Atletas do JEC Futsal retomam atividades e pedem atenção ao esporte

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Os jogadores do JEC Futsal estão acostumados com casa cheia, fumaça colorida, bandeiras e muito barulho no Centreventos Cau Hansen. A torcida tricolor é apaixonada e já deu provas do apoio incondicional ao clube, mas o encontro de time e torcedores em jogos oficiais não acontece há mais de seis meses e não tem data para voltar a acontecer. Embora a volta do futebol já tenha data definida, a do futsal ainda não foi divulgada, apesar da sinalização para retomada no mês de julho.

Com a expectativa de rolar a bola, mesmo sem torcida, o Tricolor retomou às atividades presenciais nas últimas semanas depois de mais de dois meses de atividades online. Apesar do barulho dos tênis na quadra, o cenário é bem diferente do habitual. Os jogadores não chegam mais juntos, as atividades são limitadas e os sorrisos de brincadeira a cada chute longe do gol continuam escondidos pelas máscaras. As máscaras, aliás, foram eleitas entre os maiores desafios e dificuldades desse novo contexto de treinos.

Depois de dois meses de treinos online com cargas reduzidas e limitações de estrutura e condicionamento, os jogadores voltaram a treinar, mas desta vez em grupos limitados e separados, o que também prejudica o desenvolvimento técnico e tático da equipe.

O desafio de montar um plano de treinos que respeitasse o protocolo de segurança ao mesmo tempo que pudesse dar a oportunidade aos atletas de retomar as atividades em quadra gradativamente para evitar lesões ficou a cargo da comissão técnica.

O preparador físico João Romano explica que o planejamento foi feito, em primeiro lugar, pensando em adaptar as atividades no espaço rotineiro do Centreventos, que possui mais recursos, porém, voltando o olhar aos grupos de trabalho reduzidos. “Tivemos que adaptar sempre olhando para a ciência, para evitar lesões. Então, planejamos semanas com volumes progressivos e cuidando da intensidade neste começo”, diz.

Para João Romano, a grande problemática é não conseguir trabalhar com o grupo inteiro e fazer trabalhos específicos de jogo – Foto: Vitor Kortmann/JEC Futsal

Ele conta que, desde o retorno às atividades presenciais, os trabalhos com bola foram introduzidos para o ganho físico, tático e técnico inevitavelmente perdidos em uma parada de mais de dois meses depois de uma pré-temporada forte. A partir da terceira semana, os trabalhos são mais direcionados e específicos, explica.

O grande desafio, ressalta Romano, é o grupo reduzido de atletas. “Temos que pensar na estrutura total e quando trabalhamos com poucas pessoas o treino tende a se tornar físico e nós precisamos trabalhar físico e técnico alinhados”, diz.

O preparador conta, ainda, que o maior prejuízo está na construção de cargas, que foi reduzida a cerca de 50% e, além disso, a limitação para trabalhos específicos. “A grande problemática é que não conseguimos fazer coisas específicas, então torna-se um grande desafio achar o momento certo de fazer aquilo que parece com o jogo”, explica.

Para o técnico Daniel Junior, um dos grandes desafios é criar exercícios que motivem os atletas, levando em consideração que a limitação acaba “simplificando” os trabalhos que podem ser desenvolvidos. “Estamos alcançando os objetivos do momento, que são o restabelecimento técnico e o recondicionamento físico”, fala.

Daniel Junior diz que maior prejuízo da paralisação foi a perda de massa magra dos atletas – Foto: Vitor Kortmann/JEC Futsal

Nesta terceira semana, explica Daniel, a comissão começou a aumentar as cargas técnicas e táticas e, ainda, o fortalecimento físico para evitar lesões na retomada das competições. O maior prejuízo desse tempo ‘parado’, enfatiza o técnico, é a perda de massa magra. “Conseguimos manter os índices de percentual de gordura dentro da normalidade. A maior perda foi a massa magra, que é uma questão biológica mesmo”, explica.

Os treinos estão acontecendo em grupos limitados no Centreventos Cau Hansen e períodos de trabalho na academia.

“É difícil até acertar o gol no começo”

Depois de mais de dois meses treinando em casa, a volta para a quadra está sendo sentida pelo capitão Xuxa. Ele conta que, apesar de tentar manter a rotina de treinos repassados pelo preparador João Romano durante a parada, o retorno à quadra é “pesado”.

