Referência em teatro infantil, Valdir Dutra ajudou a formar plateias da cidade

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Prestes a completar 80 anos, Valdir será homenageado no próximo Carnaval de Florianópolis – Foto: Foto Flavio Tin/ND.

No teatro, poucas pessoas no mundo podem se gabar de ter se apresentado para tantas pessoas, ter mais de 60 espetáculos montados e ser uma referência para diferentes gerações. Não é exagero. Valdir Dutra não tem formação acadêmica em artes cênicas ou assina tratados teóricos sobre dramaturgia contemporânea, mas é sem dúvidas personagem relevante na história do teatro em Santa Catarina.

Há quase 56 anos ele dedica a vida ao teatro infantil. Se você foi criança em Florianópolis, é bem provável que tenha assistido a alguma peça do GTI (Grupo de Teatro Independente). E essa é a importância fundamental de Valdir: graças a ele, milhares de crianças tiveram contato pela primeira vez com o teatro. Hoje, os netos de quem o assistia nos anos 1960 ou 1970 seguem aprendendo a valorizar a cultura.

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No próximo dia 30 de janeiro ele completa 80 anos e a celebração se estenderá para a passarela do samba Nego Quirido. A trajetória de Valdir será contada no enredo da escola de samba União da Ilha da Magia.

Na última terça (5), quando nos recebeu em casa com uma farta mesa de café da tarde, mostrou pelo celular o samba que conta a sua vida. “Eu adoro Carnaval. Dessa vida eu só levo coisa boa e essa é uma das surpresas que a vida me deu, ser homenageado por uma escola de samba. É um orgulho”, disse.

Um susto

Recentemente passou por um susto. Ficou 30 dias internado para tratar uma pneumonia que se complicou em bactéria e um problema cardíaco. “Eu fiquei com medo. Eu não quero morrer já. Tenho muita coisa para fazer”, desabafou.

Agora está comendo melhor, cuidando da saúde, mas segue trabalhando. Ainda esta semana viajou com o elenco para apresentações no Sul do Estado. Para o ano que vem, já está programada uma nova montagem de Pinóquio.

“Valdir Dutra atravessou décadas persistindo na montagem de teatro infantil. Seu trabalho preencheu lacunas na produção teatral para crianças em momentos de escassez, quando os grupos de Florianópolis se dedicavam mais ao teatro adulto. Várias gerações de crianças se fizeram presentes ao longo dessa trajetória e não é incomum encontrar pessoas que até hoje se referem a ele como ‘tio Valdir'”, diz a professora, produtora e atriz Sulanger Bavaresco, diretora artística do principal festival de teatro da Capital, o Isnard Azevedo.

O manezinho tem mais de 60 espetáculos montados no currículo ao longo dos 56 anos de carreira – Foto: Foto Flavio Tin/ND

Amor pelo teatro, paixão pelo cinema

A história com o teatro começou pelo cinema. Ele era um menino quando conheceu a sétima arte e percorria as salas de cinema da cidade para assistir aos filmes de bang-bang e velho oeste norte-americanos: Ritz, Roxy, Glória, Odeon, Cine São José, Imperial, Jalisco.

“Eu sou do tempo do cinema mudo. A cada fim de semana era um oeste diferente. Era vidrado nisso. O TAC (Teatro Álvaro de Carvalho) era um cineteatro e foi ali que eu comecei a gostar de teatro”, lembra.

Valdir Dutra gostava de prestar atenção no que os artistas dos poucos espetáculos que vinham de fora da cidade faziam. Quando surgiu uma vaga para bilheteiro, ele aproveitou.

“Eu sou do tempo do cinema mudo. A cada fim de semana era um oeste diferente. Era vidrado nisso. O TAC (Teatro Álvaro de Carvalho) era um cineteatro e foi ali que eu comecei a gostar de teatro”.

“Naquela época teatro aqui não sobrevivia. Era supérfluo. Mas quando tinham grandes montagens, as pessoas se arrumavam — os homens de smoking e as mulheres de casacos. Na entrada do teatro tinha até lugar para guardar os chapéus”, conta.

De bilheteiro, pipoqueiro, engraxate e jornaleiro, Valdir aprendeu a arte da produção. Foi responsável por trazer a Florianópolis shows memoráveis e espetáculos com ídolos do teatro brasileiro: Roberto Carlos, Bibi Ferreira, Paulo Autran, Eva Wilma, Tarcísio Meira.

Fazia os contatos, fechava o borderô e tinha participação de 10% na renda. E o ofício virou meio de sobrevivência.

Dos Ingleses ao Mocotó

Valdir Dutra viu a cena cultural e as distâncias mudarem Florianópolis. Ele nasceu no bairro Ingleses, segundo filho e único menino entre três irmãs. Família pobre, lembra que andava descalço porque não tinha calçados.

