O Brasil não seria o que é se não fosse o samba, afirma especialista no gênero musical

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Violonista, arranjador, compositor e produtor musical Luís Filipe de Lima é um dos maiores especialistas em samba no país. É também um defensor do gênero e não tem receio de afirmar que o Brasil não seria o que é se não fosse ele, o samba. Lima virá a Florianopolis no próximo dias 16 e 17 deste mês para ministrar o curso  “Panorama histórico do samba”, na Casa Âme, no Itacorubi.

Premiado compositor, Luís Filipe de Lima diz que o samba está em renovação no país – Divulgação/ND

Com prêmios como o da Música Brasileira em 2017, na categoria de melhor disco de samba, pela produção de “Samba original”, do cantor Pedro Miranda, como violinista gravou discos e DVDs com Dona Ivone Lara, Gal Costa, Martinho da Vila, Zélia Duncan, Carlinhos Brown, entre outros.

É diretor musical e autor de trilhas para cinema (“Noel Rosa, o poeta da Vila”) e teatro (“Sassaricando”, “Puro Ney”, “Bilac vê estrelas”, “L, o musical”). É o atual presidente da Associação de Amigos do Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro.

Doutor e mestre em Comunicação e Cultura pela UFRJ, idealizou e dirigiu quinze séries de shows para o Centro Cultural Banco do Brasil, entre elas as dedicadas a Noel Rosa, Raul Seixas, Carmen Miranda, Jackson do Pandeiro, Clara Nunes, Lamartine Babo, Ismael Silva e Lupicínio Rodrigues, como também os ciclos consagrados ao centenário do samba, violão de sete cordas, samba de breque e partido-alto.

O curso que ele dará na cidade vai situar o vasto universo do samba, desde seus primórdios, na primeira metade do século 19, até a atualidade.

Confira entrevista com Luís Filipe de Lima:10

Como avalia a inserção do gênero samba no Brasil?

O samba é um dos principais pilares da cultura moderna brasileira. Há pelo menos um século, mostra-se como um poderoso marcador identitário, sempre múltiplo, diverso, plural. O samba tem várias faces e se comunica com vários públicos, de faixas bem amplas a nichos bastante específicos. O samba circula por todo o país e embebe generosamente a extensa malha social brasileira. E ainda ajuda a nos situar culturalmente diante da comunidade global. Em definitivo, não seríamos o Brasil que somos se não fosse o samba.

Quais Estados e locais o samba tem força e produção significativa?

O chamado “samba urbano carioca”, que é aliás o principal objeto de estudo do curso que vou oferecer em Florianópolis, é um gênero musical de feição nacional-popular (segundo a noção gramsciana) gestado no Rio de Janeiro sobretudo nas últimas duas décadas do século 19. O Rio foi e continua sendo o grande polo irradiador do gênero. Entretanto, este samba urbano criado sob inspiração diretamente carioca, já há muitas décadas, ganha especial força expressiva em alguns Estados e cidades. Posso citar São Paulo e especialmente sua capital, mais Brasília, Recife, Florianópolis, Belém, São Luís, Rio Branco, Belo Horizonte, Salvador e Porto Alegre como algumas das áreas densas de concentração deste modelo de samba urbano, cada uma com seus sotaques e soluções criativas próprias. Mas é preciso também considerar os sambas rurais e gêneros tradicionais aparentados que justamente são a matéria-prima do samba urbano carioca, seus antecessores diretos, daí destaco o Recôncavo Baiano, com seu samba de roda e samba-chula, o interior de São Paulo, com o samba-de-lenço e o samba-de-umbigada, São Luís e outras cidades maranhenses, com o tambor de crioula, Santa Catarina e seu fandango, a Zona da Mata do Sudeste brasileiro com a congada, o jongo, o tambor de congo e o moçambique, entre muitas outras manifestações, e gêneros menos conhecidos hoje como o milindô e o bambelô, ainda espalhados por alguns pontos do Nordeste.

“O samba hoje toma impulso e reencontra seu vigor habitual em todos os cantos do país”, diz Luís Filipe de Lima – Pixabay/Divulgação/ND

Pode contar de forma breve o surgimento do samba?

O samba urbano carioca é resultado da confluência de diversos proto-sambas rurais brasileiros, de várias origens geográficas, como o samba-de-roda e a chula do Recôncavo Baiano, os toques do candomblé de rito angola-congo, o tambor de crioula maranhense, o tambor de congo capixaba, a congada mineira, o jongo que se espalhava pelo interior do Espírito Santo até o interior de São Paulo, passando por terras mineiras e fluminenses, muito mais. Todas essas expressões musicais aportaram no Rio de Janeiro, que era então a capital do país, no final do século 19, época de grandes transformações sociais, políticas e econômicas – a exemplo da Abolição e da República -, apoiadas em correntes migratórias diversas. Todos esses sons e sentidos se fundiram com o rico substrato musical carioca, do qual já faziam parte o lundu, o batuque, a modinha, o choro e o maxixe. Por isso é que, quando alguém me pergunta se o samba nasceu na Bahia ou no Rio, costumo responder o seguinte: o samba baiano nasceu na Bahia (e é ingrediente indispensável para a formação do samba carioca), mas o samba carioca nasceu sem dúvida no Rio, como o resultado da mistura de elementos e sotaques tão diversos quanto particulares, somados ao panorama musical local, já firmemente sedimentado havia mais de um século.

O samba circula por todo o país e embebe generosamente a extensa malha social brasileira.

Tem algum movimento novo nascendo no país que tenha o samba como foco?

