Macarronada Italiana, amor pela comida e pelas pessoas

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Ezio conheceu o Brasil em 1978 para visitar os tios e visitar Balneário Camboriú. Após conhecer a cidade, decidiu vir de vez para o Brasil e, mais tarde, apostou em Florianópolis para abrir o primeiro negócio na cidade – Flavio Tin/ND

Massa fresca, caseira, carne em cubinhos, molho de tomate cozido sem pressa, de seis a oito horas. O tagliarini alla bolognese é o carro-chefe da Macarronada Italiana há 40 anos. Prato capaz de traduzir o espírito do restaurante, situado à beira mar em Florianópolis. Insumos de alta qualidade, preparados com capricho e afeto para alimentar e satisfazer famílias de clientes fiéis a três gerações com o melhor do comfort food. História que veio de navio para o Brasil.

“Ei, Bruno, quando você vai fazer aquela macarronada italiana?”. Era pergunta constante entre os amigos do italiano Bruno Gobbato, que em 1964, trocou Jundiaí, em São Paulo, pelo recém-criado município de Balneário Camboriú, no litoral catarinense, em busca de uma vida mais sossegada ao lado de Nalda, sua esposa.

As comilanças não tinham pretensão de virar negócio. Os vizinhos de veraneio dos italianos ofereciam feijoada e churrasco de almoço. Ele e Nalda em troca preparavam uma boa pasta caseira ao sugo. Culinária afetiva, que consideravam simples, do dia a dia, mas que fisgou o paladar brasileiro. Em 69, depois de muito apelo, o casal inaugurou a Macarronada Italiana.

No ano de 1976, Ezio Librizzi sepultou sua avó, Caterina, que morreu em seus braços. A comoção foi grande em Varano Borghi, comuna italiana da belíssima região dos lagos. A matriarca italiana deixara quatro filhos adultos.

O mais velho, Bruno Gobbato morava no Brasil há 25 anos, tinha deixado seu país de navio, como muitos outros imigrantes, com o sonho de prosperar. Regressou à pátria com a esposa para a cerimônia de despedida. Nos dias em que esteve com a família, tentou convencer seu sobrinho, Ezio, de 23 anos, a se mudar para Balneário Camboriú, que na época contava com 28 mil habitantes, e assumir o restaurante. A provocação feita pelo tio ficou tamborilando na cabeça de Ezio por dois anos. “você prefere comandar mil panelas dos outros ou uma sua?”.

A promessa de prosperidade fez Ezio viajar para o Brasil em 1978 para visitar os tios e conhecer o pequeno município litorâneo. Na principal avenida da cidade, conheceu Marli, lageana por quem se apaixonou, e quem foi fundamental na tomada de decisão de deixar para trás a família e a carreira de engenheiro mecânico para comandar sua vida e algumas panelas.

“ A correspondência demorava nove dias pra ir e nove dias para voltar. O telefonema era mais caro que a passagem de avião. O jeito era eu me mudar”, disse.

Dito e feito. Apesar da tentação que despertou o sobrinho, o tio Bruno não aliviou o preço na hora de passar o negócio. Para pagar o aluguel da Macarronada, Ezio calculou que teria que vender 800 pratos de tagliarini alla bolognese. Para comprar, seriam 80 mil pratos. O que não contava era com a penúria do inverno em Balneário Camboriú.

Foi por isso que Ezio resolveu se mudar para Florianópolis, cidade que o encantou. No dia 25 de julho de 79, abriu a Macarronada Italiana, com quatro mesas, no local onde é atualmente o Blue Tree, na Bocaiúva.  Ao lado ficava o campo do Avaí, onde agora é o Shopping Beiramar.

O segredo foi fazer o que gosta com afinco, amor e fartura, va bene.

“Não adianta só saber cozinhar. É preciso saber comer”, disse.

