Trabalhos manuais das vovós ressurgem repaginados por jovens empreendedoras

Atualizado

Imagine um lugar charmoso e simpático, onde as mulheres vão para trocar ideias, contatos e experiências, tomar um café com bolo e ainda adquirir roupas de extrema qualidade, com design moderno e que propiciam conforto.

Este é o ateliê da marca Fruto Tropical, localizado no bairro Córrego Grande, de Geisa Mariana Saturnino Wendhausen, de 43 anos. “Aqui é um espaço de conexão, no qual minhas clientes e amigas se sentem bem e sempre voltam”, revela com um sorriso de quem ama o que faz.

Criada em uma família de pessoas dedicadas ao vestuário, ela transformou o que inicialmente era hobby em profissão e criou sua própria marca | Foto Anderson Coelho/ND

Geisa conta que aprendeu a fazer trabalhos manuais na Escola Américo Vespúcio Prates, em Barreiros, nas antigas aulas de IPT (Iniciação Para Trabalhos). Mas foi no convívio da família que viu brotar o que seria no futuro a sua profissão.

Máquina de costura, presente tradicional

Enquanto a mãe fazia blusas de tricô para complementar a renda da família, a avó, que tinha uma máquina de costura. Este era um presente que se ganhava tradicionalmente no enxoval de casamento da época, consertava as roupas e as peças de cama de toda a família.

Saudosa, Geisa recorda um ditado da matriarca: “a roupa se rasga, é só colocar um pano que dura mais um ano”. Apesar das influências femininas, foi o avô por parte de pai que mais impactou o destino de Geisa nas suas criações de corte e costura.

Herondino Saturnino dedicou toda a vida à alfaiataria. Conhecido por muitos, trabalhou durante décadas em um espaço localizado em cima da Quibelândia, no centro da Capital.

Entretanto, quando Geisa foi contar para ele que se dedicaria profissionalmente à criação de roupas infantis, o alfaiate a alertou: “minha filha, em tempos de produtos chineses produzidos em grande escala e a baixo custo, você realmente tem muita coragem em empreender nesse ramo”.

Empreendedorismo materno

Para Geisa, a ideia de criar roupas confortáveis e com 100% de algodão surgiu de uma necessidade no dia a dia. A partir do nascimento de seu filho Arthur, há 13 anos, começou a costurar para ele e seu marido peças como pijamas, cuecas e shorts.

E foi assim que, durante os primeiros anos de vida do filho, ela começou a confeccionar as roupas para a família. Depois estendeu para amigos.

Em 2011 decidiu abrir uma pequena loja. Incentivada pelo marido, em 2017, já com a marca Fruto Tropical consolidada no mercado, Geisa decidiu ampliar o seu negócio.

Ela explica que o nome da loja remete à brasilidade genuína, aquela repleta de cores alegres, de frutas, folhas e flores do nosso país tropical. Para seguir essa proposta, a criadora busca nas melhores marcas de tecido, como a Renaux View, de Brusque, manter essa estética brasileira.

Sua loja também abriu as portas para roupas de marcas independentes de Santa Catarina e que, principalmente, tenham o mesmo estilo de peças da sua marca.

“Sinto-me realizada ao ver que hoje a Fruto Tropical tornou-se um ponto de referência na ilha, como um lugar onde as mulheres vem comprar roupas confortáveis, bonitas e com muito estilo para elas e sua família”, afirma a empresária.

Bárbara, arquiteta por formação, redescobriu o crochê em um momento de dificuldade, e não parou mais de praticar | Foto Anderson Coelho/ND

“Não é coisa de vovózinha”

Bárbara Palermo Szücs, 40 anos, arquiteta de formação, aprendeu os primeiros pontos com a mãe, aos 7 anos – a técnica do crochê filé. Mas durante muitos anos, as agulhas e linhas ficaram guardadas em uma caixa junto com o seu material de costura e bordado, sem serem tocadas.

Até que em 2003, na semana da sua formatura em arquitetura, houve um apagão de três dias em Florianópolis, e Bárbara voltou a praticar o crochê.

“Foram três longos dias sem luz, sem elevador, sem televisão, sem computador nem celular, e como eu morava sozinha, lembrei-me de uma agulha e um novelo de linha guardados e aproveitei meus momentos à luz de velas, ao lado de minha cachorrinha, com o crochê”, conta.

Desde então, não parou mais de praticar. De início, foi adaptando instintivamente os pontos que sabia para criar novas tramas e aplicar outros materiais.

Entretanto, foi por volta de 2008 que começou a se interessar pelo mundo craft da internet pré-Facebook. Pesquisava em blogs de crochê de artesãs europeias, cujo trabalho tinha uma estética diferente, repaginada e que a inspirava muito.

“Nessa época, eu usava o crochê como relaxamento e, às vezes, entrava madrugada adentro tecendo. Mesmo tendo de acordar cedo no dia seguinte, essa prática tornou-se uma válvula de escape”, reflete Bárbara.

