Retorno como quem precisa reaprender a usar alteres, diz Sérgio da Costa Ramos

Sérgio da Costa Ramos está de volta ao jornal. Suas crônicas serão publicadas aos finais de semana no ND – Foto: Flavio Tin/ND

Florianopolitano, 72 anos, Sérgio da Costa Ramos passou metade da vida em redações, mas quando esteve fora delas manteve o vínculo com o jornalismo, sobretudo como cronista.

Pertence a uma linhagem que deu ao Brasil nomes como Machado de Assis, Lima Barreto, Carlos Drummond de Andrade, Rachel de Queiroz, Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos, Luiz Fernando Veríssimo. E o maior de todos, Rubem Braga, o “sabiá da crônica”. E Nelson Rodrigues, que impulsionou as leituras do adolescente já ciente de seu talento para a escrita.

Sérgio é filho do também jornalista Rubens de Arruda Ramos e foi editor-chefe do jornal “O Estado” e do “Jornal da Semana”, ambos de Florianópolis. Por cinco anos, trabalhou como correspondente da revista “Veja” em Santa Catarina. Também foi correspondente em Londres, de onde escreveu para jornais do Estado e do país. É autor de 12 livros de crônicas – o primeiro deles foi “Os civis precisam voltar aos quartéis”, de 1986, com 3 mil exemplares e há muito tempo esgotado.

Até janeiro deste ano, Sérgio escrevia crônicas para o “Diário Catarinense”. Saiu, viveu um período sabático e volta agora com textos semanais no ND. “O retorno é como quem precisa aprender de novo a usar alteres para exercitar a musculação”, compara o escritor. Assim, atende a um público que se sentiu órfão com sua saída de cena, porque não é muito dado a utilizar outras mídias para publicar o que escreve.

No ND, Sérgio diz que continuará tratando das coisas da cidade, porque “não falar do passado é trair o leitor”, mas sempre lembrando que Florianópolis tem presente e futuro. “O cronista só não pode ser chato”, sentencia.

Você está desde janeiro longe da crônica diária. Como é voltar a escrever regularmente num jornal impresso?

Sérgio da Costa Ramos – Crônica é literatura com outro viés, com humor e lirismo. Hoje, não encontramos mais tantos conhecidos no calçadão da Felipe Schmidt, por isso a crônica é uma forma de falar às pessoas sobre Florianópolis e as coisas que acontecem aqui, os cheiros e ruas da cidade, sempre com a leveza que é marca da crônica. Sou tradicionalista, e por hora nada substitui o jornal de papel.

Vamos falar do começo de tudo. Havia livros em sua casa? Como foram seus primeiros contatos com a leitura?

Sérgio – Meu pai, o jornalista Rubens de Arruda Ramos, era leitor voraz, e em casa havia sempre muitos livros. Uma estante imensa reunia obras de Eça de Queiroz, Machado de Assis, Maupassant, Marques Rebelo. E os russos Dostoievski e Tolstoi. E autores em língua inglesa, como Somerset Maugham, Graham Greene, Agatha Christie e Simonet – os romances da alma e os policiais.

Você foi um leitor e um cronista precoce. Qual foi o primeiro livro que leu?

Sérgio – Sem considerar contos ou crônicas, o primeiro romance lido desde o começo, sem saltar uma linha, foi “Crime e castigo”, de Dostoievski. Tinha prometido a mim mesmo fazer isso, instigado pelo padre Jeremia, professor de português do Colégio Catarinense. Era o ano de 1960, quando já tinha 13 anos. O livro é uma “cordilheira” da literatura universal, o pai dos romances psicológicos, um verdadeiro tratado sobre a alma russa e a aventura humana. A obra é um “thriller”, e de cara eu abri na página em que o personagem central, Rodion Raskolnikov, assassina a velha Alena Ivanovna a machadadas…

Você começou muito cedo a frequentar uma redação de jornal. Como foi isso?

Sérgio – Comecei a trabalhar aos 15 anos de idade, no jornal “O Estado”, como revisor. O diretor da casa, meu pai, contrariou meus planos de inaugurar uma coluna, dizendo: “Para aprender o ofício de escrever você precisa começar a ler tudo e a revisar tudo. Será um bom aprendizado”. E foi.

Fernando Sabino, de “Encontro marcado”, é uma de suas principais influências, mas Nelson Rodrigues foi uma leitura essencial, lá no início. Fale um pouco sobre isso.

Sérgio – Comecei garoto de ginásio, com 12 ou 13 anos. Lia Nelson Rodrigues e sua crônica esportiva “À sombra das chuteiras imortais”, além de seus folhetins, como “A vida como ela é”. Era Nelson em pleno transe, uma espécie de Glauber Rocha das gazetas. Ele comentava futebol como Sófocles escrevia tragédias, com um certo humor azedo e cáustico. Queria escrever como ele. Depois de ler Henri Bergson em “O riso”, descobri que o humor é o verdadeiro sal da terra. Até como vingança contra certos políticos e governos, porque o humor é sempre contra – não existe humor a favor.