Uma grande família

Ezio Librizzi ao lado do funcionário mais antigo do restaurante, Pedro Faria Neto, que já se aposentou, mas não consegue ficar longe da Macarronada – Flavio Tin/ND

Quatro anos depois de vir para Floripa, a Macarronada Italiana estourou. Ezio Librizzi comprou o atual prédio, que tem quatro salões e mais de 200 lugares. A inauguração foi no dia 17 de julho de 1983. Desde então, as portas nunca mais foram fechadas. O restaurante funciona de domingo a domingo das 11h à meia-noite. Não fecha nem durante à tarde. É aconchegante e deixa seus clientes à vontade, num clima familiar.

O que reforça esse sentimento é o vínculo com os funcionários. Todos com muitos anos de casa. O mais antigo é Pedro Faria Neto, o Pedrinho. Ele começou a trabalhar na Macarronada como garçom quando ela mudou de endereço, em 1983. Três anos depois assumiu como gerente, cargo que mantém desde então, mesmo aposentado há sete anos.

“É muito difícil ficar longe da Macarronada. Temos clientes muito fiéis. Vi pessoas no começo do namoro, depois comemorando aniversário de casamento, aniversários dos filhos, bodas e agora trazem os netos nos almoços em família. Nos domingo sou chamado de mesa em mesa. Recebo muitos abraços. Temos um ambiente muito afetuoso”, disse.

Para Caterina Librizzi, 35 anos, que administra o restaurante ao lado do pai – e recebeu o nome em homenagem a bisavó -, manter a mesma equipe tem relação com o jeito italiano de valorizar as pessoas.

“Temos uma pessoa no RH [departamento de Recursos Humanos] apenas para cuidar de questões práticas da vida de nossos funcionários como marcar consultas médicas. Valorizamos o bem-estar de cada um. Não conheço outra empresa que tenha esse tipo de cuidado”, disse.

A Macarronada conta com cem funcionários, 65 trabalham no principal endereço, 18 na Macarronada Italiana, no Kobrasol, em São José, que funciona como rodízio e foi aberta em 1990. Outros 17 trabalham no parque industrial de São José. Diariamente, produzem massas e molhos com que há de melhor e de mais natural, sem aditivos químicos. As matérias-primas são compradas de produtores locais ou importadas da Itália como tomate, azeite de oliva, creme de tartufo e muitos vinhos. Incentivo comercial que rendeu a Ezio a Ordem do Mérito Italiana com o título de cavaleiro da República, em 2001. Orgulho para a mãe Rosa Gobbato, que aos 91 é lúcida e ainda vive em Varano Borghi.

Desde a década de 80, nona Rosa passava um verão em Floripa e o outro na Itália. Sempre ajudando no restaurante. Veio a última vez para o casamento de Caterina, em 2007. Depois um incômodo no joelho impossibilitou as viagens. Mas os clientes se lembram da matriarca italiana com carinho, mesmo com uma lacuna de 12 anos de ausência.

Lembranças da família Librizzi – Arquivo pessoal/ND

Librizzi

Ezio não exerceu a carreira de engenheiro mecânico, mas manteve o espírito inovador. Foi pioneiro no país no congelamento de alimentos com nitrogênio.

A Macarronada foi o primeiro restaurante do Brasil a ter uma sala de computação com computadores Prológica CP-500 e formulários Moore (sim, era necessária uma sala).  A empreitada saiu na capa do Jornal do Brasil de 1983 com título “primeiro restaurante informatizado do Brasil”. O italiano também virou matéria na revista Pequenas Empresas e Grandes Negócios por fazer as primeiras vendas de alimentos pela internet, em 1998.

Primeiro cardápio da Macarronada Italiana em Florianópolis – Reprodução Flavio Tin/ND

Pois em maio deste ano, ele revolveu inovar novamente. Começou a produção das massas secas Librizzi em três formatos, fettuccine, tagliarini e pappardelle. Estão à venda na Macarronada Italiana e nos Empório Bocaiúva, Essen Vinhos e Armázem 3.

A durabilidade das massas está sendo estudada em laboratório. Os planos é que a Librizzi percorra o Brasil e ganhe o mercado internacional com produto de alto valor agregado e indiscutível qualidade.

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