Vídeo: Veja a coreografia que arrebatou o Festival de Dança sobre o desastre de Brumadinho

Com lágrimas nos olhos e aplaudidos de pé. Foi assim que a Companhia Jovem de Paraopeba foi recebida pelo público que assistiu a apresentação “Efeito Cascata”, durante a 37º Edição do Festival de Dança em Joinville. O grupo apresentou uma verdadeira homenagem a região de Brumadinho e as vítimas do desastre, que atingiu a cidade em janeiro deste ano.

Mesmo com todas as dificuldades, o grupo composto de 23 bailarinos mostrou um verdadeiro show nos palcos do Centreventos Cau Hansen. Mas por trás de toda essa emoção, se esconde uma verdadeira história de superação, comandada pelo coreógrafo Alan Keller de Figueiredo.

Coreografia homenageou as vítimas do desastre de rompimento da barragem de Brumadinho – Nilson Bastian / Festival de Dança

Do quarto para os palcos de Joinville

A própria história de Alan com a dança é retransmitida através do trabalho realizado no grupo. Os primeiros passos do coreógrafo foram no chão do quarto, na cidade de Paraopeba, há aproximadamente 100 km de Belo Horizonte.

Aos 16 anos, Alan se inscreveu em uma escola de balé em Sete Lagoas, cidade vizinha a Paraopeba. Com a ajuda da mãe e sem o conhecimento do pai, o jovem foi até a escola vestido de Charlie Chaplin, pedir por uma bolsa de estudos na instituição.

“Quando eu cheguei lá, as pessoas me olharam estranho e informaram a diretora da escola que eu estava ali para ela me ver dançar. Quando eu terminei minha apresentação, todos estavam emocionados e com lágrimas nos olhos”, relembra.

Por dois anos, o jovem dançarino ia para a cidade vizinha, escondido do pai, para construir sua história na dança. Para ele, um dos momentos mais marcantes na trajetória como bailarino foi quando ele convidou o pai, dois anos, depois para assistir sua primeira apresentação.

“Para mim foi emocionante estar no palco e ver o meu pai na primeira fileira, com uma lata de cerveja na mão e com os olhos cheios, emocionado por me ver dançar”, conta.

Ensaios aconteceram em quadra de uma escola pública em Paraopeba – Foto: Alan Keller / Arquivo Pessoal

O trabalho voluntário que nasceu de um sonho

A Companhia Jovem de Paraopeba nasceu em 2005 com o objetivo de envolver crianças e adolescentes da região no universo mágico da dança. Totalmente voluntário, mais de 200 jovens já passaram pelo projeto.

Atualmente a companhia conta com 23 bailarinos de diferentes idades que ensaiam cinco vezes por semana na quadra de uma escola pública do município.

Trabalho árduo, bailarinos ensaiam cinco vezes por semana – Foto: Ala Keller / Arquivo Pessoal

Sem uma cobertura adequada e com espaço improvisado, a maioria dos integrantes do grupo trabalha duro para continuar na trajetória da dança. “Muitos deles trabalham como pedreiros, babá, só para continuar dançando. Tem bailarino que viaja três horas só para ensaiar”, explica Alan.

O grupo não conta com nenhuma ajuda do poder público ou privado. Para participar das competições, a Prefeitura de Paraopeba cede um ônibus para o deslocamento dos bailarinos. Já as demais despesas, como figurino e alimentação, são pagas por meio de campanhas de arrecadação.

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Hino Nacional mostra a sensibilidade da tragédia em Brumadinho

Desde 2013, a Companhia Jovem de Paraopeba participa do Festival de Dança de Joinville. Todos os anos, o grupo busca tratar de temas sociais nas coreografias. uma ideia que vem dando resultado. Nos últimos três anos, a companhia foi a campeã na categoria Dança Contemporânea Conjunto Sênior.

Por ser um grupo mineiro, o tema deste ano não poderia ser outro: o desastre da Barragem de Brumadinho, que mudou a paisagem da região do Córrego do Feijão. O rompimento da barragem deixou 200 mortos e cerca de 93 pessoas continuam desaparecidas. Segundo Alan, a sensibilidade com a história foi o que motivou a decisão de montar a coreografia com base no episódio.

Coregrafia foi montada em cinco meses – Nilson Bastian / Festival de Dança

“A maioria das pessoas que vivem na região dependem do rio para a distribuição de água, então ver que em apenas um dia, perdemos mais esse recurso, foi crucial para a decisão de criar uma coreografia que não deixasse essa história cair no esquecimento”, explica Alan.

Ao todo foram cinco meses de pesquisa para que o relato das vítimas ficasse eternizado nos palcos do maior festival de dança do mundo. A trilha que embala a coreografia também um espetáculo à parte. Sérgio Perere, Chico Lobo e Ricardo Gomes foram os responsáveis por criar a versão “mineira” do Hino Nacional Brasileiro.

Uma conquista diante das dificuldades

O envolvimento e a história de superação do grupo ficaram evidentes durante os cinco minutos de apresentação. Aos gritos de “assassino” e “salvem o Rio Paraopeba” a coreografia emocionou quem acompanhava o Festival de Dança de Joinville.

A companhia ficou em primeiro lugar na categoria Danças Contemporâneas durante o último dia da Mostra Competitiva do festival. Para Alan, ganhar em Joinville foi uma conquista diante das dificuldades.

“A gente perde todos os dias por não ter uma estrutura de qualidade para ensaiar. Então ver a repercussão que a nossa coreografia está ganhando é um verdadeiro presente. Mas o mais importante mesmo, é que o grito seja ecoado e as pessoas sejam sensibilizadas com a situação”, conta Alan.

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