Shaper Rodrigo Silva garante profissionalismo na arte de fabricar pranchas

Disciplinado, organizado e focado. Três características que podem explicar o sucesso do shaper Rodrigo Silva, 39 anos, no restrito e concorrido mercado de fabricação de pranchas. Vencedor por duas vezes do concurso Master of Shape, o catarinense comanda a SRS Surfboard, fábrica que soube se profissionalizar e se adaptar às mudanças do mercado, obtendo reconhecimento de surfistas profissionais, fornecedores, clientes e marcas estrangeiras.   

Rodrigo Silva, 39 anos, é shaper e proprietário da SRS Surfboards - Foto: Marco Santiago/ND
Rodrigo Silva, 39 anos, é shaper e proprietário da SRS Surfboards – Foto: Marco Santiago/ND

A história de Rodrigo Silva começa na Armação, Sul da Ilha. Segundo de quatro filhos do casal Waldir e Ivinia, o pequeno Digo foi no embalo do irmão mais velho, Marcelo, e aos 11 anos pegou as primeiras ondas na praia do Matadeiro. “Meu irmão sempre jogou bola muito bem, mas eu era um perna de pau. Então, me encontrei no surfe e passei a me dedicar 100%. Tudo que fazia, eu pensava em onda”, lembra Silva, que rabiscava as ondas até no caderno da escola.

Fisgado pelo novo esporte, Silva disputou as primeiras competições locais no Matadeiro em 1994, com relativo destaque, até ganhar o incentivo do ex-presidente da associação de surfe local, Renato Mello, para disputar o circuito catarinense. O sonho de se tornar surfista profissional durou até o final de 1996, mas Silva já dava os primeiros passos na arte de modelar pranchas fazendo consertos para levantar dinheiro para as inscrições nos campeonatos. “Em 1995, achei um toco velho no lixo com a rabeta (parte traseira da prancha) quebrada. Refiz, mas ficou pequena e nem consegui surfar com ela”, conta.

No início de 1996, Silva ganhou um bloco de prancha como premiação após vencer um campeonato na Praia Brava e decidiu fazer a primeira prancha, aproveitando os equipamentos do patrocinador, Claudio Cardoso, o Pig da Brava. “Ele laminava, mas não shapeava, e os shapers dele estavam muito ocupados pois era verão. Era a hora de fazer minha prancha e o resultado foi bacana, porque depois disputei uma final do Catarinense usando essa prancha e peguei gosto pelo trabalho”, recorda.

Nos anos seguintes, na base do instinto, Silva experimentou, tentou replicar pranchas e recebeu encomendas de amigos próximos, mas se deparou com um obstáculo: a falta de informação. “Era uma troço engraçado até porque nenhum shaper abria as portas da sala de shape para passar dicas. A ideia era de que ia se criar um concorrente”. 

Até que, em 1999, Silva teve a oportunidade de conhecer o shaper carioca Eduardo Crivella, que veio a Florianópolis para fabricar umas pranchas.  “Foi o cara que me abriu as portas e um divisor de águas da minha vida, pois a maneira como ele trabalhava foi uma evolução absurda”, define Silva, que nunca mais teve a chance de encontrar o mestre e shaper carioca para agradecer os ensinamentos recebidos.

Evolução profissional foi conquistada na Europa

Ainda em 1999, com 19 anos, Rodrigo Silva estava decidido a viver da sua paixão, o surfe, mais precisamente da fabricação de pranchas. Para isso, já havia se emancipado para ter direito a abrir a própria empresa antes da maioridade. Juntou dinheiro e pretendia viajar para a Califórnia e Havaí, mas não obteve o visto de entrada nos Estados Unidos. Com o dinheiro guardado, mudou o destino para a Europa.

A ideia era surfar e conhecer as fábricas europeias instaladas na região da Espanha conhecida como País Basco. Na cidade de Sopelana, Silva deixou de lado a busca pelas ondas em picos famosos como Mundaka e focou no trabalho. “Eu era muito novo e chegando lá achei que seria complicado conseguir um trabalho de shaper, mas fiz um teste e o dono da fábrica gostou”, diz Silva, que modelou 188 pranchas no primeiro ano e ainda hoje tem guardadas as folhas com as anotações das medidas de cada prancha modelada. 

