Zuvaldo Ribeiro, o compositor filósofo de Florianópolis

A canção chega de mansinho, quase silenciosa, aos lábios de Zuvaldo Ribeiro, compositor e músico de Florianópolis. Na tarde calma de sexta-feira (12), o artista recebe a reportagem do ND bastante acanhado, mas aos poucos vai revelando sua alma musical.

Zuvaldo Ribeiro fez sucesso com canções como “Menininha” e “Apenas Doce” – Anderson Coelho/ND

Reconhecido e premiado em festivais na década de 1980, suas canções chegaram a ter repercussão nacional. Entre as mais famosas estão Som da Gente, Menininha, Facas de ponta, Serpente e Apenas Doce.

Acometido pela diabetes, a quem atribui a dificuldade de tocar e as falhas de memória, Zuvaldo mudou-se há um ano e meio para o Asilo Irmão Joaquim, no Centro da Capital, onde a maioria dos 33 residentes desconhece sua história.

De comportamento reservado, Zuvaldo nasceu em família de músicos, e foi com o avô que aprendeu os primeiros acordes de violão, ainda criança. Foi o suficiente para despertar seu amor pela música. “O começo foi bem desgastante, porque não tinha o incentivo dos meus pais”, revela.

Contrariando o gosto dos pais, por volta dos 19 anos resolveu se dedicar à música de corpo e alma, tocando violão, contrabaixo e bateria, percorrendo bares e bailes da cidade. “Tocamos bastante nos bailes de domingo, em um salão que ficava nos fundos do cinema em São José”, conta.

Mais tarde, começou a escrever suas canções. A inspiração vinha dos Beatles, de quem era fã assumido. Compôs MPB, serenatas, fados e arriscou um pouco no rock. “Mas não dei muito certo no rock, precisava de um bom intérprete, eu gostava mais de compor”, afirma.

Aos poucos, a rua Crispim Mira, onde residia, acabou virando palco de vários músicos da cidade, que vinham aprender com ele novos acordes e participar de rodas de viola. Várias bandas nasceram ali, com a participação de Zuvaldo, como Os Peraltas, Os Mustangs e outras.

Mas foi seu talento para compor letras lindíssimas que chamou a atenção. Chegou a participar de programas de televisão de alcance nacional, em São Paulo, nos anos 1970, e se apresentou no lendário Circo Voador, no Rio
de Janeiro, na década seguinte, durante abertura de um dos primeiros shows do Barão Vermelho.

Escreveu e musicou “Menininha”, canção apresentada em programa da maior emissora de televisão do país, em meados dos anos 1980. A música foi interpretada por vários grupos locais e, segundo o próprio compositor, também tocava nas rádios naquela época.

Zuvaldo Ribeiro parou de tocar há cerca de um ano e meio, por complicações da diabetes – Anderson Coelho/ND

O auge da carreira aconteceu ao vencer o festival de música de São José, com a canção “Som da Gente”. A música virou tema de abertura de um programa de televisão catarinense de mesmo nome e teria emplacado em um LP junto com outras duas canções de sua autoria.

Venceu ainda o prêmio Zininho de Música Popular, nos anos 1980, com a canção “Apenas Doce”, nas categorias letra, música, arranjo e interpretação, consagrando-o como um dos compositores mais respeitados da capital catarinense.

Adepto da vida boêmia, Zuvaldo conta que chegou a se casar, mas a união durou pouco. “Na época eu não pensava muito, me dediquei apenas à música, esqueci do resto”, analisa.

Resgate da obra

Ciente do valor de seu trabalho, Zuvaldo critica as canções atuais. “Hoje, as músicas estão muito ruins, com muito apelo ao sexo. Minhas criações sempre tiveram caráter filosófico, falando do amor, de Deus, com letras que trouxessem alguma mensagem para as pessoas”, diz.

Compositor de sucesso nos anos 1980, Zuvaldo Ribeiro quer recuperar o acervo de sua obra – Anderson Coelho/ND

Os grandes sucessos do compositor foram revividos durante a Mostra de composições Zuvaldo Ribeiro, realizada no Teatro da Ubro, em outubro de 2012, produzida pelo Grupo Capuchom. Na ocasião, ele tocou várias de suas
criações.

No ano passado, foi homenageado durante o sarau de encerramento da exposição “Poeta Zininho, 20 anos de saudade”, na Galeria do Mercado Público de Florianópolis, que contou com a presença da cantora Ivonita Di Cocilio.

Como muitos artistas brasileiros, no entanto, Zuvaldo retrata o descaso com que tratamos nossa cultura. O artista não tem o registro de sua obra. Nenhum LP, CD ou vídeo. Se foram produzidos, ele não se recorda. As letras das mais
de 50 canções que compôs estão em um caderno que ele diz estar guardado em algum lugar do quarto que ocupa no asilo.

E seu trabalho, de tamanha sensibilidade, acaba sendo esquecido. Sem nos preocuparmos com a proteção de acervos como esse, as criações ficam restritas a determinada época e repercutem apenas na memória de quem
viveu e curtiu aquela fase.

Talvez seja hora de refletir sobre a forma como encaramos os raros talentos que surgem de tempos em tempos. Zuvaldo ainda sonha em recuperar essas canções e confessa que mesmo tendo deixado de tocar e escrever há mais
de um ano, pela falta de firmeza nas mãos, ainda compõe “na sua cabeça”. Um pequeno gravador poderia garantir a continuidade de sua produção. Quem sabe?

“Há muito pouco incentivo para a produção musical e acho que fiquei muito tempo na música. Fiquei meio perdido, continuei batalhando, mas sempre só”, afirma. Aos poucos, seus olhos doces se alegram. Ele segura o violão, instrumento que o acompanha por quase 50 anos, e arrisca uma palhinha de “Som da gente”.

Aos jovens que querem seguir a carreira musical, seu conselho é simples: “assegure-se de ter um bom produtor que cuide da sua obra e faça registro da sua produção para que ela não se perca no tempo”.

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