Os 250 anos do gênio Beethoven em releitura da Orquestra Sinfônica de SC

Extasiada, a plateia aplaudia de pé. Gritava, chorava. Em antagonismo, o músico permanecia absorto. Precisou ser tocado nos ombros para virar seu olhar. Aos 54 anos, Beethoven, um gênio surdo apresentou sua 9ª sinfonia e mudou a história da música.

Para celebrar os 250 anos de Beethoven, a Ossca (Orquestra Sinfônica de Santa Catarina) vai dedicar parte do calendário de 2020 a ele, em apresentações no CIC.

A Sinfônica de 26 anos, com 70 instrumentistas, além dos vocais solistas, vai compartilhar composições que há mais de dois séculos mexem profundamente com as emoções. Canções que pesquisas de neurociência afirmam serem capaz de curar a depressão.

Toda a provocação do gênio, sua paixão – mesmo sendo incapaz de ouvir por uma doença que começou aos 26 anos -, sua rapidez, ferocidade, leveza, temas curtos, súbitos silêncios, graves e agudos ao mesmo tempo -, toda alma do artista será compartilhada gratuitamente.

Isso porque a história de amor à arte não é só de Beethoven. Fundada dia 25 de novembro de 1992, pelo maestro José Nilo Valle, regente e diretor artístico, a Ossca se dedica a compartilhar música clássica e popular, executada com excelência, com os catarinenses.

A criação foi um pedido do governo de Santa Catarina e há seis anos foi reconhecida, por meio de emenda na Constituição do Estado, como organismo de interesse máximo da cultura musical. Um posicionamento importante para garantir o que o maestro chama de trilogia de sobrevivência de uma orquestra: casa, orçamento e programação.

A intenção da Ossca é democratizar a cultura, dando acesso à população. Uma ação para gerar impacto positivo na sociedade, trazendo mudanças.

Simbiose entre ópera e política

A simbiose entre ópera e política foi um clássico do século 19. Por meio da música, o espírito nacionalista ganhou vazão. A arte, antes aristocrática, se voltou ao povo, ao burguês, à ideologia liberal.

Chopin na Polônia, Liszt na Hungria, Smetana na Boêmia, Auber na Bélgica, Wagner na Alemanha e Verdi na Itália foram as maiores expressões musicais desse despertar dos sentimentos populares que repudiavam os impérios da Europa, como os Romanov, os Habsburgos e os Bourbons. Muitos destes compositores fizeram das óperas comícios patrióticos, incitando a opinião pública na busca por direitos e justiça.

Já Beethoven criou um verdadeiro épico em 1803, com a 3ª Sinfonia, Eroica. A composição foi inicialmente dedicada a Napoleão Bonaparte. O pianista admirava os ideais da Revolução Francesa. Porém, quando Napoleão se autoproclamou imperador da França, Beethoven retirou a dedicatória com um buraco de faca no papel, onde antes constava a homenagem ao golpista.

A visão do que a Sinfônica pode oferecer ao seu Estado, tanto do ponto de vista de formação de músicos como da plateia, é o que move o espírito guerreiro do maestro José Nilo Valle, um incansável batalhador, que dedica sua vida para manter a orquestra nos palcos.

“Para viver de música é preciso amor e coragem”, sentencia.

Maestro José Nilo Valle é a prova de que quem tem coragem consegue viver e respirar música – Foto: Anderson Coelho/ND

O maestro, sempre em busca de novos talentos26

Catarinense de Nova Trento, José Nilo Valle gostava de ouvir o violinista do Terno de Reis e das noites de Natal. Tinha cinco anos e lembra-se desses momentos como vivacidade. O encantamento fez com que os pais o deixassem entrar para a Banda Musical Padre Sabatinni.

Trabalhar como música, no entanto, soava um pouco rebelde – ou na visão da época, coisa de vagabundo. Mas, por sorte, o maestro manteve seu propósito.

Virou bacharel em composição e regência de orquestra e ópera pela Escola Nacional de Música da Universidade Federal do Rio de Janeiro e de licenciatura plena em música e educação artística pela Universidade Federal do Paraná, em Curitiba.

Premiado pela Secretaria de Estado de Educação, Cultura e Desporto de Santa Catarina e pelo Ministério da Educação e Cultura, fez mestrado e doutorado na Universidade de Washington, nos EUA. Frequentou festivais e cursos com grandes mestres da música universal, participando de dezenas de produções de ópera e balé no Brasil e no exterior.

Mas, quando voltou a seu Estado, se decepcionou pela ausência de um trabalho de qualidade. Desde então, se dedica integralmente à Sinfônica. Uma jornada de sucesso fácil de perceber.

Membro da Conductor’s Guild International, o maestro é autor de grande número de obras musicais e ensaios. A convite da American Biographical Institute teve seu nome incluído nos volumes 5.000 Outstanding Musicians of The Twentieth Century e na enciclopédia britânica  Who is Who in Music, da universidade Cambridge, em Londres.

Entre as honrarias e troféus, destacam-se o título de Cidadão Honorário de Guabiruba, troféu “Bruschi Saluta”, ofertado pelo Circolo  Italiano de Brusque, troféu 111 Anos de Emancipação Política de Nova  Trento, Honra ao Mérito da Câmara de Vereadores de Florianópolis, Honra ao Mérito da Assembleia Legislativa do Estado de Santa Catarina e Medalha Anita Garibaldi, do governo estadual.

