“Liberté” e o cinema nacional em Cannes

Na chegada a Nice, a surpresa da greve dos ônibus e táxis. Ao meu lado, o diretor da revista de Cinema “Positif”, Michel Ciment, que também lamentou. Após duas horas de espera, passadas em conversa com M. Ciment sobre cinema, finalmente apareceu um ônibus que nos levou a Cannes em 45 minutos.

“Liberté” recebeu o prêmio especial do júri e consternou silenciosamente toda a crítica – Divulgação/ND

Eram 12.450 credenciados. O cartaz deste ano homenageia Agnès Varda, desaparecida há poucos meses com 90 anos. Em 2006 bavardei com ela em torno de drinks oferecidos pela Unifrance Film.
O filme de abertura, sobre zumbis: “The Dead don’t Die”, de Jim Jarmusch. Após o poético “Patterson”, Jarmusch faz uma paródia sobre este mundo podre onde as pessoas perdem sua alma. Uma crítica ao pós-modernismo, onde vibrações lunares tóxicas fazem os mortos saírem de seus túmulos… variações climáticas alteram o eixo terrestre, as horas ficam sem sentido e os áditos da moda, o Wifi, a droga, a paixão pelo jogo, provocam nos zumbis o gosto pela carne. Em cena: Tom Waits, Iggy Popp, Tilda Zwinton, Bill Murray …
O cinema brasileiro esteve no festival com três filmes: “Bacurau” (grande pássaro noturno), de Kleber Mendonça e Juliano Dornelles (Competiçao Oficial); “A Vida Invisivel” de Euridice Gusmaoe Karim Aïnouz (“Un Certain Regard”) e “Sem seu Sangue”, de Alice Furtado (Quinzena dos Realizadores).O primeiro, um faroeste pernambucano que agradou a crítica em geral e receberia o prêmio do júri (ex-aequo com “Les Misérables”); o segundo, um novelão carioca passado nos anos 50, que acabaria ganhando o grande prêmio do Un Certain Regard. Desde o “Pagador de Promessas” de Anselmo Duarte, em 1962, o Brasil não conquistava prêmios tão importantes!

Obras francesas

A França teve três filmes ótimos: “Jeanne de Bruno Dumont”, o julgamento de Jeanne d’Arc e sua ida à fogueira em 30 de maio de 1430 (Dumont recebeu um prêmio pelo filme). O segundo, um hino de amor que Claude Lelouch faz, 53 anos após seu “Um Homem e uma Mulher”, reunindo o ancião Jean-Louis Trintignant e a bela Anouk Aimée em “Os mais Belos Anos de uma Vida”. O terceiro, o mais inteligente, ágil e inovador – “Belle Epoque”, de Nicolas Bedos, com os maravilhosos Daniel Auteil, Fanny Ardant, Pierre Arditi e Guillaume Canet.

Almodóvar liderou nas cotações para a Palma com “Dolor y Gloria”, espécie de auto-retrato: outro Almodóvar fraco mas que rendeu o prëmio de melhor ator para Antonio Banderas. O filme de Terrence Malick, “Uma Vida Escondida”, sobre a segunda guerra mundial,  ganharia o prêmio ecumênico.

Werner Herzog estava em Sessao Especial com um filme intimo, passado no Japao – Family Romance; também em Sessao Especial o excepcional documentario de Patricio Guzman – A Cordilheira dos Sonhos, mostrando os efeitos da ditadura de Pinochet no Chile. Guzman vive em Paris ha mais de 40 anos. Um alerta para nos brasileiros que estamos a adotar a politica econômica de Chicago: o Chile pode estar bem, mas seu povo nao!

Um filme à parte de todo o Festival: “Liberté”, do catalão Albert Serra, 44 anos. Conta um momento na historia, em 1774, quando Louis 16 persegue um grupo de franceses libertinos e estes se refugiam na floresta entre Berlin e Potsdam. Em planos fixos e silenciosos, estes representantes dos costumes libertários, missionários de uma libido barroca em terra protestante, de sofisticada crueldade. No momento em que o cinema vai para o metafórico, Serra apresenta-nos um cinema literal, imparcial, mínimo. O filme visa a Sade e sabemos que esta ideia pertencera a Fassbinder em 1980. “Para alcançarmos a glória, precisamos passar por um grande sofrimento, como o Cristo na cruz”, dizem eles. “Liberté”recebeu o prëmio especial do júri e consternou silenciosamente toda a crítica!

Notas
Três filmes na competição oficial que poderiam receber a Palma. “Les Misérables”, do africano Ladj Ly (nascido na França, 39 anos), com uma perfeita mise en scènenarrando. O conflito entre jovens negros e a policia em quarteirão de Paris. Termina com a frase de Victor Hugo: “ Não há bons ou maus e sim maus educadores”.
“O Traidor”, de Marco Bellocchio. Excelente narrativa da historia real de Tommaso Buscetta, membro da Cosa Nostra, que no inicio dos anos 80 foge para o Brasil e retorna para em 1984 dedurar seus companheiros em confissao ao juiz Falcone, fazendo levar cerca de 475 mafiosos para as grades. Co-produçao com o Brasil.
O palestino Elia Suleiman com uma comédia sobre o absurdo da vida: “It must be Heaven.”
De Nazaré, passando por Paris e chegando a New York, Suleiman, ao estilo de Keaton, Tati, Iosseliani e Andersson apresenta-nos sainetes desta comédia humana: a polícia perseguindo um vendedor de flores; em New York, a populaçao na rua com armas poderosas. “Todos bebem para esquecer, os palestinos são os unicos a beberem para se lembrar”. Suleiman recebeu a menção especial.
A Palma de Ouro iria para o sul coreano Bong Joon Ho com “Parasita”, a historia de uma familia que vive no desemprego…

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