Modelo catarinense Georgia Furlan faz campanha nas redes sociais por inclusão dos Down

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A história que segue não pode ser contada sem que elas estejam juntas, mãe e filha, num relato que fala sobre aceitação, amor e muita luta.

Georgia Furlan Trabert, 16 anos, é a primeira modelo brasileira com Síndrome de Down a se destacar na mídia. E é justamente pela visibilidade que conquistou, que a catarinense de Florianópolis aproveitou o mês de março para dar evidência e valorizar nas suas redes sociais pessoas com a Trissomia do Cromossomo 21. A intenção é lembrar o Dia Internacional da Síndrome de Down, no dia 21 deste mês.

“Sempre recebemos pedidos de pessoas para divulgar perfis, mas normalmente não fazemos esse tipo de exposição. Resolvemos então abrir espaço durante o mês de março, por conta do Dia Internacional da Síndrome de Down, e mostrar somente perfis de pessoas com SD. Recebemos mais de 500 fotos e estamos divulgando por ordem de recebimento. Está sendo muito bacana”, explica a mãe de Georgia, Rubia Furlan Traebert, 46 anos.

A data não foi escolhida por acaso. É uma referência direta à Trissomia (três cromossomos) do par de cromossomos 21, que caracteriza a síndrome.

Georgia com a mãe, Rubia, um espelho de beleza – Foto: Manoel Guimarães/ Divulgação/ND

“É uma data para reflexão, importante para a conscientização da sociedade. É momento de entender que as pessoas com Síndrome de Down têm direito a uma vida digna, com respeito, inclusão e amor”, ressalta Rubia, que também é mãe do Caio, de 13 anos.

Além do trabalho de inclusão e de fortalecimento da data feito por meio do Instagram pessoal de Georgia, ela e a mãe estão estreando em mais uma área, a das palestras. As duas vão participar do 2º Simpósio sobre Trissomia 21 do Cariri, na Faculdade Estácio de Juazeiro do Norte, na Bahia. “Como somos na Trissomia 21: mãe e filha em um relato de experiência” é o título da palestra que, a princípio, deve ser apresentada por elas no dia 24 de abril.

O tema geral do evento na Bahia, intitulado “Conhecimento e atitude para incluir e promover a autonomia”, também combina muito bem com a trajetória inclusiva da catarinense, que começou a ‘modelar’ aos 12 anos. Ela já fez curso de teatro e atuou em duas peças, além de ser reconhecida como influenciadora digital, status que ganhou por acaso.

“Não planejamos isso. Quando vimos, tudo o que ela postava estava dando muito certo. Agora, as pessoas dizem que ela é fonte de inspiração. Para nós, é muito legal saber disso! Aos poucos as marcas foram mandando roupas para a Georgia fazer publicações e hoje já ganha por isso. Inclusive é embaixadora de uma marca de roupas bem conceituada aqui no Brasil”, ressalta a mãe.

A visibilidade dela foi longe, muito além das fronteiras brasileiras. Como digital influencer, foi finalista do prêmio Global Social Awards em Praga, na República Tcheca, na categoria Rising Star (Estrela em Ascensão). A premiação busca reconhecer mundialmente as pessoas que têm um papel inspirador para os seguidores de redes sociais.

Apoio da família é fundamental: Georgia com o pai, Herman; o irmão, Caio; e a mãe, Rubia – Foto: Arquivo Pessoal/ND

A menina, que já tem quase 150 mil seguidores no Instagram, também foi capa de revista internacional. A australiana “Katwalk Kids Fashion Magazine”, especializada em discutir a inserção na indústria da moda infantil, trouxe foto de Geórgia com o título: “Advogando pela inclusão e pela diversidade na moda”. Todo o valor arrecadado com a venda da edição foi destinado a uma instituição de caridade da Austrália chamada Katwalk for Kids, que arrecada dinheiro para crianças com autismo e outras deficiências.

Mas antes de ser capa de revista, ela já havia dado entrevistas para os tablóides britânicos “The Sun” e “Daily Mail”. “Não imaginávamos chegar tão longe. Hoje recebemos muitas mensagens via direct de pessoas falando que somos inspiração para elas, principalmente para essas que acabaram de nascer e tem a Georgia como referência. Perceber que fazemos a diferença na vida das pessoas é muito gratificante.

Sempre fotogência e graciosa, agora ela quer conquistar os palcos – Foto: Arquivo Pessoal/ND

O nascimento e a descoberta da síndrome

Quando engravidou, Rubia e o marido moravam em Boston, nos Estados Unidos. Até os cinco meses de gestação, o acompanhamento médico foi feito naquele país. Depois do regresso ao Brasil, também seguiu com os cuidados orientados pelos médicos. Em nenhum dos exames pré-natal, segundo a mãe, foi detectada qualquer alteração preocupante.