Sua meta é encontrar novos talentos. Foi fundamental para formação de instrumentistas de grande valor e é muito admirado pelos colegas – um corpo que respira e expira arte. Sopros. Cordas. Metais. Madeiras. Teclas. Percussão. Um organismo vivo regido em uníssono capaz de mostrar o poder e a potencialidade da humanidade em harmonia.

História de vida diferentes que se encontraram na Ossca

Violinistas

Aos 5 anos, Vinicius Silva já fazia shows na sala de casa. Aos 8, começou a estudar teclado, depois violão. Aos 13, ganhou o primeiro violino. Era o alienígena da turma, um adolescente dos anos 90 que curtia Vivaldi e Beethoven. Foi nessa época que foi apresentado a outro incentivador da cultura no Estado, o maestro da orquestra do IFSC, professor Irineu Lopes Melo. Não custou a ser descoberto por José Nilo Valle. Entrou na Ossca numa fase dourada da orquestra, quando foram feitas apresentações em 150 municípios catarinenses e formados quintetos de cordas, metais e madeiras.

Estudou tango na Argentina, mas em Buenos Aires se apaixonou pela música irlandesa. De volta ao Brasil, depois de três anos, criou bandas, participa de eventos festivos como casamentos e voltou para a Ossca.

Guilherme Fuck também é violinista. Natural de Indaial, começou com aulas de teclado por determinação dos pais. No segundo ano de estudo, seu professor sugeriu que tocasse violino. Se encantou e resolveu levar a música a sério. Entrou para a orquestra do maestro Paulo Lira, que tem esse sobrenome porque o bisavô escravo tocava esse instrumento. Nessa semana, participou da apresentação de dez anos da Orquestra da UFSC.

Gilmar Freitas usa a música como instrumento para curar a mente – Foto Anderson Coelho/ND

Trombone

O avô de Gilmar Freitas fundou a banda de Santo Amaro em 1900. Seu pai, diretor da escola, oferecia uma bola de futebol para quem entrasse para banda. Com essa ascendência, não poderia ser diferente. Gilmar entrou para a banda aos 12 anos, regido pelo maestro Luiz Fernando da Costa. Flertou com a Ossca durante anos, mas entrou em 2018, ao se aposentar e seguir recomendação médica.

Diagnosticado com síndrome pós-polio, seu neurologista disse que se largasse a música teria doenças mentais. Com a música cura a si e a crianças vtimas de violência física ou moral, que ensina voluntariamente na banda de Santo Amaro.

Odair Altamiro vem de uma família de entusiastas da música – Foto Anderson Coelho/ND

Clarinete

O pai de Odair Altamiro também era entusiasta da música. Tocava na banda da PM. Altamiro também optou por carreira nas Forças Armadas, tocava na banda da Aeronáutica, após buscar capacitação fora do Estado. Sempre que podia arrumava uma brecha para se aprimorar.

Foi no camarim do TAC, depois de uma apresentação com a bailarina Ana Botafogo, que pediu para Paulo Sérgio Santos o enviar a fazer o glissando, difícil técnica vocal, exigida na execução da belíssima Rhapsody in Blue, composição de George Gershwin que combina jazz com música clássica.

Tuba

Guilerme Mattos é filho de colonos. A irmã queria entrar na banda de Santo Amaro, mas só teve permissão com o irmão indo junto. Ele tinha 12 anos, ganhou uma tuba e nunca mais parou de tocar. Também é professor voluntário da banda.

Violoncelo

Há cem anos, as mulheres não podiam tocar o instrumento porque exige que as pernas fiquem abertas. Herlene Mattos reescreve a história das mulheres como exímia violoncelista.

Sua ligação com o instrumento começou quando aos dez anos entrou no coral da escola, em São Joaquim. O maestro Cristóvão Francisco Bettoni, que a achou afinada, a parou na rua convidando para um teste. Herlene lembra que estava de mãos dados com a mãe.

“Quando entrei, o maestro pediu para olhar minhas mãos. Achou grandes e me deu o violoncelo”, conta.

Herlene vive do seu instrumento. É formada em música pela Udesc e cinema pela UFSC. Foi professora durante 12 anos e acredita que quando sobe no palco espelha sonhos de outros músicos em potencial.

Trompa

Trompa, um dos instrumentos mais bonitos, conquistou o músico – Foto: Anderson Coelho/ND

Daniel Henrique Peres ia ser convocado para o Serviço Militar Obrigatório, mas o maestro José Nilo Valle ligou para o coronel pedindo sua dispensa. Para alívio do jovem, o pedido foi aceito e ele trocou o fuzil pela trompa.

Daniel também começou na banda da escola. Não conhecia trompa até seu professor de música, Davi Machado, falar que era o instrumento mais bonito que existe. Então, foi atrás de um músico de Curitiba, que dava aulas de São José, Felipe da Rosa Silva. Com um mês de aula foi admitido na orquestra do professor Irineu, no IFSC, onde ficou até se safar das fardas.

Inspira!