Após 10 anos trabalhando com arquitetura, em uma crise profissional ela começou a decorar festas infantis e então passou a inserir suas peças de crochê na decoração. Mas para ela, foi apenas em 2016 que aconteceu o ponto de virada da sua relação com o crochê.

Foi quando Bárbara, por meio de suas amigas, descobriu o fio feito de tiras de malha, reaproveitando resíduos da indústria de malharia, que necessitava de agulhas supergrossas e permitiam que criasse maxi-peças. Daí para a frente, todo um novo mundo se abriu.

Nas redes sociais, a arquiteta-artesã encontrou muitos grupos sobre o tema, com outras artesãs brasileiras que produziam e discutiam sobre o crochê e o artesanato renovado.

“Até então, eu era a amiga diferente que gostava dessas coisas de vovózinha, mas finalmente comecei a conhecer outras pessoas jovens como eu, para as quais o crochê também não era mais uma atividade da terceira idade”, lembra.

A descoberta de novas técnicas

O livro “Crochê Moderno” também se transformou em fonte de inspiração para Bárbara. Nele ficou conhecendo técnicas novas para fazer cestos, objetos de decoração e, principalmente, uma técnica em que se trabalha o crochê com o fio conduzido, possibilitando um resultado com várias cores ao mesmo tempo e que permite criar estampas.

“Em 2018, passei por um problema de saúde, tive de fazer três cirurgias ao longo do ano, e o crochê me acompanhou durante o repouso”, lembra.

“No fim de 2018, a autora do livro “Crochê Moderno”, uma artesã finlandesa de 40 anos, veio ao Brasil dar oficinas em algumas cidades. Pela primeira vez na vida eu me vi fazendo aulas de crochê, senti-me pertencente a esse meio, com gente vinda de tão longe e outras daqui do meu lado com os mesmos interesses”, relata.

Há pouco mais de um ano, Bárbara decidiu criar sua própria marca, a BabiPS|Crocheteando, com loja virtual e perfil nas redes sociais.

A artesã revela que não consegue se prender a apenas uma técnica, ou a um tipo de peça. Ela faz produtos, mas o que mais gosta de fazer são peças em fio conduzido, a técnica que aplica em almofadas, bolsinhas, estojos e mantas.

Bárbara já montou oficinas de fio conduzido e planeja ministrar outras ainda neste ano. “O artesanato sempre foi visto como uma atividade que as pessoas fazem no seu tempo livre, ou depois de se aposentar, e por isso mesmo muitas foram as técnicas que se perderam ao longo dos anos, justamente pelo fato de o artesanato ter esse estigma de se tratar de produtos de baixa qualidade, ou feitos sem muita especialização, feitos em casa ou vendidos na banquinha da esquina”, ressalta.

A boa notícia é que atualmente existe todo um movimento de empoderamento do artesanato e muita discussão para valorizar essa arte e técnica de trabalho manual, a começar pelas próprias artesãs.

Neste ano, Babi, como é conhecida, participou pela primeira vez da Feira Mega Artesanal, em São Paulo, evento de uma semana que movimenta todo o mercado do fazer manual, com estandes de insumos, ferramentas e cursos.

“Foi surreal ver todo aqueles que sigo no Instagram desfilando ao vivo na minha frente, todos os perfis cujas postagens sigo diariamente e os stories ao vivo e em cores, em talks sobre empreendedorismo, ministrando oficinas nos diversos estandes das grandes marcas de fios”.

A tendência é que esse tipo de evento cresça cada vez mais e aumente a força dessa comunidade, que não apenas troca informações e conhecimento como também oportunidades de negócios.

“Em épocas em que tudo é digital, o ato se ter uma agulha nas mãos e a linha passando por entre os dedos nos traz de volta à realidade, à contagem de pontos, à atenção plena naquela atividade”.

Alice Constante Schulter deixou a fonoaudiologia e hoje se lança na internet dedicada a descobrir novas técnicas e materiais | Anderson Coelho/Divulgação/ND

Novos rumos na profissão

Alice Silveira Constante Schulter, de 36 anos, é formada em fonoaudiologia, mas deixou de atuar na área quando o seu filho Otto nasceu, há 1 ano e meio.

Ela aprendeu a fazer crochê e tricô ainda criança com a mãe. Ela conta que, durante a infância, a mãe tinha revistas com “receitas” e que a partir delas as duas faziam barras em toalhas, trilhos de mesa, além de costurar roupas para ela e seu irmão.

Hoje, são infinitas as técnicas disponíveis na internet, e tudo ficou mais moderno e acessível. Durante a vida toda, Alice sempre foi daquelas pessoas de colocar a mão na massa nas festas de família, fez os convites do seu casamento e a decoração do chá de fraldas do filho Otto.

Também foi para a festa de um ano dele que ela fez os seus primeiros cachepôs para colocar na decoração. E desde então o hobby tem se encaminhando para se tornar o seu trabalho principal e, de modo a poder conciliar esse trabalho com a maternidade, os seus principais produtos são gorros, golas em tricô e cestos de brinquedos e cachepôs em crochê de fio de malha.

