Projeto visa tornar antiga biblioteca pessoal de Cleber Teixeira em espaço público

Rosane Lima/ND

Viúva do editor Cleber Teixeira, Maria Elizabeth pretende criar uma biblioteca onde funcionava a Noa Noa, editora de livros artesanais criada pelo marido

Quem entra na casa onde o editor e poeta Cleber Teixeira (1938-2013) morou durante a maior parte de sua vida se surpreende com a quantidade de livros espalhados pelas prateleiras presentes em todos os cômodos. Durante as últimas décadas a casa, localizada em uma rua do bairro Agronômica, em Florianópolis, sediou um verdadeiro centro cultural. De maneira informal o tipógrafo fundador da editora Noa Noa, reconhecido nacionalmente por seus trabalhos, recebia escritores, intelectuais e aprendizes da arte de fabricar livros de maneira artesanal. A maioria deles procurava Cleber em troca de uma boa conversa, orientação ou para empréstimo de alguma obra – durante a sua vida, o escritor acumulou mais de oito mil títulos de publicações, a maioria referente a literatura e às artes visuais. Agora, quase três anos após a sua morte, um projeto promete tornar a antiga biblioteca de Cleber Teixeira em um espaço público.

“O projeto surgiu como uma decorrência natural, de uma vontade minha de atender ao desejo dele. Se a biblioteca já era usada pelas pessoas quando ele estava vivo, é normal que siga se fazendo o mesmo. É uma ideia do próprio Cleber, que gostaria muito que o espaço continuasse acessível para os interessados”, conta a arquiteta Maria Elizabeth Pereira Rego, viúva de Cleber. A data para a conclusão dos trabalhos de organização da biblioteca e fundação oficial do equipamento cultural ainda não existe, porque depende da quantidade de recursos financeiros que o projeto conseguirá levantar, e tal verba pode vir através de um patrocínio ou edital público: “estamos de portas abertas para qualquer tipo de ajuda que possa nos auxiliar para a criação da biblioteca”, observa Maria Elizabeth, que coordena o projeto de revitalização do espaço.

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Dois estagiários da UFSC já trabalham na organização e catalogação dos livros

Ainda com a falta de recursos, o trabalho de catalogação dos títulos da antiga biblioteca de Cleber Teixeira já iniciou há cerca de dez dias. Dois estagiários da UFSC (Universidade Federal da UFSC), um da graduação em arquivologia e outra do curso de biblioteconomia, semanalmente organizam os livros. “Ainda não nos aprofundamos muito, mas já encontramos publicações únicas, raríssimas. Cleber encontrava muitos livros em sebos também. Você encontra obras tipográficas, livros sobre livros, entre outras publicações. É um acervo muito extenso”, afirma o estudante de arquivologia Guilherme De Castilhos Nunes. Para Marina Bitencourt, que cursa biblioteconomia e também trabalha no projeto, o processo de organização será longo e complexo: “há títulos antigos em várias línguas, alemão, francês, inglês. Mas já terminamos de organizar os livros editados pelo próprio Cleber”, adianta a estudante.

Em 2014, um projeto para organizar o acervo pessoal fotográfico e as correspondências do criador da editora Noa Noa ganhou o prêmio Elisabete Anderle de Incentivo à Cultura, do Governo do Estado. As fotos e cartas de autores foram organizadas e o projeto finalizado. “Ele também era um bibliotecário, organizava as estantes por editorias e grandes temas. E abria as portas para as pessoas para emprestar os livros, fazer palestras e ensinar quem quisesse aprender. Sempre foi uma casa muito viva, e é justo que continue desse jeito”, diz Maria Elizabeth. A Biblioteca Cleber Teixeira ficaria sediada na antiga gráfica da editora da Noa Noa, que fica na própria casa, em um cômodo anexo.

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Máquinas tipográficas que pertenciam a Cleber ainda estão na antiga editora, espaço que agora deve se tornar biblioteca pública


Das palavras

Cleber Teixeira nasceu em 20 de setembro de 1938 no Rio de Janeiro. Seu pai era jornalista e ele cresceu frequentando as redações de jornais. Entre 1968 e 1974, trabalhou no INL (Instituto Nacional do Livro). É autor dos livros “Armadura, Espada, Cavalo e Fé” (1979), “Oito Poemas” (1981), e “Velhos e Novos Poemas” (1987), entre outros, todos publicados pela Noa Noa, editora que fundou ainda na década de 1970 e pela qual publicou 69 livros clássicos nacionais e internacionais, de maneira artesanal, com prensas ainda no modelo de Gutenberg, equipamentos que até hoje estão em sua antiga casa. Também poeta, em 1977 mudou-se para Florianópolis, onde morou durante a maior parte de sua vida, e morreu em 23 de junho de 2013 aos 73 anos, devido a complicações de saúde por causa de uma doença degenerativa. 

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