Novo espaço na Capital atende pessoas que buscam potencializar a singularidade do ser

Atualizado

Thaís Curcio Moura, à dir., a idealizadora do espaço de reflexão, com a mãe, que administra e também promove sessões semanais de Reiki gratuitas - Marco Santiago/ND
Thaís Curcio Moura, à dir., a idealizadora do espaço de reflexão, com a mãe, que administra e também promove sessões semanais de Reiki gratuitas – Marco Santiago/ND

Vivemos em uma época de grandes transformações sociais e culturais em todo o mundo. Famílias se reestruturando em diferentes bases, relacionamentos amorosos que não seguem mais à risca as normas sociais, carreiras que anteriormente estavam engessadas e agora percorrem várias direções, campanhas de conscientização do feminismo, do racismo, e respeito às diferenças e tantos outros temas que até pouco tempo eram considerados tabus.

Mas agora, com a grande revolução dos costumes e com as novas tecnologias como parte do nosso cotidiano, as distintas vozes antes caladas agora estão sendo ouvidas e juntas compõem uma sinfonia de múltiplas narrativas da sociedade atual. Entretanto, apesar dessas importantes transformações socioculturais, muitas pessoas ainda sentem dificuldades para lidar com os dilemas da contemporaneidade, ou mesmo aquelas que já incorporaram para si um novo modo de viver buscam espaços de diálogo e de reflexão sobre os novos tempos.

“Como pensar a singularidade do ser humano sem se submeter às fórmulas prontas?”, indaga a advogada e empresária paulistana Thaís Curcio Moura, de 37 anos. Ela está à frente de um espaço, o UsinaDizer, no Centro da Capital, criado justamente para suprir essa necessidade de compartilhar ideias e priorizar o desenvolvimento individual por meio de diferentes formas de terapia. Afinal, em um cenário mundial globalizado, a homogeneidade de comportamento é recorrente. Por isso, perceber-se e respeitar as suas particularidades são grandes desafios da atualidade.

Sabe-se que a busca por livros de autoajuda ou por instituições que ditam regras de como viver levam muitas pessoas a replicarem um padrão de comportamento. “Somos o resultado das demandas sociais de vários meios, desde as instituições familiares, as religiosas e os ambientes de trabalho. Todos esses lugares nos demandam socialmente. Aqui no nosso espaço é o contrário, a singularidade de cada indivíduo é valorizada”, explica Thaís.

Há treze anos vivendo em Florianópolis, Thaís é casada há dois anos com o escritor Marcos José Müller, de 52 anos, doutor em filosofia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, ambos no segundo casamento. Thaís conta que, ao conhecê-lo, o seu universo de interesses se abriu enormemente e, a partir desse encontro, o desejo de atuar em novas áreas foi um fator decisivo para materializar esse local de reflexão.

“O UsinaDizer foi criado para suprir minhas inquietudes e a de muitas pessoas que nos buscam para ampliar as suas percepções de vida, pois aqui é um lugar em que as narrativas híbridas são bem recebidas e estimuladas”, reflete a idealizadora. Thaís faz parte de uma geração de jovens mulheres, muitas delas profissionais liberais, que estão cansadas das estruturas engessadas, como no caso dela própria, o campo da advocacia. A ideia é conciliar a agenda de atividades de alta remuneração com outras que tragam a essas mulheres satisfação pessoal e que ampliem os seus diferentes interesses.

Drummond, Joyce, Frida Kahlo

Junto com a advogada Thaís, outras pessoas também embarcaram no projeto do espaço. Atualmente, são dezessete profissionais de diferentes áreas, desde psiquiatras, psicoterapeutas, psicanalistas, psicólogos, naturólogos e outros da área de terapias alternativas que compartilham as salas no UsinaDizer. O local é um coworking estilizado, bem localizado, dividido em salas de trabalho individual que já vêm decoradas. Cada uma dessas salas é denominada por um nome de autor: sala Carlos Drummond de Andrade, sala James Joyce, sala Frida Kahlo e sala Clarice Lispector são algumas delas.