“Confesso que o crochê tem ganhado meu coração, e tenho planos de começar a dar aulas sobre isso, pois percebo que essa tendência de moda consciente, do “compre de quem faz” tem influenciado muito nesse retorno do fazer com as mãos”, pontua.

Para ela, o trabalho feito à mão foi uma forma terapêutica de encontrar a mulher que existia nela após o nascimento de seu filho.

“É um encontro comigo mesma, desperta a minha criatividade e a minha sensibilidade, eu acho lindo esse movimento do retorno ao trabalho manual, e é muito prazeroso você usar uma peça que foi você mesma que fez”, destaca a mãe do pequeno Otto.

A design Tatiana de Oliveira sonha com o dia em que os produtos artesanais serão tão valorizados quanto os industriais | Divulgação/ND

Primeiros pontos

Tatiana da Rosa Lucas de Oliveira, 45 anos, formada em design industrial pela Udesc, fez seu primeiro trabalho à mão aos sete anos. Ela estava na casa da sua avó em uma tarde chuvosa. E para entreter a neta, ensinou-a os primeiros pontos de crochê. Desde então, Tatiana não parou mais.

“Depois do crochê, vieram o tricô, a costura, a pintura em tecido, o bordado, e todo tipo de trabalho manual passou a despertar o meu interesse”, revela.

Durante muitos anos, ela aprendeu diversas técnicas com a avó, que sempre fez do artesanato uma forma de completar a renda familiar. A mãe de Tatiana também é da área e durante décadas teve uma confecção de roupas.

“Aproveitando os ensinamentos das mulheres da minha família, completei o meu conhecimento com cursos e lendo muitas revistas. De forma autodidata, aprendi a criar meus próprios moldes e experimentar novos materiais”, explica a artesã.

De lá para cá, segundo ela, muita coisa mudou, desde as técnicas que se modernizaram até os materiais que estão sempre em evolução para facilitar o processo de criação.

A revolução tecnológica que estamos vivendo também contribuiu para que ela encontrasse diferentes materiais, assim como ajuda na comercialização e na divulgação do seu trabalho artesanal com muita agilidade e menor custo.

“A Faculdade de Design também me ajudou a ver o produto artesanal de forma diferente. Hoje, quando crio uma peça, não me limito à estética, penso no processo, em quem vai usar, em fatores de segurança e manutenção do produto”, acrescenta.

Tatiana sempre foi empreendedora e desde o início fez do artesanato um complemento de renda. Mas foi quando o filho nasceu, há 13 anos, que ela encontrou um nicho de mercado.

“Eu não achava muitos produtos descolados para bebês, os padrões, as cores eram praticamente os mesmos, por isso acabei fazendo todo o enxoval e a decoração do quarto personalizados, e então comecei a fazer para outras mães”.

Dois anos depois, em 2008, criou a marca Tutitati nos fundos da casa, para que pudesse acompanhar o crescimento do filho. Começou com poucas peças, vendendo pela internet e em pequenos bazares e, à medida que o filho crescia, a Tutitati crescia também.

Tatiana passou a vender em feiras maiores e até para fora do país. Os principais produtos hoje são as camisetas para brincar, os toys de monstrinhos e personalidades, as bonecas, os slings para bonecas e dedoches (fantoches de dedo).

Além disso, ministra oficinas criativas para adultos, crianças e adolescentes no seu ateliê, em outros espaços e em eventos.

Tatiana faz tudo sozinha, desde o processo de criação e desenvolvimento das peças, que envolve a compra de materiais e testes, até a divulgação e comercialização dos produtos.

Hoje, vende pelo seu site na internet, no seu ateliê e em algumas lojas, além de dar aulas presenciais e on-line com bastante frequência.

“Eu acho fabuloso observar cada vez mais pessoas de todas as idades e gênero se interessando pelo produto feito à mão. Acho esse resgate importante em meio a tantos produtos industrializados, um movimento que traz uma visão mais livre e inovadora de técnicas antigas”.

“A modernização do artesanato com novos usos, novas maneiras de fazer, é enriquecedora criativamente e, sem dúvida, aumenta a valorização do produto artesanal”, destaca. Ela critica a cultura que ainda existe no Brasil, de se valorizar muito o produto industrial e pouco qualquer serviço manual.

Segundo ela, as pessoas estão acostumadas a pagar um valor exorbitante por um produto vendido em determinada loja de marca, muitas vezes fabricado em condições duvidosas, e acham caro o produto artesanal da feirinha do bairro.

“Mas já vejo uma mudança considerável relacionada ao artesanato, pois as pessoas estão querendo saber cada vez mais quem fez e como são feitos os produtos adquiridos, seja um item decorativo, brinquedo, roupas ou alimentos, e isso é muito valioso em termos de sociedade”, enfatiza Tatiana.

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