O ala elege sem hesitar a maior dificuldade: a máscara. “O maior empecilho é a máscara, nos sentimos um pouco ofegante no treino, mas é válido principalmente por voltar a treinar presencial, com poucos jogadores, mas é importante prezar pela nossa segurança. É importante passar por esse processo e esperamos que logo volte ao normal, mas por enquanto é importante usar a máscara e tudo certinho”, diz.

Para Xuxa, o desafio será ajustar o calendário de competições – Foto: Vitor Kortmann/JEC Futsal

Xuxa ressalta que as primeiras semanas de retomada dos treinos em quadra são “complicadas”, especialmente do trabalho com bola, paralisado ainda na pré-temporada. “Ficamos dois meses sem tocar na bola, então você perde um pouco a noção de como entrar pisando em uma bola, em como chutar. É difícil até acertar o gol no começo. Até brinquei com os outros jogadores, dei três chutes e errei os três, 100% de aproveitamento”, brinca.

Depois de ter que se adaptar a uma rotina em casa, os atletas precisaram voltar à rotina de treino no Centreventos e, para o capitão, foi um alívio. “Essa rotina de sair cedo, vir treinar, voltar para casa quase na hora do almoço, então, já passou uma parte do tempo. Quando falaram que voltaríamos, fiquei muito feliz, foi um alívio retornar aos treinos mesmo com algumas limitações”, fala.

Para Xuxa, o maior prejuízo deste processo, foi o calendário de competições. O futsal sequer tinha iniciado as competições quando a pandemia obrigou a paralisação das atividades. “Eu acredito que vamos perder em número de jogos porque o calendário apertou, de um ano diminuiu para seis meses. O prejuízo está sendo grande para todas as equipes, então, esperamos voltar o mais rápido possível para diminuir esse prejuízo”, avalia.

“Peço que olhem com mais carinho para o nosso esporte”

A paralisação das atividades e dos treinos presenciais trouxe alguns “benefícios” para o pivô tricolor. Dieguinho viajou para Minas Gerais, onde nasceu e tem residência e conseguiu passar mais tempo com a companheira, que também é atleta e também teve a rotina alterada com a pandemia.

Dieguinho pede mais atenção ao esporte e às competições – Foto: Vitor Kortmann/JEC Futsal

Ele conta que até novas experiências puderam ser vividas neste tempo. “Passei um tempo na fazenda da família, então comecei a acordar mais cedo. Nunca tinha andado de cavalo, andei, e fui me adaptando às novas rotinas”, conta.

De volta à Joinville e pisando novamente na quadra, mais uma vez o camisa 89 ressalta o bom protocolo feito pela equipe para garantir a segurança dos atletas e, assim como Xuxa, elege a principal dificuldade, também a máscara. “Para mim, a maior dificuldade é o uso da máscara, dificulta muito a respiração, mas temos que nos adaptar, esquecer um pouco e fazer o que tem que ser feito”, fala.

A expectativa é de que o Estadual comece em julho e, para Dieguinho, voltar à quadra e ao trabalho em grupo, mesmo que com limitações, é voltar um pouco para a rotina. “Ter a oportunidade de conversar, mesmo que de longe, para mim é muito melhor porque eu gosto de estar com as pessoas, de me comunicar, de brincar. Isso faz toda a diferença, isso aqui me deixa feliz”, salienta.

O pedido do pivô é para que a atenção das autoridades e federações se volta para o futsal. “Eu peço para que olhem com mais carinho para o nosso esporte. Nós dependemos disso, é o que coloca comida dentro da nossa casa, o que sustenta nossos filhos. Então, peço que olhem com mais carinho porque nós precisamos voltar, com todos os cuidados, mas que possamos voltar a fazer o que amamos”, diz.

“O meu grande desafio é conseguir voltar o mais rápido possível da lesão no joelho”

A torcida tricolor não está acostumada a ver o goleiro Willian ser substituído por lesão, mas a imagem da saída do goleiro na final do Campeonato Catarinense do ano passado ainda está bem viva na memória dos torcedores e, para ele, mais ainda.

Depois de uma boa pré-temporada de fortalecimento muscular, a paralisação acabou interrompendo o processo de recuperação de Willian, que vê esse como seu maior desafio nessa retomada às atividades. “Esse é o grande problema que eu venho enfrentando, mas logo vai ser resolvido. O meu grande desafio vai ser conseguir voltar o mais rápido possível dessa lesão e dessa dor incômoda que eu tenho no joelho”, diz.

Desafio de Willian é recuperar completamente joelho lesionado no ano passado – Foto: Vitor Kortmann/JEC Futsal

Apesar disso, Willian fala que os treinos online conseguiram manter um pouco do ritmo dos atletas e fazer com que essa volta fosse menos abrupta.

