envolver em atividades que ajudem a acalmar a mente”.

Se conhecer para evoluir

Os três alunos entrevistados contaram que fazem atividades coletivas fora do mundo virtual. O Daniel gosta de fazer trilha e acampar com a galera, a Sophia participa de um grupo de dança e o Kaynã vive nas batalhas de rap gravando no estúdio com a banca. Tanto a dança, quanto a música ou o contato com a natureza são atividades que estimulam o autoconhecimento, algo importante para a vida pessoal e que reflete na profissional.

“Muitos, infelizmente, chegam ao processo seletivo sem conseguir falar nem superficialmente sobre o que gostam ou não de fazer. É importante que eles consigam viver experiências que proporcionem a reflexão sobre o que é realmente importante para eles. Ajuda também fazer a reflexão sobre quais os principais pontos que eles precisam melhorar para que estejam mais próximos dos seus objetivos”, falou Camila Carvalho, da Resultados Digitais.

Além disso, a comunicação pessoal é essencial para a própria qualidade de vida. A Geração Z nasceu conectada ao mundo, mas o mundo é composto por integrantes de todas as faixas etárias e, seja no trabalho, em casa ou na escola, viver é algo coletivo como destacou a consultora Daniella Cidral. “Competência técnicas são altamente requeridos, porém as habilidade comportamentais como respeito, empatia, sociabilidade e educação são coisas que não mudam, independente de gerações.”

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