E havia Rubem Braga…

Sérgio – Sim, e dele dizia Otto Lara Resende: “Quando tem assunto é bom. Quando não tem, é melhor ainda”.

Você pegou ali uma fase de turbulências na vida brasileira. Como os jovens lidavam com a política na época?

Sérgio – Vivi aos 17 anos a efervescência política do Brasil pré-renúncia de Jânio Quadros. Tive a consciência de que o país estava sendo dilacerado por uma sociedade estratificada em castas – a mais desenvolvida das quais, a dos bem postos e a dos bacharéis da UDN (União Democrática Nacional), não queria a democracia, mas um regime autocrático em que eles fossem os únicos mandantes.

“Um cronista não faz pirâmides, como queria Guimarães Rosa. Faz biscoitos. Mas uma boa crônica tanto pode ter a brevidade da história curta de um Rubem Braga como a eternidade de um miniconto de Borges. Depende da ‘ideia’ e da ‘roupa’ com que ela se apresenta”.

Você foi preso pela dita “revolução”. Conte como tudo ocorreu.

Sérgio – Minha prisão pelo regime militar aconteceu em dezembro de 1968, o “ano que não terminou”. Fui sequestrado por uma viatura da Polícia Federal quando, em calção e tênis, me dirigia ao Abrigo de Menores, na Agronômica, para jogar uma partida de futebol de salão. Um inspetor truculento disse-me que estava encrencado. Incurso em dois artigos da Lei de Segurança Nacional, fiquei incomunicável até que me descobriram numa cela do Estreito onde ficava a PF. Passei também pelo quartel da PM e pela Penitenciária Estadual. Fui libertado alguns meses depois, em julho de 1969.

Qual foi a alegação dada para a prisão?

Sérgio – Foram dois artigos que escrevi: “Por que morre Édson Luiz?”, um libelo contra a ditadura, enfocando o assassinato do estudante Édson Luiz de Souto Lima no restaurante Calabouço, no Rio de Janeiro, e “Arthur e eu na calada da noite”, uma “brincadeira” com o marechal-presidente Arthur da Costa e Silva. Um telegrama do general Jayme Portella, ministro da Casa Militar da presidência da República, mandou me prender, sobrepondo-se a todo o rito legal. Na cadeia, li toda a novelística de Kafka, incluindo “O processo” – que era o “meu” caso.

Você acabou absolvido, mas a experiência deve ter sido dura…

Sérgio – O promotor militar da 5ª Auditoria, em Curitiba, por onde corria o processo, não pediu minha prisão preventiva, após a audiência de qualificação em que fui apresentado. Na volta, mesmo assim os limitares não me soltaram. Foi preciso que meu advogado de defesa, René Dotti, “pedisse” ao promotor que “pedisse” a minha prisão preventiva. Assim, ele teria como recorrer ao Superior Tribunal Federal, devolvendo-me uma “vida jurídica”. Fui absolvido, mas naqueles poucos meses aprendi o significado do poema de Cecília Meirelles: “Liberdade, palavra que o sonho humano alimenta, que não há ninguém que explique e ninguém que não entenda”.

Como lida com a ideia de que a crônica é, do ponto de vista literário, um gênero menor?

Sérgio – Há contra a crônica um velho e tolo preconceito, pela sua fugacidade. Mas acho que literatura é escrever bem, pouca importa o gênero. Claro que a crônica não é eterna como os bons romances. Mas se o fato de aparecer primeiro na imprensa comprometesse ou desqualificasse um livro, seria necessário colocar no “index” obras importantes como “Memórias póstumas de Brás Cubas” e “Vidas secas”. Não faz muito tempo um folhetim publicado em jornais franceses e alemães virou romance de boa qualidade, e best-seller: “O perfume”, de Patrick Suskind.

“Escrever é, portanto, uma carpintaria, uma arquitetura”, resume o jornalista e cronista – Foto: Foto Flavio Tin/ND

O que é escrever para você?

Sérgio – Escrever é, antes de tudo, ter uma ideia e lhe dar uma forma. Perdoado o jeito machista da comparação, diria que a ideia é uma mulher nua e bela. Se for vesti-la, o escritor precisa ser um estilista. Vestindo-a, fará a mulher mais bonita ou não. A forma, o invólucro, é a roupa, a grife. Escrever é, portanto, uma carpintaria, uma arquitetura. Tenho, por dever de ofício, uma relação quase interativa com o leitor. A arte de escrever não é apenas um conjunto disciplinado de regras gramaticais, retóricas ou poéticas, mas uma forma de comunicação, em que o escritor se coloca também na posição e no lugar do leitor.

Como vê a situação do Brasil atual?

Sérgio – Vivemos um período bem complicado. Lembro de Tony Blair, que foi primeiro-ministro do Reino Unido, que diminuía a importância da direita e da esquerda e dizia que o mais importante era o ajuste fiscal. Só assim haveria condições de governar. Isso vale também para o Brasil de hoje.

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