Ao olhar para a mesa farta na casa que construiu para a família, localizada próximo à praça Celso Ramos, na Agronômica, recorda que na casa dos pais não tinha mesa nem cama. Comia-se no chão, na volta da esteira: um alguidá com pirão de feijão e o conduto (variava entre linguiça, carne, peixe) a ser poupado para acompanhar.

“A pobreza naquela época era grande. Para chegar aos Ingleses eram dois dias de caminhão. Sentava no banco. Quando atolava, aí tinha que chamar os carros de bois. Eu me considero um guerreiro pelo que passei na vida. Acho que estamos no mudo para praticar o bem”, diz ele.

Estudou até o quarto ano primário, de resto foram os palcos e a faculdade da vida que o ensinaram. Conheceu a mulher, Neusa Dutra, 72 anos, companheira de vida e de trabalho, quando ela trabalhava numa loja de costuras em frente ao extinto Cine São José, luxuoso cinema erguido nos anos 1950 na rua Padre Miguelinho.

“Toda essa história do teatro só deu certo por causa dos dois. Não terá outra geração assim, com esse exemplo de cumplicidade e respeito. Só funcionou porque o pai nasceu com isso e a mãe abraçou a ideia”, avalia Adriano Dutra, um dos filhos do casal que hoje dá continuidade ao ofício do pai.

Fotos, figurinos e cenários dos espetáculos são guardados em um depósito – Foto: Foto Flavio Tin/ND

O público mais exigente é o infantil

Antes de fazer teatro, Valdir Dutra aprendeu a observar. Via como as grandes companhias que se apresentavam na cidade montavam cenário, como era o texto, a posição e postura dos atores, técnicas de iluminação, a importância dos figurinos. E começou a fazer e a dirigir as próprias produções, sempre voltadas para o público infantil.

No começo, todas eram um fracasso. Até um dia em que Tolentino Neves, então representante da FOX no Estado, sugeriu: por que não monta “Os Três Porquinhos”?

“A primeira peça foi “Oncilda e Zé Buscapé”. Um fracasso. Teve ainda “O Ratinho Sabido”, também fracasso. Eu saía pelo comércio a vender ingressos. Aí segui a sugestão e montamos “Os Três Porquinhos”. Vai fazer 50 anos da primeira vez e é o espetáculo mais rodado de Santa Catarina. Abriu muitas portas e é nosso carro-chefe até hoje”, conta Valdir.

Histórias clássicas infantis são temas recorrentes nas obras de Valdir Dutra – Foto: Foto Reprodução/Flavio Tin/ND

O segredo: as histórias e fábulas universais

Na época, ele integrava o extinto grupo teatral Nós, companhia por onde passaram figuras como Mário Alves Neto, Nilson Mello, Almir Passos, Gessony Pawlick, entre outros. Na década seguinte fundou o GTI (Grupo de Teatro Independente), atuante até hoje.

O sucesso se deve a uma fórmula simples: atenção ao que as crianças gostam e histórias clássicas, fábulas universais e contos imortalizados pela Disney. Os figurinos, elementos marcantes para quem assiste às peças do GTI, seguem sendo feitas pela mulher, Neusa, a partir das ideias de Valdir e do grupo.

“Crianças formam uma plateia exigente. Tu podes enganar um adulto, mas criança não. Elas sabem o que é certo e errado. Se tu perguntar, ela vai dizer: ‘não gostei’”, pondera.

Formador de plateias

Para professora de história do teatro da Udesc e pesquisadora Vera Collaço, Valdir Dutra foi a primeira pessoa em Florianópolis que fez da família uma companhia permanente de teatro.

“Uma coisa quase circense, mambembe, com toda a família trabalhando na arte e viajando pelo Estado. Ele queria viver de teatro e descobriu esse filão. Lembro dos narizes virados e muita gente questionando a qualidade. Mas não parava para ver que ele estava formando plateia. Essa é a grande contribuição de Valdir”, afirma a pesquisadora. “Por isso o teatro dele é importante. Ele come e vive teatro. Ele é de verdade”, conclui.

Atualmente o GTI segue com elenco fixo (integrantes com idades que variam de 7 a 70 anos) de 14 pessoas, ensaios duas vezes por semana na Biblioteca Pública de SC e já se prepara para a temporada 2020. Também estão nos planos a abertura de oficinas de teatro para o próximo ano. O filho é quem assumiu a responsabilidade de dar continuidade ao trabalho.

Perto da casa da família na Agronômica fica o depósito com dois andares onde está guardada toda a história do grupo. Figurinos, cenários, equipamentos de luz e som já obsoletos, letreiros, jornais antigos. Relíquias sem valor para história do teatro em Santa Catarina.

“A gente tem tanto sonho. O espetáculo da minha vida é que eu gostaria de ter um teatro no meu nome”, confidencia. E como conselho, diz aos mais novos: “para viver de teatro tem que ter muita luta. A área da cultura as pessoas sempre tratam como lixo. O país que investe na cultura é país que se desenvolve. É a base de um povo. Não pode deixar acabar.”

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