Vida de Carlinhos Brown, o “cacique do bairro Candeal”, vai virar seriado

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Inabalável é a empatia que seu grito de saudação “Ajayô” causa por onde o cantor Carlinhos Brown passa. Em talk show há 10 dias, durante congresso para dois mil corretores de seguros promovido pela seguradora MAG, a Mongeral Aegon, no Rio de Janeiro, o multi-instrumentista e ativista de projetos sociais e educação brasileiro recebeu muitos aplausos.

Um dos seus projetos sociais para instalação de cisternas no seu bairro, o Candeal, em Salvador, na Bahia, originou a música “Água Mineral”, muito cantada no Carnaval. Desde que se tornou conhecido, ele dedica grande parte da vida aos projetos sociais e de educação.

“A vida e a organização social são do mesmo jeito. Acho que tem um jeito para a empatia: abraçar mais, sorrir mais e, claro, compreender a dor do outro. Se alguém quiser fazer um exercício, resolva dormir na rua ou passar da hora do almoço. Passe três horas da hora do almoço e você vai mais ou menos compreender a fome.  Talvez a gente possa compreender algumas dores. São essas dores que fazem com que os favelados e os negros tenham resiliência e uma capacidade de sair de crises muito mais rápido”.

Conhecido como o “Cacique” no bairro do Candeal, em Salvador, onde nasceu e cresceu, tem orgulho de falar que seu bairro tem índice de violência zero. Lá, Brown mantém o projeto Associação Educacional Pracatum e o estúdio musical Candyall Guetho Square.

Sem poesia, Brasil perde geração de compositores

Em relação à música popular brasileira, disse que o país está vivendo o contexto histórico do jingle. Segundo ele, sem poesia, o Brasil pode perder uma geração de compositores que colocam a sua poesia nas letras, mas não têm como gravar.

“Nós estamos no contexto histórico do jingle, onde as pessoas se apoderaram muito da questão rítmica para dar um discurso muitas vezes ‘sensualóide’. Não estou criticando ninguém, mas há que se tomar um cuidado ou esperar um momento que essas coisas amadureçam. Agora, nós não temos que ser contra o movimento funk porque ele precisa amadurecer sobretudo na questão da literatura”, avaliou.

Brown apontou Mister Catra como uma exceção. “Ele era um grande intelectual, que fazia funk e sabia o que estava dizendo. Não adianta eu apenas utilizar as palavras chaves e construir uma música porque é fácil: o ritmo está pronto e a ideia de arranjo está pronta. Toda a mensagem precisa realmente um pouco ser sentida, não basta apenas técnica. Nós não podemos lançar mão da base. Só assim a gente vai melhorar todas as cadências estéticas e musicais”, observou.

Seriado em streaming inicia com história do tataravô jurista

Nos tempos do Império, o jurista baiano Augusto Teixeira de Freitas, nascido em 1816, redige o esboço do Código Civil Brasileiro. O fato será uma das cenas de uma produção internacional sobre a história de vida do cantor Carlinhos Brown. “Estou organizando, agora, com Hollywood um seriado sobre a minha vida, em 12 capítulos, e quero muito que comece com essa história de Augusto Teixeira de Freitas, meu tataravô”, disse.

“Estou tentando buscar e entender como o meu tataravô (Augusto Teixeira de Freitas ) escreve o esboço do Código Civil do Brasil, foi um dos maiores advogados do seu tempo e um dos criadores da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), e sua família perde a cadência e vai para a linha da pobreza”, indagou.

O menino Antônio Carlos Santos de Freitas e família no bairro do Candeal, em Salvador (BA), onde o artista se criou – Foto: Divulgação/ND

Parece até que a ancestralidade influenciou os seus descendentes. Dono de uma oralidade ímpar, Brown terá sua trajetória musical retratada desde a infância na Bahia. Sua mãe era lavadeira e foi aos 12 anos que o menino Antônio Carlos Santos de Freitas comeu pão pela primeira vez.

