Relembre os hotéis com piano-bar em Florianópolis, comuns dos anos 1950 aos 1970

Majestic Hotel, na rua Deodoro, um dos pontos emblemáticos – Foto: Reprodução/ND

Para as novas gerações, nomes como Dick Farney, Tito Madi, Nora Ney, Lúcio Alves e Agostinho dos Santos podem não ser ilustres e nem conhecidos. Contudo, houve um tempo em que parte de Florianópolis parava para ouvir trios musicais ou pianistas dedilhando os sucessos desses artistas, ícones da bossa nova, do bolero ou do samba-canção, em hotéis com som ao vivo, na faixa das 17h às 22h. Esses estabelecimentos usavam a música para atrair os hóspedes para o bar, mas não só eles – também moradores da cidade marcavam encontros para um drink no embalo das canções que figuravam na lista das mais tocadas nas rádios locais e do Rio de Janeiro, cidade que ditava a moda nas artes e nos costumes para o Brasil inteiro.

Nas décadas de 1950 e 1960 do século passado, hotel que se prezasse devia ter piano-bar. Eram assim o Lux (rua Felipe Schmidt), um dos mais requintados de Floripa, o Majestic, o Laporta, o Querência e o Oscar. Eles contratavam instrumentistas para tocar o que o rádio, o principal meio de comunicação na época, reproduzia em programas musicais de grande audiência.

O radialista Antunes Severo e a cantora Neide Mariarrosa em happy hour – Foto: Reprodução/ND

Os manezinhos sintonizavam a Eldorado (São Paulo) e a Mayrink Veiga (Rio) e, assim, sabiam o que era sucesso nas principais capitais do país. Por aqui, a rádio Diário da Manhã (hoje CBN Diário) tinha atrações como “Um piano ao cair da tarde”, com os pianistas Zequinha e Aldo Gonzaga, e “Bar da noite”, comandado por Cláudio Alvim Barbosa, o Zininho, autor do hino da cidade.

O que os hotéis faziam era oferecer música de qualidade para clientes que pedissem bebidas e salgados oferecidos como consumação. “No hotel Querência, o piano-bar ficava no sexto andar, ou seja, o último do prédio, com vista para o mar”, diz Décio Bortoluzzi, funcionário público aposentado que se criou nas cercanias do Mercado Público e da Casa da Alfândega. O Querência ficava na esquina do Mercado, na rua Jerônimo Coelho, e hoje é um edifício comercial, com lojas e escritórios. Um artista sempre convidado era o pianista Dimas Campos, proprietário do restaurante Baturité, que marcou época em Balneário Camboriú.

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Como no Rio de Janeiro, a moda eram os trios de artistas que incluíam pianista, baterista e violonista (ou guitarrista). O jazz, de raiz americana, também tinha seu espaço, mas o samba-canção e a bossa nova ainda davam as cartas. Décio Bortoluzzi cita o nome de alguns dos frequentadores assíduos dos pianos-bares: os radialistas Antunes Severo e Adolfo Ziguelli, os jornalistas José Hamilton Martinelli, Salim Miguel e Raul Caldas Fº, e publicitários de diversas agências da cidade.

Bares também tinham atrações

Não eram só os hotéis que ofereciam música com instrumentistas consagrados na Ilha. Frequentadores contumazes citam os bares Sabino’s e Samburá, este aberto pelo músico Luiz Henrique Rosa, que conviveu com a nata da bossa nova, aqui e nos Estados Unidos. Nesse bar, localizado na praça 15 de Novembro, o publicitário aposentado George Peixoto, conhecido como Picolé, garante ter visto Elis Regina, ainda antes da fama, e Jorge Bem, que eram amigos de Luiz Henrique. Adolescente, Peixoto ia com amigos espiar as moças que faziam os vocais de acompanhamento e acabava curtindo os programas musicais da noite.

Hotel Laporta em seus tempos áureos, nas imediações do Largo da Alfândega – Foto: Reprodução/ND

O ator de teatro Édio Nunes de Souza se lembra do piano-bar do hotel Royal (na travessa Ratcliff), onde tocava o músico e compositor Mirandinha, figura de prestígio no rádio. E diz que o Sabino’s Bar, pertencente ao pianista Luiz Fernando Sabino, funcionava no prédio do antigo Ipase, na rua Arcipreste Paiva, próximo à praça Pereira Oliveira. Outros lugares com música ao vivo eram o Meu Cantinho (na rua Jerônimo Coelho) e um bar que ficava no térreo do shopping ARS, entre as ruas Felipe Schmidt e Conselheiro Mafra. E havia o Universal, o “bar que nunca fechava”, extremamente popular nas proximidades do Mercado Público.

Além de Zequinha e Aldo Gonzaga, fosse em bares, fosse em hotéis, despontavam talentos como Aor Ribeiro e a cantora Neide Mariarrosa – esta, uma voz privilegiada ainda hoje reverenciada pelos apreciadores dos grandes intérpretes da música brasileira. Neide, aliás, teve a chance de se projetar nacionalmente, chegou a ir para o Rio de Janeiro, mas se rendeu à saudade e voltou para Florianópolis.