“Só ficamos sabendo no dia do nascimento. Foi um susto! Como não esperávamos, passamos por um momento difícil, até porque não conhecíamos muito sobre a Síndrome de Down, e o desconhecido nos assusta na maioria das vezes”, conta Rubia.

O apoio e a aceitação da família foram fundamentais para que a Georgia se desenvolvesse bem, principalmente na fase inicial. Ela sempre estudou em escola regular e com nove anos estava alfabetizada.

“No início, foi um pouco difícil. Nem todos os colégios aceitavam crianças com SD. Alguns diziam que não tinham vaga após saberem que ela era especial, outros diziam que não estavam preparados. Mas com o passar do tempo, as coisas foram mudando, e inclusive hoje existe lei para isso. A inclusão é fundamental, pois a escola vai muito além de um mero repasse de conteúdos. É um momento de transformação da criança/adolescente, e a convivência e o contato com a diversidade são muito benéficos, tanto para a criança especial quanto para as outras ditas ‘normais’”, diz a mãe.

O gosto pelas fotos e pelos palcos

Fotogênica desde bebê, foi por volta dos 11 anos que a menina pediu para se apresentar no palco. A família estava em férias em um hotel, e durante a recreação com apresentações, ela cantou e dançou.

“A Georgia deu um show. Foi lindo!”, se derrete a mãe. A partir daí, as coisas aconteceram com mais velocidade. Depois de participar de um evento com várias agências de modelos, foi selecionada por sete delas. Hoje, precisa conciliar a escola, os deveres e toda a rotina de uma adolescente – que inclui patinação artística duas vezes por semana, aula de canto e de teatro –  com os compromissos profissionais.

Em alguns momentos, Georgia perde algumas aulas para cumprir a agenda de trabalho, mas com o auxílio dos professores, da família e de sua maior fã, a mãe Rubia, logo recupera. Para a adolescente, o mais importante é fazer o que gosta.

“ Eu me sinto muito feliz e muito orgulhosa de mim mesma. Eu gosto de fazer tudo, eu canto, atuo, danço… Eu amo me sentir um exemplo e quero que todos realizem os seus sonhos e sejam felizes”, finaliza Georgia.

10 coisas que todo mundo precisa saber sobre Síndrome de Down

Aproveitando a data comemorativa, um ponto importante para evitar estereótipos é o uso de termos adequados ao se referir às pessoas com Trissomia 21. Entender a síndrome é forma de promover a igualdade e a inclusão dessas pessoas. Confira:

1 – Síndrome de Down não é doença. Ela ocorre quando, ao invés da pessoa nascer com duas cópias do cromossomo 21, ela nasce com três cópias, ou seja, um cromossomo número 21 a mais em todas as células. Isso é uma ocorrência genética e não doença.

2 – Pessoas com Síndrome de Down não são todas iguais, apesar de terem semelhanças, como olhos amendoados, baixo tônus muscular e deficiência intelectual. Todas as pessoas têm características únicas, tanto genéticas, herdadas de seus familiares, quanto culturais, sociais e educacionais.

3 – Deficiência intelectual não é o mesmo que deficiência mental: não é apropriado usar o termo “deficiência mental” para se referir às pessoas com Síndrome de Down. Deficiência mental é um comprometimento de ordem psicológica.

4 – Não são portadores de Síndrome de Down: uma pessoa pode portar (carregar ou trazer) uma carteira, um guarda-chuva ou até um vírus, mas não uma deficiência. A deficiência é característica inerente à pessoa, não é algo que se pode deixar em casa. O mais adequado é dizer que a pessoa tem deficiência.

5 – A pessoa é um indivíduo, que vem sempre em primeiro lugar. Ter uma deficiência não é o que caracteriza o indivíduo. Por isso, é importante dizer quem é a pessoa para depois citar a deficiência.

6 – Pessoas com Down têm opinião: estudam, trabalham e convivem com todos. Elas têm opinião e podem se expressar sobre assuntos que lhes dizem respeito.

7 – Não devem ser tratadas como coitadinhas. Ter uma deficiência é viver com limitações, mas isso não significa que pessoas com deficiência são “coitadinhas”. Elas se divertem, estudam, passeiam, trabalham, namoram e se tornam adultos como todo mundo.

8 – No mundo, não existem “os normais” e “os anormais”: todos são seres humanos de igual valor, com características diversas. Se precisar, use os termos “pessoa sem deficiência” e “pessoa com deficiência”.

9 – Direito constitucional à inclusão e cidadania: a convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência foi aprovada no Brasil em 2008 como norma constitucional. Ela diz que cabe ao Estado e à sociedade buscar formas de garantir os direitos de todas as pessoas com deficiência em igualdade de condições com os demais.

10 – Por que a terminologia é importante: referir-se de forma adequada a pessoas ou grupo de pessoas é importante para enfrentar preconceitos, estereótipos e promover igualdade.

Fonte: Movimento Down – www.movimentodown.org.br

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