De Helenenheim a Hospital Dona Helena, um século de atenção à saúde

 

Acervo do Hospital Dona Helena/Divulgação/ND

Casa de Saúde em versão já ampliada

Em 1916, Joinville já contava com instituições de saúde e assistenciais consolidadas. O Hospital Municipal já funcionava desde os primeiros tempos de formação da colônia e em 1906 ganhou nova estrutura física. Ao mesmo tempo, o Lar Abdon Baptista, aberto em 1911, acolhia idosos e, posteriormente, crianças. Mas a cidade crescia e, com ela, a necessidade de criar novos espaços para atender a comunidade. Em novembro de 1916, um grupo de mais de 80 senhoras evangélicas de Joinville se reuniu na antiga Deutsche Schule com um propósito: unir forças e criar uma associação beneficente para auxiliar necessitados e tratar doentes de todas as confissões. Uma iniciativa que iria se desenvolver e estruturar nos anos seguintes e dar origem ao que hoje, um século depois, é o Hospital Dona Helena.

Em seu livro “Kirchengemeinde Joinville. Evangelisches Bekennen in Schwachheit und Kraft. 1851-1951”, o pastor Friedrich Wüstner revela que essa primeira reunião foi presidida pela viúva Lilly Tiede, da Cervejaria Tiede, e que a iniciativa de fundar a entidade foi do empresário Hermann August Lepper. Em seu texto, traduzido pela pesquisadora Brigitte Brandenburg, destacou que a nova associação deveria unir esforços ao trabalho já realizado pela comunidade evangélica.

Divulgação/ND

Helena Lepper, nascida Trinks, a idealizadora

O primeiro passo foi formar a diretoria, liderada pela mulher de Lepper, Helena Lepper, e composta por senhoras ativas na comunidade local, como a própria Lilly Tiede, Helene Hygon, Dorothea Bühler (mulher do pastor Fritz Bühler), entre outras. A doação de um imóvel na atual rua Blumenau, pela família Lepper, marcou o início do que viria a ser primeiro um asilo de idosos e jardim de infância – e depois a casa de saúde e hospital.

A nova associação incorporava o trabalho já iniciado pela comunidade evangélica, que em 1914 trouxe para a cidade uma diaconisa, Ina Hochreuter, para prestar serviços de enfermagem nas residências. Seu papel, porém, era muito mais amplo, conforme explica o pastor Wüstner: “Uma diaconisa não era considerada apenas uma enfermeira contratada por tempo determinado; acima disto, é colocada à disposição por uma vida e atua a partir do interior da igreja, à qual esta serve, vive, e pela qual esta foi enviada”.

O contexto da época, porém, afetou as atividades nesse primeiro momento. No fim de 1916, a Grande Guerra, como era chamada a 1ª Guerra Mundial já deixava um rastro de destruição na Europa e o receio do “perigo alemão” fazia com que comunidades de imigrantes germânicos fossem olhados com desconfiança e passassem por dificuldades em diversas partes do mundo. Em Joinville, não era diferente. Em abril de 1917, o Brasil aboliu a neutralidade em relação à Alemanha e rompeu relações diplomáticas com o País. Meses depois, em outubro, declarou oficialmente guerra à Alemanha.  

O impacto em Joinville não demorou a aparecer. “No Natal de 1917, o culto foi invadido por elementos com o intuito de interrompê-lo e impedí-lo. Por precaução, os cultos foram cancelados. No início de 1918, por decretos governamentais, todas as atividades da igreja foram proibidas, como também o uso da língua alemã na vida pública e privada. Várias damas da cidade solicitaram, junto ao ministro do interior como também ao governador, o cancelamento do decreto. Mas apenas no domingo “epifanias” de 1919 (janeiro), que foi novamente autorizada a realização do culto luterano”, escreveu em seu livro.

Os relatos do pastor Wüstner indicam que a Helenenheim, a Casa de Helena foi erguida em 1917. Mas pelas circunstâncias da época, ela não havia sido usada inicialmente pela associação para os fins a que se destinava. Em seu livro, ele explica que a casa do pastor luterano, na rua Jaguaruna (em frente à Liga de Sociedades), havia sido ocupada em 1918, quando os militares do 13º Batalhão de Caçadores chegou a Joinville. “A família do pastor (Hans Müller), então, passou a residir em uma nova casa, que mais tarde se tornou a Casa de Helena (Helenenheim) ou Vila Helena. O Sr. e Sra.  H. A. Lepper, de forma extremamente gentil, colocaram a casa à disposição mediante aluguel, de forma que a família desalojada repentinamente pudesse mudar-se imediatamente. Esta casa nova havia sido recentemente construída”, escreveu. Somente em 1922, com a mudança dos militares, o pastor retornou a sua casa. 

Divulgação/ND

O estatuto, publicado no Kolonie Zeitung, em agosto de 1920

Em agosto de 1920, a Associação Beneficente de Senhoras Evangélicas se uniu formalmente à Comunidade Luterana e estabeleceu novos estatutos, conforme consta no “Kolonie Zeitung”, o principal jornal da época. Esses estatutos já previam a construção de uma Casa de Saúde.

