O Papai Noel catarinense mais famoso, João Prim tem uma história que vai além do Natal

Uma foto que viralizou nas redes sociais no início de dezembro fez a fama do Papai Noel João Prim e deixou este Natal mais solidário - Daniel Pereira/Especial para o ND
Uma foto que viralizou nas redes sociais no início de dezembro fez a fama do Papai Noel João Prim e deixou este Natal mais solidário – Daniel Pereira/Especial para o ND

Há 14 anos, o catarinense João Prim, de 64 anos, natural de Águas Mornas, transforma-se em Papai Noel no mês de dezembro. Mas somente agora, por conta de uma foto que viralizou nas redes sociais, ele se tornou o bom velhinho mais falado e admirado de todo o Brasil.

Desde os 38 anos de idade, João Prim tem barba branca e comprida, e foi essa característica física que levou a sua mulher, que atua com educação há muitos anos, a convidá-lo pela primeira vez a tornar-se o Papai Noel da escola em que trabalhava em Jaraguá do Sul. A filha que morava na Capital ficou responsável pelo novo uniforme de trabalho do pai aposentado. De lá para cá, foram centenas de escolas públicas e privadas, creches e asilos visitados, locais para onde ele levou o seu bom humor, o seu carisma e mensagens de amor para todas as pessoas. “Por muitos anos, meu trabalho foi voluntário, aceitava gorjetas, bombons e sorrisos”, declara Prim.

Há quatro anos, durante todo o mês de dezembro, das 15h às 22h, João traja-se com sua típica roupa natalina, enche a sacola vermelha com centenas de balas para presentear as crianças do Shopping Itaguaçu, em São José. Mas o que parecia ser apenas mais uma tarde atendendo as crianças, no dia 6 de dezembro deste ano, o Papai Noel catarinense simplesmente foi alçado ao estrelato. João Prim, ao se deparar com Vítor, que é autista, jogando-se no chão, não pensou duas vezes, e deitou-se também para tirar a foto com o menino.

O que João não poderia imaginar é que depois de a mãe de Vítor, Jussania Maria Tholl, publicar a foto no seu Facebook junto com o comentário “Esse é o Papai Noel mais lindo que já conheci, esse é meu filho Vítor, ele é autista. Papai Noel mais fofo que esse não existe”, esse post viria a se tornar um dos mais compartilhados e comentados deste final de ano no país.

Desse dia em diante, João virou celebridade. Já saiu em vários jornais, sites e programas de televisão. E o seu gesto de carinho e de inclusão com o menino autista comoveu diversas pessoas de vários Estados. “Como Papai Noel, eu tenho uma fração de segundos para definir qual a estratégia para conquistar cada criança. Com o Vítor, eu primeiro enchi as mãos dele de balas, depois os bolsos, para em seguida deitar ao lado dele no chão e ganhar a sua simpatia”, revela o bom velhinho.

João Prim   começou como voluntário no Natal, mas há quatro anos faz expediente e espalha sorrisos em shopping em São José - Daniel Pereira/Especial para o ND
João Prim começou como voluntário no Natal, mas há quatro anos faz expediente e espalha sorrisos em shopping em São José – Daniel Pereira/Especial para o ND

São Nicolau

Coincidentemente, o dia 6 de dezembro, que ficou marcado na vida de João Prim e de Vítor, é o dia de São Nicolau, que está vinculado diretamente à origem da tradição Papai Noel. São Nicolau era um bispo nascido na Turquia em 280 d.C. e que ajudava as pessoas carentes. Segundo a lenda, o bispo deixava um saco de moedas perto da chaminé durante a noite na casa dos menos favorecidos. Em algumas culturas como a norte-americana, o “Santa Claus”, como é chamado, vive no Polo Norte junto da Mamãe Noel, alguns elfos, que são entidades mágicas, e suas renas, que ajudam na entrega dos presentes para as crianças ao redor do mundo. Já para os europeus, o Papai Noel, vive na Lapônia, na Finlândia, inclusive tem um endereço em uma aldeia que recebe cartas das crianças todos os anos ajudando desse modo a perpetuar a lenda.

Como o Natal faz parte do calendário cristão e celebra o nascimento do menino Jesus, não são todas as religiões que seguem essa tradição, mas, segundo João Prim, “muitas famílias de diferentes culturas trazem os seus filhos para tirar uma foto com o Papai Noel e também para ouvir uma palavra de amor e de esperança”.

