Rute Gebler: As múltiplas facetas de uma das maiores expressões da música de SC

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De todas as artes, a música talvez seja a que mais nos torna humanos. Cantar, para Rute Gebler, começa com sentir, muito antes de soltar a voz. É assim que ela consegue despertar memórias e emoção, seja para o público de um estádio de futebol lotado, para um presidente da república, ou para a plateia formada por operários no meio de uma obra.

Rute Gebler – Foto: Flavio Tin/ND

Há pelo menos 65 anos, se contar a vez que aos 11 ela disse à mãe “sabes que eu toco e canto?”, a soprano ensina — verbo tão importante quanto cantar na trajetória da artista — que, de fato, como disse o filósofo Nietzsche, sem a música a vida seria um erro. Sem Rute Gebler, a música em Santa Catarina não seria a mesma.

Expressão máxima da cena erudita no Estado, Rute terá sua vida e obra imortalizada em livro. A biografia “Rute Ferreira Gebler, uma vida em tom maior”, escrita pela jornalista Ana Lavratti, será lançada no dia 3 de dezembro no Museu Histórico de Santa Catarina – Palácio Cruz e Sousa. O evento celebra os 50 anos de carreira como professora de canto, solista e maestrina.

Rute Gebler e a jornalista Ana Lavratti – Foto: Flavio Tin/ND

Para além da trajetória da artista de 77 anos, dos triunfos aos percalços ao longo da carreira, a obra viabilizada pela Lei Rouanet é um registro importante da história musical no Estado.

As 120 páginas trazem imagens inéditas, registros de concertos memoráveis e projetos que colocaram Santa Catarina na rota dos melhores espetáculos do país, como o projeto Vozes da Primavera.

Espetáculo Vozes da Primavera – Foto: Divulgação/ND

Vulcão em perpétua erupção

Para Rute, a biografia é também uma forma de apresentar aos dois filhos e quatro netos a mulher e profissional que é, além de mãe. “Eles vão saber que eu fui realmente uma profissional que tinha uma característica: fiz tudo com amor”, diz.

Para o jornalista e escritor Sérgio da Costa Ramos, Rute é o vulto mais importante da arte musical de Santa Catarina. “Ela é uma usina de iniciativa e de talento. Um vulcão em perpétua erupção.”

“Sabes que eu toco e canto?”

Rute Gebler tem uma voz rara e bastante expressiva. Uma soprano — naipe feminino mais agudo e com mais alcance vocal entre os tipos de voz feminina — lírica e, nas palavras do professor e maestro Carlos Besen, 77 anos, dona de um timbre inconfundível.

“Ela está dentro de um soprano muito versátil. É uma voz mais brilhante, tem maior volume e dinâmica, e além do mais, é uma voz versátil e capaz de cantar mais forte que uma grande orquestra”, explica o professor e regente.

Capa do disco de 1985 – Foto: Divulgação/ND

Como se destinada a se expressar pela voz, a artista descobriu o talento muito naturalmente. Ela nasceu em Pelotas, no Sul do Rio Grande do Sul.

Um dia disse à mãe: “sabes que eu toco e canto?”. “Ah é, minha filha? Mostra para a professora”, respondeu a mãe.

Ao compartilhar essa memória da infância, Rute cantarola a mesma canção que encantou a diretora da escola: “os teus lábios têm o mel que abelha tira da flor… Eu ou pobre, pobre mas é meu teu amor”.

A partir daí começou a cantar em festivais. “Não achei que era algo especial”, lembra. Mas era.

Rute Gebler em ‘Noviça Rebelde’, em 1966 – Foto: Divulgação/ND

Cantou em festivais pelo interior, estudou canto, aos 17 quase desistiu, mas seguiu obediente à mãe (“se chegou até aqui, continua”) e por fim se formou no magistério, em canto e também no Conservatório de Pelotas.

Aos 21 anos já era regente de corais e se apresentava pelo país – ainda nova chegou a ser semifinalista do Concurso Internacional de Canto do Rio de Janeiro. “Mas não tinha consciência ainda que eu cantava. Aquilo em mim saía. A professora e o pianista me davam os toques”, conta.

Conheceu o marido também graças à música: o rapaz, então estudante de Agronomia, foi procurá-la para criar um coral. Namoraram, noivaram e alguns anos depois Erico Gebler foi transferido para Florianópolis. Na Capital, Rute construiu a própria história.

Mestre e professora

Para a autora do livro, Ana Lavratti, uma das facetas importantes de Rute Gebler que a biografia evidencia é a da professora. “As pessoas não têm a dimensão da Rute educadora”, afirma.

Ela trabalhou a voz de milhares de cantores ao longo de 50 anos, formou uma infinidade de talentos.

Tão logo chegou a Florianópolis, começou a trabalhar no Colégio Coração de Jesus (hoje Bom Jesus), onde atuou por 17 anos.

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Mais tarde, trabalhou como professora na Udesc (Universidade do Estado de Santa Catarina), nas faculdades de Educação Artística e Artes Cênicas. Por 10 anos, foi também regente da Associação Coral de Florianópolis e, a partir de 1991 abriu sua escola própria, o Estúdio Vozes.

Tantas décadas dedicadas à arte lhe renderam honrarias e premiações, como as outorgas de Cidadã Honorária de Florianópolis, Cidadã Honorária Catarinense e Comendadora da Sociedade Brasileira de Artes, Cultura e Ensino, entre outras.