Em março do ano seguinte, a irmã Ina retornou a seu país e chegaram as irmãs Lydia Hench e Paula Berghaus, que restabeleceram residência na Helenenheim, na rua Blumenau. “A partir deste momento, quando chegaram as irmãs enfermeiras, no pós-guerra, é que a Associação Beneficente de Senhoras começou o auxílio a doentes e idosos abandonados”, explica a pesquisadora Brigitte Brandenburg, baseando-se na leitura dos jornais da época e no livro do pastor Wüstner.

A Casa de Saúde Evangélica começou a sair do papel em seguida, com mobilização dos fiéis para erguer o prédio anexo à Casa de Helena (onde moravam as irmãs diaconisas) e angariar para a aquisição de equipamentos e, depois, ampliação. Nessa época, o local já era conhecido como Helenenstift, o Instituto Helena, em homenagem a Helena Lepper que doou o imóvel. O coral da Igreja da Paz, por exemplo, realizou dois concertos beneficentes em agosto e setembro de 1921, com renda destinada à compra de uma mesa de cirurgia. A planta do novo imóvel que consta no Arquivo Histórico de Joinville é datada de 1922 e, em 1923, o prédio foi concluído. “A Casa de Saúde foi bem procurada. Em um período de dois anos (1923-1925) foram admitidos 646 doentes e foram realizadas 372 cirurgias”, escreveu o pastor Wüstner.

As irmãs diaconisas residiam no local que, segundo histórico no Informativo Especial de 85 anos do Hospital Dona Helena, contava com um jardim de infância sob responsabilidade das senhoras evangélicas e atendimento a idosos, realizado pelas irmãs. Sem especificar a data, a publicação conta que o primeiro paciente foi um menino da Estrada da Ilha, ainda nos anos 20, levado pelo doutor Norberto Bachmann. A partir daí, outros pacientes foram chegando e o perfil do local mudou, consolidando-se como casa de saúde e maternidade.

Leia no próximo fim de semana: As mudanças ao longo das décadas. E as histórias de quem faz parte dessa trajetória

A primeira diretoria:

Helene Lepper, nascida Trinks

Elisabeth Ammon, nascida Weise

Helene Hygon, nascida Ulrichsen

Lilly Tiede, nascida Brandt

Dorothea Bühler, nascida Müller (mulher do pastor)

Else Stein, nascida Krause

Alma Lepper, nascida Nehrmann

Hedwig Schoof, nascida Schlie

Sophie Niemeyer, nascida Lepper

Srta. Edmunde Jordan 

Mathilde Schlemm, nascida Lange

Srta. Emilie Hygon (c.c. Fritz Kölling)

E mais 80 senhoras que declararam seu apoio

Os estatutos de 1920

Inciso 1 (§) – A Associação Beneficente de Senhoras Evangélicas mantém-se ligada à Comunidade da igreja luterana de Joinville, para o tratamento de doentes e assistência aos pobres da zona da cidade e arredores, e assim que possível, também a ser estendido a alguns de seus distritos foram do perímetro urbano.

 

Inciso 2 – A Associação  de Senhoras assumirá e proverá a comunidade luterana de Joinville com diaconisas evangélicas e assumirá as despesas de ,manutenção do Centro de Diaconisas que será instalado na Vila Helana ou Casa de Helena, ou Helenenheim. A casa de Helena, em qualquer tempo, será unicamente destinada e utilizada para este fim.

Inciso 3 – A Associação de senhoras se responsabilizará pelo auxílio e tratamento de todas as mulheres da cidade e áreas adjacentes. Como objetivo deste trabalho resta ainda o desenvolvimento da Associação de Senhoras para aa construção de uma Casa de Saúde Evangélica. Próximo do Centro de Diaconisas a Associação mantém um pequeno jardim de infância. 

 

Inciso 6 – A diretoria da Associação de Senhoras constitui-se conjuntamente de cinco senhoras e o Pastor da comunidade da igreja luterana. Diretora, secretária e administradora financeira recaem sobre as senhoras. Duas são vice-diretoras.

Inciso 9 – Uma assembleia geral extraordinária poderá ser convocada quando a diretora assim a julgar necessário, ou quando um mínimo de 20 associados, mediante exposição formal de motivos, a solicitarem.

Inciso 12 – A comunidade da Igreja luterana apóia os interesses da Associação de Senhoras de todas as formas, e a proverá mediante planejamento anual, no que concerne as necessidades de seu orçamento.  

(1/8/1920)

Fonte: Wüstner, Friedrich. Kirchengemeinde Joinville. Evangelisches Bekennen in Schwachheit und Kraft. 1851-1951 – 9 März. Rotermund, São Leopoldo.  Tradução Brigitte Brandenburg

Mais conteúdo sobre

Memória