Premiada cantora lírica Eva Zaïcik traz recital a Florianópolis

Revelação da cena lírica internacional, a meio-soprano francesa Eva Zaïcik é a atração do próximo Concertos AF, da Aliança Francesa Florianópolis. A parisiense apresenta o recital “Femmes Amoureuses” (Mulheres Apaixonadas), acompanhada pelo pianista paulistano Marco Bernardo. A apresentação será nesta quinta (17) no Teatro Pedro Ivo e abre a primeira turnê da artista no Brasil — depois da Capital, ela segue para São Paulo, Curitiba e Manaus.

Eva Zaiicik abre a turnê pelo Brasil na Capital com espetáculo no Teatro Pedro Ivo no dia 17 de outubro – Foto: Victor Toussaint/Divulgação/ND

Em 2018, Eva saiu vencedora na edição dedicada à voz do Concurso Rainha Elisabeth da Bélgica. A competição é considerada uma das mais prestigiadas e difíceis em todo o mundo. Nesta entrevista exclusiva, ela fala sobre a arte secular do canto lírico, o desafio de cantar música erudita na contemporaneidade e sobre como a arte transforma as pessoas.

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O Concertos AF – Femmes Amoureuses, com Eva Zaïcik, é viabilizado por meio da Lei de Incentivo à Cultura, com realização da Aliança Francesa Florianópolis, Echo, do Ministério da Cidadania e Governo Federal. O evento tem o patrocínio de ENGIE, Da Magrinha e Peróxidos do Brasil. Apoio institucional da Embaixada da Bélgica no Brasil. A produção é da Marte Cultural.

Confira uma entrevista exclusiva com Eva Zaicik

A história do canto lírico remonta a séculos. Por que essa arte secular te atraiu em princípio?

Tanto quanto me lembro, sempre cantei. Eu fazia parte de um coro infantil aos 4 anos de idade e, na adolescência, era a vocalista de uma banda de rock que eu formava com alguns amigos do ensino médio. No entanto, nesses anos, nunca havia imaginado minha paixão pelo canto como uma carreira a ser seguida. Na época, eu sonhava ser médica. Colocando isso em contexto, sou a primeira e única música profissional da minha família. Paradoxalmente, a Faculdade de Medicina me inspirou a me tornar uma cantora.

Foi só depois de um ano na faculdade e um ano inteiro sem música que eu entendi o quanto a música era vital para minha vida e o quão crucial era para minha felicidade. Decidi, portanto, deixar a curso e dedicar meu tempo inteiramente à música. Foi uma decisão difícil e uma jornada desafiadora: eu não aprendi a ler uma única nota antes de completar 20 anos!

Eu trabalhei duro. Primeiro, descobri a música coral enquanto cantava no coral de Notre Dame de Paris, por 4 anos. Finalmente fui admitida no Conservatório Nacional de Paris em 2011. Meus estudos musicais foram absolutamente fantásticos e abriram um mundo para mim. Desde então, sou grata por cantar com grandes orquestras e regentes como aqui no Brasil.

Você se move entre música antiga e contemporânea. Como é tocar clássicos, como “Carmen”, por exemplo, hoje em dia?

As técnicas permanecem as mesmas, apenas o tratamento da voz é diferente. Eu adapto meu instrumento a cada estilo de música. Cantar “Carmen”, por exemplo, é mais a alegria de interpretar uma mulher livre do que cantar de maneira diferente. Mesmo a “música contemporânea” não pode ser generalizada para uma maneira de cantar. Cada compositor tem uma ideia de como ele quer ouvir uma voz – às vezes como um instrumento, às vezes de uma maneira muito lírica, outras vezes barroca ou até mesmo sprechgesang (expressão alemã para técnica vocal e quer dizer quase falando com a voz do peito).

Você acha que músicas antigas ainda são pertinentes hoje em dia?

A música clássica é tão importante quanto qualquer tipo de música. Música e artes em geral são necessárias para a humanidade. Nossa capacidade de criar, transmitir e comunicar é, entre outras coisas, o que nos diferencia dos animais. A música também é a maneira mais fácil de se comunicar entre pessoas e culturas. É uma linguagem universal. Eu acredito profundamente que, sem as artes, o mundo perde sua humanidade e seu livre arbítrio.

Em sua turnê no Brasil, você se apresenta apenas com um pianista. Como montar um repertório para um show mais íntimo?

Um concerto com um pianista é mais íntimo. É entre dois músicos, encontrar o fluxo certo, é como aprender a dançar juntos. Precisa de tempo, às vezes anos, para encontrar as melhores jogadas. Você às vezes precisa liderar, às vezes precisa se render. É tudo sobre comunicação, prática e confiança. Com uma orquestra, geralmente temos menos tempo para ensaiar, temos que nos ajustar e nos comunicar com o maestro responsável por ser o elo entre o cantor e a orquestra. Com uma orquestra, a intimidade é diferente. Nós, como cantores, podemos oferecer mais cores, mais nuances, tantas quanto existem na orquestra.

A inércia inerente à orquestra precisa de alguns ajustes, mas também pode ser mais fácil para um cantor, porque há um fluxo e um legado com cordas e madeiras que você nem sempre tem com um piano (cada um é mais um instrumento percussivo). Em resumo, são muito diferentes e eu gosto deles por diferentes razões e em várias dimensões.

Como a música mudou sua vida e por que você acha que a música é importante, tanto antiga quanto atual?

Foi o meu melhor meio de comunicação e ajudou a me expressar nos momentos difíceis e bons da vida. A música é um tipo de terapia. De uma maneira mais pragmática, mudou minha vida porque estou sempre viajando, aprendendo algumas músicas novas, conhecendo novos colegas, maestro, orquestra, diretores de palco etc. Minha casa se tornou o quarto de hotel em que eu permaneço para meus passeios em uma cidade que geralmente não tenho tempo suficiente para visitar. Às vezes é difícil, porque estou longe da minha família e amigos. Mas a música me alimenta e me dá muita alegria. Não mudarei minha vida por nada no mundo.

Serviço:

O quê: Concertos AF| Femmes Amoureuses, com Eva Zaïcik
Quando:17/10, 20h30
Onde: Teatro Pedro Ivo, Rodovia SC 401, 4.600, Saco Grande, Florianópolis
Quanto: a partir de R$ 30 Cliente Clube ND têm 35% de descont

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