Longe dos palcos, a bailarina Laura Flores é exemplo de superação

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Laura entrou saltitante ao palco do espetáculo de final de ano de sua escola de dança. Iluminado por um holofote amarelado, seu vestido de franjas ganhou colorações avermelhadas, contrastando com traje predominantemente branco de seu parceiro na dança Cristovão Christianis. A apresentação de mais ou menos três minutos era resultado dos ensaios intensos realizados no final de semana anterior em Curitiba. A sucessão de dois prá lá e dois pra cá, passos típicos da dança de salão, encantou o público presente no evento. Aquela altura, Maria Laura de Carvalho Flores já havia enfrentado a primeira crise da Síndrome de Susac, doença autoimune que a afastou dos palcos.

Última dança de Laura Flores, em dezembro de 2015 – Arquivo/ Laura Flores

Com seis anos, a menina de cabelos e olhos pretos já demonstrava aptidão para a dança. A prática que começou com aulas de ballet e jazz infantil com a professora Cida Gonzaga, a Xuxu, incluiu ainda hip-hop, afro-dance e dança contemporânea. Aos 17 se profissionalizou em dança de salão, trabalhando como professora e fundando duas instituições próprias ao longo da carreira. Quando terminou o curso de Educação Física na Udesc (Universidade do Estado de Santa Catarina), seu plano era continuar no meio acadêmico, seguindo os passos do pai, o professor universitário Pedro Paulo Flores. Mas as crises vieram mais fortes. Era o começo de inúmeras visitas a neurologistas e fisioterapeutas a procura de tratamento. “A gente pensa que a melhora vai ser em um passe de mágica, mas não é bem assim”, comenta.

Primeiro veio a forte dor de cabeça, acompanhada por náuseas, vômitos, tontura e confusão mental. Em setembro de 2004, quatro meses antes da apresentação de final de ano, Laura foi internada por alguns dias. As suspeitas dos médicos para o quadro apresentado eram enxaqueca, bruxismo, sinusite crônica ou esclerose múltipla. Uma nova crise aconteceu numa viagem ao Rio de Janeiro no ano seguinte, quando voltou à Florianópolis em uma cadeira de rodas. Desde lá ela não andou mais sozinha. O diagnóstico correto foi feito pelo médico neurologista Fernando Freitas. Na época, ela era uma das 80 pessoas do mundo e a primeira em Santa Catarina portadoras da rara Síndrome de Susac.

A Síndrome foi descrita pela primeira vez em 1979 pelo médico americano John Susac. Os sintomas incluem perda auditiva, problemas na visão e encefalopatia — termo que engloba alterações no funcionamento do cérebro. De acordo com a mestre em Patologia da Reprodução, Débora Carvalho Meldau, nenhum tratamento se mostrou eficaz para curar a patologia, amenizada por remédios. Cerca de 75% dos pacientes apresentam sintomas de disfunção cognitiva com perda de memória recente, apatia, paranoia e alucinações. 40% têm fortes dores de cabeça. A doença que tem maior prevalência em mulheres jovens foi descoberta aos 27 anos por Laura, afetando suas atividades diárias. Os olhos não enxergam mais a profundidade dos objetos, assim como o corpo, que se move apenas com o auxílio de um andador.

A filha mais nova de cinco irmãos foi à Brasília à procura de tratamento. No Hospital Sarah Kubitschek, referência nacional em reabilitação de pacientes, Laura conheceu outras pessoas com deficiência. Nasceu ali um sentimento de superação, marcado por sua volta a dança, mesmo que de forma adaptada. O palco Teatro Álvaro de Carvalho foi o local escolhido para um espetáculo de dança especial realizado em julho de 2013. Era noite do lançamento de “Dança das Flores: A bailarina que perdeu o equilíbrio”, primeiro livro de Laura. A história narra a descoberta da Síndrome e seus sintomas. Morando em Jaraguá do Sul há algum tempo, a bailarina criou o projeto “Inspirando Vidas” que trabalha com dança inclusiva. O trabalho rendeu um novo livro, publicado em 2018, intitulado “Dança das Flores: Inspirando vidas”.

Serviço:

O quê: Livro “Dança das Flores: Inspirando vidas”

Quanto: R$ 25

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