João Prim posa com as crianças no shopping - Daniel Pereira/Especial para o ND
João Prim posa com as crianças no shopping – Daniel Pereira/Especial para o ND

Ajuda ao próximo está no DNA da família

João Prim faz parte da sexta geração de alemães que chegaram ao sul do Brasil com a promessa de construir uma nova vida depois da Primeira Guerra Mundial, que destruiu parte da Europa. O primeiro João Prim de sua família alemã desembarcou em 1829, na antiga Desterro, junto com a mulher e seus dois filhos. Em seguida, ganhou do governo local terras em São Pedro de Alcântara, território selvagem e inóspito, para recomeçar a história de sua família em terras brasileiras, lugar que viria depois a se tornar uma das primeiras colônias alemães do Estado.

“Meu pai é bisneto desse primeiro João, e eu sou o nono de uma família de treze filhos”, explica o Papai Noel celebridade. E ressalta: “Desde os meus primeiros antepassados que chegaram da Europa, somos uma família que passou por muita dificuldade e que trabalhou muito, por isso sabemos exatamente da importância de ajudar o próximo”. A origem da sua família foi desvendada em uma viagem por uma das cidades mais antigas da Europa, Trier, cidade alemã próxima a Luxemburgo. Por uma série de coincidências, João e sua mulher conheceram a prefeita dessa cidade, a qual morava na casa do seu antepassado, o primeiro João Prim, que veio ao Brasil com sua família em busca de oportunidades.

Desde que a história de sua origem foi desvendada, a família Prim, que atualmente, possui cerca de mil descendentes em Santa Catarina, já realizou onze festas de confraternização. “Hoje é mais fácil nos comunicarmos e programar esses encontros, pois criamos um grupo de WhatsApp”, conta. João Prim, em função do seu atual sucesso como Papai Noel, possui milhares de seguidores no seu Facebook e Instagram. O número de seguidores no Facebook alcançou o limite máximo, e a postagem recebeu 113 mil curtidas. O vídeo de entrevista para um programa de televisão já teve até agora mais de 25 mil visualizações. Emocionado, João declara: “Nunca imaginei que meu trabalho chegasse tão longe. Devido à postagem da mãe de Vítor, ganhei visibilidade nacional e internacional. Recebo desde então mensagens de carinho e reconhecimento de todo o mundo”.

Entre seus familiares, estão o tio Osvaldo Prim, que é padre da paróquia em Palhoça e que exerce um extenso trabalho de voluntariado e caridade na comunidade, e seu primo Luís Prim, que trabalha diretamente na recuperação de viciados em álcool e drogas. “Esse espírito de religiosidade e compaixão faz parte do DNA da família Prim. O Luís, por exemplo, já dormiu ao relento na praça junto a um adicto para ganhar sua confiança e levá-lo para a clínica de tratamento”, afirma João.

Trabalho de uma vida toda

Para João Prim, o trabalho como Papai Noel é uma extensão de seu trabalho a vida inteira, pois desde cedo ele e a sua mulher trabalharam na Paróquia Francisco de Assis, onde são ministros da eucaristia, ajudam na formação de novos casais e na preparação dos pais para o batismo de seus filhos. Além disso, João costuma fazer palestras no Movimento de Cursilhos de Cristandade do Brasil, que busca levar o evangelho para todos os ambientes e ajuda a formar líderes cristãos.

“É preciso ter coerência na vida para agir como um mensageiro de amor e de fé, por isso o que falo para as crianças é de coração”, pontua João, que costuma lembrá-las de serem amáveis e gratas aos seus pais por tudo o que eles fazem pelo bem-estar delas. 

Segundo ele, algumas crianças são mais difíceis de conquistar, têm resistência em se aproximar do Papai Noel, por isso Prim costuma pedir para que os pais as tragam mais de uma vez até que eles consigam tirar uma foto de recordação. “Mas a maioria delas é muito receptiva e pega a bala que entrego com alegria”.

Para o famoso Papai Noel catarinense, “o caso do post de Vítor foi muito emblemático, pois permitiu que todos os brasileiros voltassem a olhar para as nossas crianças e para o nosso país de forma diferente, com mais zelo e afeto”.

Para responder a todas as mensagens que recebeu depois que a postagem viralizou, o Papai Noel mais pop do Brasil usou o seu perfil no Instagram. 

“É gratificante ser Papai Noel e levar o verdadeiro sentido da vida às pessoas, com gestos concretos de igualdade, amor e fraternidade. Afinal de contas, somos aquilo que conseguimos compartilhar com todos dentro do espírito do Natal. O menino Jesus deve ter vez no coração de todos”, escreveu.

No dia da chegada do Papai Noel deste ano no Shopping Itaguaçu, seus filhos Giane, de 37 anos, e o irmão Diogo, de 34 anos, estavam lá juntos com seus quatro netos para vê-lo. “A minha neta de dois anos me chamou e disse que o Papai Noel era de todas as crianças, mas que o vovô era só dela”, contou risonho.

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