Ambientes para camisa social e paletó

Ele próprio um baterista amador, o engenheiro e artista plástico Átila Ramos acompanhou alguns dos shows patrocinados pelos hotéis e bares para fidelizar sua clientela. Ele chegou a tocar no piano-bar do hotel Royal e lembra de artistas como o pianista Gerson Neves e a cantora Neide Mariarrosa. Nesses ambientes, o uísque era soberano, mas havia quem pedisse gim tônica e Campari com soda. Eram lugares onde se ia mais arrumado, de camisa social ou paletó. Ao contrário dos botecos de esquina, os pianos-bares exigiam certa classe no trajar e eram mais seletivos – eles tentavam imitar o glamour do Copacabana Palace, do Hilton e outros hotéis e casas noturnas do Rio onde se esgueiravam Tom Jobim, Vinícius de Moraes, Maysa, Angela Maria, Dolores Duran e Elizeth Cardoso.

Antunes Severo (à esq.) com o compositor Zininho (à dir.) – Foto: Reprodução/ND

Os pianos-bares eram também onde os hóspedes trocavam ideias e pediam informações sobre a cidade para os garçons. “No Oscar, na avenida Hercílio Luz, um barman chamado Bom Cabelo sabia de cor o que cada cliente costumava pedir – um atributo importante para os trabalhadores do ramo”, diz Décio Bortoluzzi, que frequentava a casa para ouvir George Gershwin, Francisco Alves, Ismael Silva e Noel Rosa. Se aqui esses ambientes acabaram, no Rio de Janeiro e São Paulo ainda há locais intimistas para um happy-hour. “Quando eu ia ao Rio, o jornalista catarinense Ilmar Carvalho me levava a alguns desses pontos”, conta Décio. “Nos tempos áureos, na orla de Copacabana, todos os hotéis tinham um piano na parte superior, com ampla visão para o mar”.

Entre os bares, um dos mais frequentados era o Samburá, que Luiz Henrique Rosa enfeitou com objetos lembrando a pesca e a vida no mar. “Ele foi para os Estados Unidos com o pessoal da bossa nova e, quando retornou, foi morar na minha casa, em Coqueiros”, conta Bortoluzzi, afirmando que Luiz Henrique era um músico genial, mas nunca soube fazer negócios e guardar dinheiro. Foi este artista que ciceroneou a atriz Liza Minelli quando ela esteve em Florianópolis – eles haviam se conhecido em Nova York, na época em que a música brasileira era uma coqueluche na América. Luiz Henrique chegou a gravar cinco discos nos seis anos em que morou fora, e lá também conviveu com feras do porte de Stan Getz, Oscar Brown Jr. e Bobby Hacket, além dos brasileiros Sivuca, João Gilberto e Airto Moreira.

Com um piano a bordo

Até os anos de 1960 e 1970, o Centro de Florianópolis era efervescente porque os bairros e balneários ainda não haviam crescido tanto. O bar Miramar fez história, assim como o café Natal, a Confeitaria do Chiquinho (onde também havia música) e o bar São Pedro, perto do ponto de partia dos ônibus para o Continente. Os clubes Doze de Agosto e Lira eram referências na vida social, com seus bailes de debutantes e a rivalidade durante o Carnaval. O pintor Átila Ramos cita ainda a boate Capelinha e o bar Armazém Vieira como casas com música para os melhores ouvidos.

Bar Miramar e sua localização estratégica que fizeram história no Centro da Capital – Foto: Reprodução/ND

“A maioria dos hotéis tinha piano, inclusive nos da minha família”, ressalta Décio Bortoluzzi, cujo avô foi dono do hotel Central, na rua Conselheiro Mafra. “Tive uma tia que era professora e tremenda pianista. Foi com ela que aprendi a gostar de música. Na época, o hotel Lux era o melhor da cidade, com sofás e um balcão legal onde os drinques eram servidos. O próprio navio Carl Hoepcke, que transportava passageiros para Santos e Rio de Janeiro, tinha um piano de cauda disponível para quem quisesse tocar”.

 CURIOSIDADES

Mais um apelido

Um viajante que se hospedou no hotel Lux, sabendo do talento dos manezinhos para dar apelidos a todo mundo, se escondeu disposto a quebrar essa corrente. No entanto, para acompanhar o movimento, espiava pela janela de vez em quando. Quando desceu para polir os sapatos, o engraxate perguntou: “E aí, seu Cuco, vai graxa ou tinta?”

O nome de Maysa

Apresentada pelo radialista Aibil Barreto (1940-2018), com todas as pompas, como Maysa Matarazzo (sobrenome do primeiro marido) num show em Florianópolis, a cantora de “Meu mundo caiu” reagiu com uma pontinha de cólera: “Não sou Matarazzo, sou Maysa Monjardim”.

Garrincha na cidade

O hotel Majestic, na rua Deodoro, era onde costumava ficar o Botafogo quando vinha jogar em Santa Catarina. Ali, Garrincha não largava seu radinho portátil. Nas entrevistas, quem falava era Nilton Santos ou o técnico Zagallo, porque poucos entendiam os garranchos verbais de Garrincha.

Um astro no Mercado

João Gilberto se recusou a continuar um show no Lira Tênis Clube porque a plateia não parava de arrastar cadeiras. Ele terminou no bar do Goiano, no Mercado Público, onde tomou a saideira e acabou dando uma canja para uma dúzia de privilegiados.

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