“É interessante porque cada profissional que chega para alugar uma sala se identifica mais com um autor e com a decoração daquele espaço, sendo que cada um deles é autônomo para trabalhar em sua área sem se preocupar com a administração do espaço”, explica a proprietária. Além disso, ela complementa: “Eu como administradora apresento um leque de opções para aquelas pessoas que nos procuram, e cabe a cada uma delas decidir qual linha de tratamento seguir. Inclusive alguns profissionais daqui atuam em mais de uma área, e em muitos casos o cliente realiza o seu tratamento por meio de mais de uma terapia”.

Na administração do espaço, está também a sua mãe, Maria Inês Curcio, de 61 anos, que é formada em Reiki em São Paulo desde 1996. O plantão de Reiki acontece toda segunda-feira à noite e faz parte de um projeto social da empresa, pois o atendimento não é pago. A proposta é que cada participante doe um quilo de alimento em cada sessão, o qual é sempre destinado a entidades sociais. “Faço parte da linha de mestres de Reiki que não cobram pela aplicação, e o nosso propósito é expandir essa prática e beneficiar o maior número de pessoas possível”, destaca Maria Inês.

O local conta também com uma programação de atividades culturais abertas ao público, que ocorrem em uma pequena arena. Uma delas é o Usinando Imagens e Dizeres, no qual toda última sexta-feira do mês ocorre a apresentação de filmes, documentários, apresentações de música e poesia. Ao final, o espaço é aberto para um bate-papo com os artistas convidados. Nessa arena, também ocorrem oficinas clínico-literárias, em que são trabalhados temas como medo, ansiedade e baixa autoestima por meio de textos literários.

O UsinaDizer é, acima de tudo, um centro que viabiliza uma nova circulação de ideias e de pessoas. “O interessante dessas atividades coletivas é que são momentos em que os profissionais que trabalham aqui interagem entre si e divulgam espontaneamente os seus conhecimentos com o público presente, que são tanto os clientes que já circulam pelo espaço como aqueles que são atraídos pelos eventos culturais da casa”, explica Thaís.

O escritor e filósofo Marcos José Müller utiliza o local para escrever um livro - Marco Santiago/ND
O escritor e filósofo Marcos José Müller utiliza o local para escrever um livro – Marco Santiago/ND

Lugar de produção

Outra novidade é que ainda neste semestre a nova editora UsinaDizer lançará o seu primeiro livro, um ensaio filosófico, psicanalítico e literário intitulado “Outros num casamento”, de Marcos Müller, autor de várias outras obras, que assim como esta possuem a mesma característica: utilizar-se de diferentes áreas do conhecimento humano.

“A ideia do livro é uma autobiografia de ficção que conta a história do meu casamento, e nessa festa cada personagem é a representação de uma dimensão do ser humano como: o desejo, o sagrado, o inconsciente, o erótico”, descreve o autor. A obra será impressa e também terá a sua versão online em português, espanhol e inglês, e será lançada ainda neste ano em eventos no exterior, em países como Chile e México.

Assim como o UsinaDizer, outros espaços da Capital apresentam uma proposta similar. O Paradigma Cine Arte, na SC-401, por exemplo, promove mensalmente o Ciclo de debate Cinema e Psicanálise, um evento gratuito e aberto ao público. O Sítio, espaço multicultural localizado no Canto Lagoa, é repleto de exposições e palestras com um viés voltado para arte e tecnologia. Tem ainda o Cine Coisa Linda, cineclube que ocorre na Nau Catarineta, em Santo Antônio de Lisboa. O local é aberto ao público em geral e, após cada exibição de filmes e de documentários, abre espaço para debates sobre os temas da atualidade como migração, intercâmbio cultural e projetos independentes de música.

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