O goleiro ressalta que o cancelamento de uma competição afeta uma cadeia que vai além dos próprios atletas. Seis meses “se perderam” em um calendário que já é apertado e as adaptações precisam ser pensadas e colocadas em prática, salienta Willian, para que os times possam manter a saúde financeira dos clubes, patrocinadores, atletas, de todos.

“Eu vejo o prejuízo maior para os atletas, comissões técnicas e clubes do que para as competições. A competição consegue se manter. Temos que entender e nos ajustar o mais rápido possível para o prejuízo não ser maior”, avalia.

“Só de voltar para a quadra, nos faz passar por cima das dificuldades”

O jovem fixo gaúcho ainda não sentiu o gostinho de jogar em um Centreventos Cau Hansen lotado pela torcida tricolor, mas a vontade de estar preparado para responder à altura do torcedor joinvilense fez com que João Salla se dedicasse, mesmo longe das quadras.

Ele conta que, durante os treinos online, além das orientações repassadas por João Romano, criou uma rotina alternativa de atividades para manter a forma. E parece ter dado certo. “Fizemos um bom trabalho, a equipe voltou bem e vamos colher bons frutos”, diz.

João Salla ainda sonha com a estreia no Centreventos Cau Hansen – Foto: Vitor Kortmann/JEC Futsal

O fixo faz parte do grupo que elegeu a máscara como a “vilã” dessa retomada, mas ressalta que a dificuldade é menor do que a vontade de voltar para a quadra. “Nós víamos a vontade de todo mundo de estar aqui trabalhando, desfrutando do que nós fazemos todos os dias. Então, acabamos passando por isso, esquecendo a máscara. Não respiramos do mesmo jeito, fica mais difícil, mas só de voltar para a quadra, encontrar os amigos, jogar bola, isso faz passar por cima das dificuldades”, comemora.

Para João Salla, é importante fixar uma data para retorno para direcionar o foco dos atletas. “Estávamos muito centrados e isso acaba dando uma relaxada, é inevitável. Agora, com datas, você acaba direcionando a cabeça e ajuda a manter o foco. Eu não tive a oportunidade de jogar no Cau Hansen e eu quero muito”, fala.

“O futsal é uma modalidade carente”

Leco sempre foi um dos pilares da equipe tricolor. Jogador com maior número de partidas disputadas com a camisa do JEC, o camisa 8 sempre foi conhecido pela sua garra e disciplina. O fixo ressalta que sempre foi um defensor do isolamento e de todas as medidas de proteção, mas também pede atenção ao esporte.

Leco pede atenção ao esporte e às possibilidades de retomada dos campeonatos – Foto: Vitor Kortmann/JEC Futsal

“Eu gostaria que olhassem com um pouquinho mais de carinho para o nosso esporte. Não estou falando que tem que liberar ou não liberar, mas tem que analisar. Não somos grupos de risco, temos todo um aparato, um staff por trás dos atletas tomando todo o cuidado, profissionais médicos, profissionais de saúde elaborando protocolos para nossa segurança. Então, gostaria que fosse analisada a nossa situação para ver exatamente quais são os meios de contágio que tem em uma quadra, em uma competição entre atletas jovens, fora do grupo de risco e com todo o protocolo de segurança. Então, é essa análise que eu não tenho certeza se está sendo feita”, analisa. “Há pessoas que vivem disso, talvez não seja essencial para a comunidade em si, mas é para quem vive disso. E são muitas pessoas”, complementa.

Os prejuízos, ressalta Leco, foram inevitáveis, mas a adaptação e a continuidade dos trabalhos, mesmo que em casa, amenizaram as perdas. “Nós trabalhamos muito a parte muscular. Não pudemos trabalhar a parte anaeróbica, corrida, exaustão e cardiorrespiratória. Mas é uma questão mais fácil de recuperar que a muscular. Então, a gente conseguiu manter o principal que foi a área muscular”, avalia.

O fixo chama a atenção ainda para a estrutura do esporte e para a importância que precisa ser dada a ele e à retomada, uma vez que a paralisação prejudica, e muito, todo o projeto, mas elogia também a seriedade do clube. “O futsal em si é uma modalidade muito carente de tudo. Carente de estrutura, carente de investimento, de organização. O prejuízo é incalculável e só vamos ver isso depois que tudo passar. Nós somos privilegiados de estarmos em um clube como é o projeto do JEC Futsal”, finaliza.

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