“E não tem nenhuma tristeza nisso, era o momento social da época, eu comi pão aos doze anos. A gente não comia semolina, a gente comia inhame, batata, banana, jaca. Essas coisas eram plantadas ali. Tinha muita fruta naquela fazenda. E, de repente, minha avó resolveu aprender a fazer pão porque ela fazia um beiju maravilhoso. Eu recebi muito carinho dos meus avós”, revelou.

O projeto internacional está sendo desenvolvido pela produtora brasileira Giros com a americana Wild House. Foi o próprio cantor quem intermediou o acordo. A Wild House produziu antes o projeto sobre samba que Brown gravou com Gloria Estefan.

“Estou falando desse problema

enorme que estamos vivendo,

do homem inseguro com a mulher segura.”

ENTREVISTA COM CARLINHOS BROWN

Em conversa com jornalistas, Brown falou sobre sua carreira, a relação com os avós, ancestralidade, cultura, feminismo e educação

Você enfatizou a importância do propósito na vida dos jovens em sua palestra. 

Esse propósito precisa nascer na criança, sobretudo na transição do adolescente. É uma análise pessoal por lidar nos últimos 40 anos com menores infratores, claro, que nem todos conseguiram se salvar. Há pouco perdi um dos meus melhores alunos, que eu lutei demais, demais, demais. Mas ele vinha de um caminho, de traço familiar, o pai dele já foi um dos maiores traficantes da Bahia, em algum momento ele deixou, deixou e, de repente, ele resolveu seguir a figura do pai mesmo sendo uma pessoa doce. E aconteceu e acontece. Nós não podemos mais perder essa quantidade de pessoas, de adolescentes, de jovens, porque o Brasil está numa escalada de um desejo de moral com o qual não vai existir porque não vai ser pelas armas. As armas estão matando cientista, professor, o governador que poderia mudar aquela situação e o grande arquiteto. Ela está destruindo todos aqueles que têm possibilidade de fazer um mundo mais empático e de fazer com que as pessoas possam sorrir e cuidar mais do outro.

Você também falou sobre a relação entre homens e mulheres e a empatia e a importância de saber se colocar no lugar do outro…

Hoje, o pior de todos é aquele que desrespeita a mulher. Esse é o pior de todos. E não estou falando que está no traço do mau caráter, estou falando desse problema enorme que estamos vivendo, do homem inseguro com a mulher segura. Esse realmente está precisando ter o conhecimento de empatia, saber que o mundo mudou, que nós não somos pertences do outro e que temos sentimentos muito iguais.

Voltando ao caso dos avós. Você, que tem esse programa social importante, a gente vê que às vezes os pais não conseguem dar suporte, como o caso do aluno que você perdeu, no caso dos avós que pudessem acolher, você tem esses exemplos na sua comunidade. Como isso pode criar novamente o sentido de família, não importa do jeito que ela seja, não é uma família padrão, mas que traga esse jovem para a luz?

Geralmente têm uma broma, uma brincadeira na sociedade, um pequeno escárnio, que fala que menino criado por vó é doce. Eu também fui criado por vó. Geralmente, essa pessoa é doce, é muito mais atenta ao meio, ao ambiente em que vive. Só que hoje tem algo diferente aí. Não podemos considerar que os nossos avós são babás dos nossos filhos. Ele tem que curtir o momento dele de avó. Ele não tem mais responsabilidade paterna. Só que  eu sinto em vários lugares que eu vou encontro os avós fazendo o papel de babás ou os avós fazendo o papel do pai e da mãe, que não seria o ideal, é um papel de carinho. O vovô e a vovó é carinho sem compromisso. A gente não pode dar aquele peso de compromisso. Eu acredito que eles podem ensinar muito, mas a partir também que nós tenhamos essa valorização de que “eu não posso ir para a festa, porque eu tenho que cuidar do meu filho”. Não é da responsabilidade da avó dele e nem do avô, porque também eles precisam ir para a festa. É a sua vez de aprender. E quando a gente pensa nisso e abre mão disso, a gente perde o acompanhamento para com o seu filho.

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