“Ela foi uma professora que não era apenas professora, mas amiga, incentivadora. Fazia das aulas genuínos palcos, onde os alunos passavam a ser atores musicais e não espectadores. Deu oportunidades de uma forma generosa. Em torno dela, muitos se tornaram grandes cantores no Estado”, diz Carlos Besen.

Professor, regente, compositor e arranjador, Besen também dedicou a vida à educação musical e realizou diversos projetos junto à Rute em Santa Catarina.

O cantor Alírio Netto é um exemplo de aluno que passou por Rute e hoje ganhou o mundo. Ele é o atual protagonista da turnê internacional Queen Extravaganza, espetáculo dirigido pelos próprios integrantes da banda inglesa.

Expressão na voz e no corpo

Como solista e regente, Rute Gebler emocionou plateias mundo afora graças à habilidade de transitar com maestria entre o canto erudito e o popular, sempre respeitando ao máximo um propósito maior: o sentimento.

“O que sinto ao cantar? Prazer. Minha coisa é assim: é cantar pra ti e tu sentir o que eu estou sentindo. Nunca cantei a Ave Maria por dizer Ave Maria. Sempre senti muito por dentro, para que vocês também sintam a minha emoção”, diz.

Apresentou-se como artista em quatro países, em 13 estados do Brasil e em 41 cidades catarinenses, incluindo participações especiais na abertura dos Jogos Abertos (como solista do Hino Nacional Brasileiro com quatro bandas sinfônicas) e junto à célebre Orquestra Sinfônica de Porto Alegre em vários concertos.

Cantou sob a regência de maestros como Isaac Karabtchevsky, cantou na TV e também para o rádio.

Certa vez, após uma apresentação na Alemanha, músicos foram perguntar: “como consegue ser assim, tão solta?”. Uma verdade musical pautada no sentimento genuíno.

É claro que respeitava as posturas ao interpretar óperas e canções clássicas de Mozart ou outros compositores românticos, restringindo a emoção à voz e aos olhos. Mas também nunca hesitou em se experimentar na expressão do corpo, como no espetáculo criado a partir da obra Estrela é Lua Nova, de Heitor Villa-Lobos, exemplo de música clássica brasileira.

“Cantei muita música com influência afro-brasileira. Eu cantava balançando. O coro todo se movimentava. Com música brasileira eu me soltava, eu sentia isso. Uma vez eu fui criticada, diziam que a minha postura não era de cantora erudita. Demorou pouco tempo e todas as cantoras se soltaram”, lembra.

A história como solista e maestrina está intimamente ligada ao período que atuou como regente da Associação Coral de Florianópolis, um dos grupos de canto coral mais antigos da cidade. Foram dez anos de história, shows memoráveis e turnês pelo Brasil.

O livro traz imagens dessa história. Uma época de ouro na cena erudita do Estado. Ironicamente, deixou a regência do coral porque descobriu um problema de audição. Uma otosclerose que se manifestou.

“E minha audição ficou assim: se um cantor cantava lá, eu não sabia da onde vinha. Não podia continuar regendo assim. Para cantar não me atrapalha”, conta.

Vozes da Primavera

Em 1991, Rute Gebler criou a escola Estúdio Vozes e, entre 1995 e 2005, esteve à frente do Vozes da Primavera, projeto musical que foi um divisor de águas nas produções artísticas da cidade.

Os espetáculos anuais combinavam movimentação cênica e dança à interpretação vocal de peças consagradas, como A Nona Sinfonia, de Beethoven; Réquiem, de Mozart; e Carmina Burana, de Carl Orff.

“O Vozes da Primavera marcou o apogeu da arte musical em Santa Catarina, nos proporcionou momentos de peças musicais como A Viúva Alegre, A Flauta Mágica, Madame Butterfly… Ela montou uma Broadway aqui. É lembrado como uma iniciativa que nos faz muita falta”, diz o escritor Sérgio da Costa Ramos.

Rute Gebler em Madame Butterfly, em 1996 – Foto: Divulgação/ND

Em 2018, Rute realizou o último grande espetáculo, Encontros ImProváveis. Há três anos vem dedicando-se à produção de sua biografia. Segue com a sala do apartamento onde mora sozinha (é viúva há 18 anos), no Centro da cidade, aberta para ensaios.

“Eu tenho 77 anos, sei que não cantarei eternamente, mas sempre vou cantarolar. Não tenho som em casa. Quando quero, eu canto. Canto qualquer coisa, sai de dentro. A música vive dentro de mim. E de vez em quando, sai. De repente”, brinca.

Para Carlos Besen, amigo querido de tantas décadas, o sentimento é de gratidão inestimável por tudo que ela fez em prol da música, dos músicos e da arte catarinense.

“Professora ou cantora? Maestrina ou diretora? Tudo isso e mais: uma mulher instigante, que é incansável não apenas na realização de seus sonhos. Mas com ela tantos outros partilham de sua utopia: ‘viver e não ter a vergonha de ser feliz. Cantar e cantar e cantar a beleza de ser um eterno aprendiz…’”

Agende-se

Lançamento do livro Rute Ferreira Gebler, uma vida em tom maior, de Ana Lavratti
Quando: terça-feira (3), às 18h
Onde: Sala Martinho de Haro do Museu Histórico de Santa Catarina – Palácio Cruz e Sousa (Praça XV de novembro, 227, Centro – Florianópolis)
Quanto: gratuita

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