O desafio para um símbolo da história da Joinville, a bicicleta, retomar sua importância

Em todo o país, será dada a largada neste domingo para as atividades da Semana Nacional do Trânsito. Com o tema “Década Mundial de Ações para a Segurança no trânsito – 2011/2020: Eu sou + 1 por um trânsito + seguro”, a principal finalidade é conscientizar o cidadão de sua responsabilidade no trânsito.

O tema reforça que cada pessoa é um ator do trânsito e deve ser tratado como alguém que tem o poder de decidir seu destino e é o responsável pelas próprias ações e sofrerá as consequências de suas escolhas. Prevista na Lei 9.503, de 23 de setembro de 1997 – Código de Trânsito Brasileiro, a Semana Nacional de Trânsito é comemorada entre os dias 18 e 25 de setembro.

Jacy Lemus da Costa, 87 anos, conta que em 1945, então com 16 anos, adquiriu sua primeira bicicleta, uma Monark - Fabrício Porto/ND
Jacy Lemus da Costa, 87 anos, conta que em 1945, então com 16 anos, adquiriu sua primeira bicicleta, uma Monark – Fabrício Porto/ND

Além da segurança no trânsito, a mobilidade e os meios de transporte alternativo têm ganhando espaço nas discussões em torno de uma cidade mais segura e limpa. Conhecida, entre outros títulos, como “Cidade das Bicicletas”, Joinville luta para não perder o título que remete a um meio de transporte enraizado em sua história.

Foi por volta da década de 30 que a bicicleta começou a tomar vulto em Joinville. Fundada em 1851, a cidade teve como primeiros moradores os alemães, noruegueses e suíços, que utilizavam inicialmente o cavalo e a canoa como meio de transporte. A partir de 1870, os novos moradores passaram a utilizar, também, a carroça, transportando pessoas e mercadorias. De acordo com o pesquisador Valter Fernandes Bustos, em 1897 foram licenciadas as três primeiras bicicletas. 

A origem da utilização da bicicleta veio com a colonização alemã, segundo consta em documentos no Arquivo Histórico de Joinville. Karl Schneider esteve entre os primeiros a adquirir uma bicicleta em Joinville e ajudou a popularizá-la. Ele veio da Alemanha em 1881, aos 27 anos, e  abriu uma loja chamada “Casa do Aço” (hoje Ciser Parafusos e Porcas), que vendia ferragens, louças, tecidos e produtos da região. Costumava visitar seus clientes a pé, porém, para ter maior agilidade, importou uma bicicleta. Ele a usava e apresentava aos seus clientes, como forma de propaganda, a fim de comercializar, também, este produto. Como a cidade era plana, a bicicleta tornou-se um sucesso. Karl as importava e vendia.

Dona Helena na bicicleta para senhoras

A primeira mulher a utilizar uma bicicleta para senhoras, segundo os documentos do Arquivo Histórico de Joinville, foi Helena Trinks Lepper, em 1898. Imigrante da região da Saxônia (Alemanha), ela chegou a Joinville com apenas cinco anos, em 1854. Casou-se com Herman Lepper (fundador da Fabril Lepper) e teve 12 filhos. Dedicou-se a cuidar de crianças, idosos e doentes, fundando a instituição que originou o Hospital Dona Helena (nome em sua homenagem), e se locomovia em sua bike exclusiva pela cidade. Ela morreu em 20 de junho de 1932.

Em 1913, Joinville tinha apenas 88 bicicletas. Conforme registros no Arquivo Histórico, em 1929 foram registradas 356. Em 1930, 1.083; e em 1932, 1.126 bicicletas. Os registros estão em livros da Prefeitura, que marcavam o nome do veículo, proprietário, endereço e fabricante da bicicleta. Elas tinham certificados de propriedade e era possível vendê-las, com endosso no verso do certificado.

Entre os anos de 1938 e 1939, o livro era organizado em ordem alfabética, por causa da grande quantidade de registros. Ali eram escritos, também, o número do talão de pagamento das taxas, a placa, as possíveis transferências ou ainda, a “baixa” – quando a bicicleta deixava de ser usada.

Grande fonte de arrecadação municipal

Em 1942, os registros passam a ser pelo primeiro nome dos proprietários. O livro, pesado, marca 354 páginas com proprietários de bicicletas joinvilenses. Empresas também constavam nos registros. Até a década de 50, o licenciamento das bicicletas era uma das grandes fontes de arrecadação do município. O ano de 1959 foi o último em que o licenciamento era obrigatório.

Junto ao grande número de bicicletas, foram surgindo inúmeras oficinas. Heinz Goecks foi o primeiro mecânico de bicicletas em Joinville. A oficina surgiu em 1928, no início da rua João Colin. Na infância, ele estudava e ajudava os pais na padaria da família, local que transformou na oficina das bicicletas. A filha, Maria Elisabeth Goecks Righetto, 67 anos, ainda lembra daqueles tempos. “Abria a oficina cedo, não fechava para almoço. Tarde da noite, muitas vezes, as pessoas iam chamá-lo em casa, para consertar alguma coisa. Era muito conhecido”, conta.

A oficina realizava consertos, além de vender peças e bicicletas usadas. Junto com ele, o irmão Otto trabalhou por muito tempo. Conforme Maria Elisabeth, Heinz atendeu no endereço da rua João Colin até próximo aos 80 anos, mas continuou em sua casa, na rua Max Colin, atendendo um ou outro conhecido. Além da paixão pelas duas rodas, também jogou basquete, participando do 1º Campeonato Brasileiro de Basquete. Fundou a Sociedade Guarani. Morreu em 2012, aos 94 anos.

Locomoção para o trabalho

Com a industrialização, a partir de 1945, a bicicleta vai encontrando ainda mais mercado em Joinville e seu principal uso é como meio de locomoção entre o local de trabalho – na maioria das vezes, a fábrica – e a residência de milhares de trabalhadores joinvilenses. Em 1950, eram  9.795 bicicletas em uma cidade de  46.550 habitantes.

Jacy Lemus da Costa, 87 anos, conta que em 1945, então com 16 anos, adquiriu sua primeira bicicleta, uma Monark, para trabalhar em uma fábrica. Diariamente, percorria três quilômetros entre sua casa (no bairro Bucarein) e o local de trabalho (no Centro), uma indústria têxtil, onde atuava no setor de rendas. “Todas as funcionárias usavam a bicicleta, porque era o meio de transporte da época”, relembra.

A equipe desfilava de bicicleta nos desfiles cívicos de Sete de Setembro, organizados pela prefeitura. “As mulheres tinham que ir de vestido branco e os homens, de terno e gravata ou camisa social”. Até hoje, ela guarda algumas fotos destes desfiles, como recordação.  Foi assim até os 24 anos, quando casou-se com Wirmond da  Costa, com quem teve cinco filhos. O marido fez, durante toda a vida profissional, o mesmo roteiro: ia e vinha do trabalho de bicicleta. Inicialmente, em uma metalúrgica em Joinville. Após cinco anos de casados, foram morar em Cambará do Sul, onde ficaram por 14 anos. “Lá, ele também usava a bicicleta para trabalhar”. Retornando a Joinville, Wirmond continuou a rotina trabalho – residência de bicicleta. Após se aposentar, ainda usava o meio de transporte para fazer pequenas compras e passeios, até falecer, há 23 anos

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