Depois da primeira temporada, Silva retornou à Sopelana nos oito anos seguintes para modelar 300 pranchas durante dois meses, período em que morou literalmente ao lado da fábrica, em um quartinho, trabalhando em média 14 horas por dia, com direito a apenas três folgas. “Nenhuma prancha a mais, nenhuma a menos, e o dono da fábrica ficava louco comigo. Era meio militar”, relembra.

Mas tanto esforço foi recompensado pelo mercado, com a valorização do trabalho de shaper, agregando valor às pranchas produzidas no Brasil. “Comecei a subir o preço das minhas pranchas com a experiência que tive por lá e passei a ter mais tempo para desenvolver os designs”, resume Silva, que também começava a pensar a desenvolver uma máquina de produção de shapes em 2004.

Silva obteve licença para comercializar marcas estrangeiras no Brasil - Foto: Marco Santiago/ND
Silva obteve licença para comercializar marcas estrangeiras no Brasil – Foto: Marco Santiago/ND

Máquina garante padrão industrial ao produto

Originalmente artesanal, o processo de fabricação de pranchas se tornou industrial graças à introdução das máquinas de shapes no início do século XXI. Dotadas de programas de computador específicos (softwares), elas permitem a reprodução customizada de qualquer modelo de prancha existente do mercado.

Descontente com os equipamentos existentes no mercado, Silva começou a pensar em fabricar a própria máquina. Após conversar com um amigo professor do então Cefet (Centro Federal de Educação Tecnológica), atual IFSC (Instituto Federal de Santa Catarina), Silva foi apresentado para o pessoal da área de automação e desenvolveu o projeto. “Estava tão envolvido que vendi carro e tudo que eu tinha para fazer essa máquina”.

A máquina vai completar 15 anos e, desde então, garante maior precisão para o shape, como é chamado o bloco de poliuretano esculpido que serve de base para a fabricação da prancha. Ao contrário do equipamento antigo disponível no mercado, a máquina desenvolvida por Silva tem duas funcionalidades que oferecem um ganho no processo de fabricação: arredonda as bordas e retira a longarina (peça de madeira que funciona como viga para garantir resistência e uniformidade à prancha).

“A minha máquina tem uma precisão maior e me deixa 85% do shape, enquanto a outra deixava apenas 60%”, compara Silva, em linhas gerais. Com a máquina e um processo industrial avançado, Silva se preparou para enfrentar outra fase do mercado de fabricação de pranchas: a abertura para as marcas estrangeiras.

Shaper conquista marcas estrangeiras

Com um processo industrial estabelecido, além de desenvolver a própria marca no mercado, Rodrigo Silva obteve a licença para fabricar e comercializar pranchas de marcas da Austrália e Estados Unidos. Para isso, Silva teve que mudar um conceito nacionalista. “Como empresário, é preciso estar aberto às mudanças. Tive que mudar aquela visão que eu tinha lá atrás por uma questão de sobrevivência no mercado”, ressalta.

A primeira marca foi conquistada após vários contatos por e-mail, em 2011. Sediada na Austrália, a Emery Surfboards patrocinava o surfista Adam Melling, integrante da elite do surfe mundial. “Eles tinham um conceito bacana, de prancha performance, muito parecido com o que eu fazia”, destaca.

Depois veio a JR, do shaper Jason Rodd, baseado na Gold Coast, Austrália, e por fim, em 2014, a Channel Islands, do renomado shaper da Califórnia, Al Merrick, através do gaúcho Christian Juchem, detentor da licença da marca no Brasil. “Na época, o Al Merrick precisava de uma estrutura para produção e principalmente de um shaper que atendesse a qualidade dos produtos que eles exigiam. Por enquanto, o pessoal está bem contente”, assinala.

Até então, nenhum atleta brasileiro encomendava uma prancha da Channel Islands no Brasil. “Atualmente, boa parte das pranchas do Adriano de Souza (campeão mundial 2015) são feitas aqui comigo. Somos referência mundial como licenciado”, informa Silva, que participa de todos os meetings promovidos pela Channel Islands.