O que existe é a renovação do samba que está sendo feita pelos jovens sambistas de todo Brasil. Como sempre aconteceu na história do samba, há várias correntes de pensamento diversas, vários estilos, vários sotaques. Para mim, a principal novidade desta geração mais jovem é que apareceram compositores muito acima da média, como João Martins, João Cavalcanti, Ana Costa, Manu da Cuíca, Marina Iris, Mosquito, Leandro Fregonesi, Alfredo Del-Penho, Juninho Thybau, Inácio Rios, Thiago da Serrinha, entre outros, para além de grandes instrumentistas, arranjadores e produtores musicais, que sempre marcaram presença em todas as gerações. Depois de certo período de retração, há cerca de dez anos, o samba hoje toma impulso e reencontra seu vigor habitual em todos os cantos do país. O que falta, ainda, é ver todo esse caldo que está cada vez mais denso alcançar a condição de movimento (ou de movimentos plurais), com propostas estéticas originais. Mas, para mim, é apenas uma questão de tempo. As ideias vão aparecer da maneira mais orgânica.

Há bastante músicos compondo, gravando, produzindo sambas?

Sem dúvida. Mesmo hoje mais à margem da indústria cultural e fonográfica, o samba movimenta um público imenso e bastante diverso. Para além dos veteranos que são celebridades, como Zeca Pagodinho, Martinho da Vila e Paulinho da Viola, só para citar três, e que continuam com espaço reservado no mainstream, e para além dos grupos de pagode romântico (subgênero do samba de apelo popular e comercial que já estiveram mais em voga), agora é a hora dos sambistas independentes, que fazem sucesso nas mídias sociais, têm público fiel e crescente que cada vez mais superlota os clubes e casas de samba espalhados pelo Brasil. Além dos compositores que já citei no parágrafo anterior, todos eles também intérpretes, lembro de Teresa Cristina, Pedro Miranda, Elisa Addor, Roberta Nistra, Clarice Magalhães, Késia Estácio, Os Prettos, Renato da Rocinha, Andréa Dutra, Roberta Espinosa, Lúcio Sanfilippo, Liz Rosa, Karla da Silva, Nilze Carvalho, Léo Russo, Pretinho da Serrinha e muito, muito mais gente interessante, sem falar de excelentes instrumentistas, arranjadores e produtores musicais.

O choro, gênero que se integra a outras expressões musicais brasileiras, como o frevo, o samba-choro, entre outras – Marco Santiago/ND

Trazendo para a realidade de Florianópolis, o choro tem sido muito tocado em bares da cidade, alguns músicos misturam com o jazz também. Como avalia essa movimentação?

Costumo repetir bastante uma frase minha: o choro é a grande “eminência parda” da música brasileira. Gênero instrumental por excelência, espécie de “música para músicos” que também se conecta com um amplo e devotado público leigo, o choro deixa sua marca em muitas outras expressões musicais brasileiras, como é o caso do frevo, do samba-choro, da obra de Villa-Lobos, de Tom Jobim, Hermeto Paschoal, Sivuca, Noel Rosa, Cartola, Nelson Cavaquinho, Dona Ivone Lara, Ary Barroso, Dorival Caymmi, Elton Medeiros, Paulinho da Viola, Chico Buarque, Joyce, Wagner Tiso, Beto Guedes, há elementos de choro na criação de todos estes autores. E é muito bom testemunhar que o choro tenha tido destaque constante na vida cultural de Florianópolis, tanto em seu formato mais tradicional, quanto em seu viés mais contemporâneo, muitas vezes próximo ao jazz. O choro, além de ser uma das joias da coroa da cultura brasileira, é também um poderoso fermento capaz de inocular criatividade e substâncias nobres a qualquer corrente musical em formação no Brasil. Precisamos ouvir choro sempre.

O samba hoje vai muito bem de saúde. Mesmo fora do mainstream, tem mais renovação de público do que há dez anos. Produz mais álbuns independentes, ou de pequenos selos. Possui mais clubes e casas noturnas dedicadas ao gênero, em todos os estados brasileiros.

Quais as perspectivas para o futuro do samba?

O samba hoje vai muito bem de saúde. Mesmo fora do mainstream, tem mais renovação de público do que há dez anos. Produz mais álbuns independentes, ou de pequenos selos. Possui mais clubes e casas noturnas dedicadas ao gênero, em todos os estados brasileiros. Apresenta movimentação crescente em todas as redes sociais. Os sambistas também têm feito frequentes turnês no exterior, sobretudo na Europa, mas também no Japão e nos EUA. Evidente que é preciso dar o desconto necessário para o atual momento de estagnação da chamada economia criativa no Brasil. Independente de um quadro maior de crise econômica, do qual não sabemos se vamos conseguir nos apartar tão cedo, nos deparamos com um progressivo desmonte de políticas públicas culturais que está havendo de dois ou três anos para cá. Os editais públicos (federais, estaduais e municipais) estão escasseando – e, a reboque, também os editais de patrocinadores privados. E o samba, justamente por estar hoje um tanto à margem da indústria cultural, precisa de fomento público ainda mais em meio à crise. Tirando este quadro econômico negativo, o samba vai muito bem, obrigado, buscando novos horizontes a partir de sua própria história.

Saiba mais:
O quê:
 Workshop Panorama Histórico do Samba, com o maestro Luís Filipe Lima
Quando: 16 e 17 de agosto
Onde: Casa Âme (Rodovia Admar Gonzaga, 3595, Itacorubi – Florianópolis)
Quanto: ingressos disponíveis no Sympla a R$ 300 (pode ser parcelado no cartão)
Mais infomações: no site www.acasaame.com e com o músico Luiz Sebastião no (48) 9 9948-0258

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