 Relação com surfistas é essencial

Tão importante quanto os aspectos industriais, o relacionamento entre shaper e surfista é essencial para a sobrevivência da marca no mercado.  Por isso, desde o início, a SRS sempre esteve ligada a vários atletas, seja como desenvolvedor de equipamento ou apoiador.

Atualmente, a SRS conta com duas equipes.  Adriano de Souza, Yuri Gonçalves, Alejo Muniz, Petterson Thomaz, Beto Mariano e Fernando Fanta fazem parte do time A e têm todo o quiver (conjunto de pranchas) produzido por Rodrigo.  O time B conta com jovens talentos como Kiany Hyakutaki, Alcides Lopes, Ryan Campos, Moa Soares, Igor Foerster e David Cunha, e têm o apoio da SRS com o fornecimento do material a preço de custo.

Campeão mundial 2015, Adriano de Souza se juntou ao time depois que Silva passou a fabricar as pranchas de Al Merrick no Brasil. O surfista paulista radicado em Florianópolis se mostrou interessado no trabalho de Silva no dia que os americanos enviaram para Silva uma arte do logotipo da marca com a bandeira do Brasil. “As primeiras pranchas que o Adriano apareceu no Rio de Janeiro com a bandeira do Brasil foram produzidas por nós”, relata Silva, que teve papel importante no título conquistado pelo paulista em 2015.

Na próxima semana, o shaper se prepara para lançar um modelo de prancha especialmente concebido para o catarinense Alejo Muniz. O surfista de Bombinhas, que já integrou a elite do surfe mundial, vai disputar mais uma temporada do World Qualifying Series, o circuito da divisão de acesso à elite, com as pranchas de Silva.

Empresa tocada com estilo familiar

Boa parte da trajetória de Rodrigo Silva no mercado só foi possível graças ao trabalho de união da família. O pai Waldir, a esposa Fabiana, e os irmãos Marcelo e Eduardo também integram o grupo de 11 colaboradores da empresa que nasceu na Armação e desde dezembro de 2014 está sediada em um galpão de 580 metros quadrados, as margens da rodovia SC-405, no Campeche.

O apoio familiar foi conquistado aos poucos. Quando largou o Ensino Médio aos 17 anos para se dedicar ao trabalho de shaper, Silva contou com a compreensão dos pais. “Inicialmente, eles ficaram um pouco chateados, pois queriam que eu fizesse faculdade, mas entenderam que era o que eu queria”, afirma o shaper.

A família também foi essencial quando Silva precisou dar um passo à frente e mudar a sede da empresa, da Armação para o Campeche, pois o antigo local já não comportava a produção de 130 pranchas por mês. Após encontrar um galpão e buscar orçamentos, Silva decidiu aprender a instalar gesso cartonado através da internet. “A gente brincava que, se não desse certo a fábrica, já teríamos outra profissão”, lembra.

Ele, o pai Waldir e os irmãos Marcelo e Eduardo colocaram a mão na massa e em quatro meses conseguiram adaptar o atual local de trabalho, que conta com duas salas de shape, duas salas de laminação, estoque, showroom, além de escritório.  Aliás, é no segundo andar que a empresa é administrada pela esposa Fabiana.  “Ela é meu braço direito e minha sócia em tudo que faço. Por mim, eu só ficava na sala de shape”, completa Silva.

 Com uma rotina diária que começa cedo, às 7h na sala de shape e depois se estende pelo escritório, Silva também conta com auxílio dos sogros para cuidar do filho de sete anos, e atingir a meta de surfar 100 dias por ano, de preferência no Matadeiro. Esse ano, Silva já surfou cinco dias apesar do mar quase sem ondas. Sinal de que é possível fazer o que se gosta e ainda curtir a vida.  “O tempo está mostrando que dá para viver legal de fazer pranchas. Não dá para ficar rico, mas dá para viver confortavelmente. Eu nunca fiz por dinheiro e sempre fiz por amor”.

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