Criado no Brasil, inglês da Uefa analisa sucesso da Champions League

Diretor de Partidas da entidade europeia, Saam Momen explica função, fala de CBF, Sul-Minas-Rio e possível versão americana da Liga dos Campeões

Não importa se é terça ou quarta-feira, se é apenas o início da fase de grupos ou o duelo que vai revelar o último finalista. O objetivo de qualquer brasileiro amante do futebol europeu é estar de frente para a TV, às 15h45 ou 16h45 (de Brasília), em dia de jogo da Liga dos Campeões da Europa, a famosa Uefa Champions League. Prova disto é que o País é o terceiro que mais acessa o site oficial da entidade presidida por Michel Platini, à frente, por exemplo, dos espanhóis. Mas, e se o sofá de casa desse lugar às cadeiras de Wembley, Santiago Bernabéu ou San Siro? O que parecia apenas um mero sonho se transformou em realidade para Saam Momen em 2005. Trata-se de, como ele mesmo diz, um “brasileiro-paraguaio”, que descobriu no velho continente a tarefa motivadora de sua vida.

– Eu sou um brasileiro-paraguaio. Na verdade, meus pais são iranianos, eu nasci na Inglaterra, mas fui criado no Brasil. Então, eu tenho cidadania europeia. Isso claramente ajudou, mas sim, eu tracei uma carreira começando, estudando no Brasil e eu consegui entrar (na Uefa – União das Federações Europeias de Futebol) através do meu mestrado. Fiz um mestrado na Suíça, e por isso acabei entrando na Uefa. Trabalhei no comitê britânico antes, o comitê de candidatura de Londres a 2012 (Olimpíada), e logo depois entrei na Uefa – conta, resumidamente, um dos Diretores de Partidas da Uefa.

A atividade, encantadora para muitos, também apresenta obstáculos a serem vencidos. Conduzir todo o cronograma de uma partida do principal torneio de clubes do futebol europeu requer muita atenção, paciência, comunicação, agilidade e improviso. Tudo isso para chegar à indispensável perfeição.

– É a relação entre os dois clubes, quando eles vão treinar, o que eles precisam, relacionamento com os árbitros, quando eles vão chegar, se eles querem treinar um dia antes do jogo, se eles têm tudo que precisam para a realização do jogo… Você é responsável por toda a contagem regressiva para o jogo, especialmente ter a certeza absoluta de que o jogo vai começar às oito e quarenta e cinco (da noite, no horário da Suíça). Esse é o papel do Diretor de Partidas – explica Saam, de 36 anos.

Se o sucesso do certame da bola estrelada parece algo inalcançável em outras federações ou um mistério para alguns, Saam Momen prefere defini-lo num único pacote repleto de componentes.

– Eu diria, em uma palavra, planejamento. Planejamento de vários anos. Primeiro, do ciclo da Uefa, que tem tudo trabalhado sempre em três anos, seja contrato comercial, contrato de TV… Então, isso ajuda muito, dá muita tranquilidade, especialmente da parte operacional, em facilitar a entrega de tudo isso. Acho que o lado positivo da Uefa é ela ter sempre um interlocutor em várias áreas dentro do futebol. Ou seja, ela dá ouvidos ao torcedor, aos jogadores, aos patrocinadores, à TV, aos clubes, às ligas, às federações. E tudo isso é por meio de comitês, que têm a sua voz dentro da Uefa, que é presidida por diversos presidentes e federações, e que fazem com que a cooperação seja a melhor possível – argumenta.

Champions das Américas 
 
“Importar” a competição da “taça de orelhas” é algo já estudado em terras americanas. Recentemente, o empresário italiano Riccardo Silva propôs a criação da Champions League das Américas, que uniria clubes de Brasil, Argentina, México e Estados Unidos (entre outros países também das regiões sul, norte e central do continente) numa só disputa. Para Saam, a iniciativa é bem-vinda, porém precisará atravessar uma longa estrada até deixar o papel.

– Sim, com certeza. Mas aí a gente tem que entender quem vai organizar, o que vai acontecer. São tantos outros problemas que ainda precisam ser (resolvidos). No momento, há mais dúvidas que respostas. Então, temos que entender como isso seria realizado, como seria organizado, quem gerenciaria isso, para depois ver quais são, realmente, os desdobramentos. Eu não sei ainda qual é a ideia, se é ter Libertadores e esse (torneio). Para mim, parece que vai substituir a Libertadores. Então, eu não sei. Tendo duas competições desse tamanho, acho que é muito difícil, até mesmo você ter a chancela de Conmebol (Confederação Sul-Americana de Futebol), Concacaf (Confederação de Futebol da América do Norte, Central e Caribe)… – analisa o representante da Uefa, que acredita no projeto.

– Possível é. Não tem a menor dúvida. Tem vários times com uma infraestrutura pior do que vários times aqui do Brasil e que conseguem organizar uma Champions League. Precisa, é claro, ter a vontade, a estrutura, todo o direcionamento, as pessoas, a vontade política para que isso aconteça.

Quando o assunto é a versão brasileira do esporte mais popular do planeta, Saam Momen entende que o diálogo é a melhor ferramenta na busca por melhorias.

– É difícil falar de problemas ou do que precisa ser mudado, até porque eu não trabalho no dia a dia do futebol brasileiro, sei que a CBF tem um trabalho árduo para resolver os diversos problemas. Primeiramente, pelo diferencial ser a cooperação entre todas partes que eu mencionei anteriormente, a CBF precisa encontrar e tentar trabalhar todas essas partes que são necessárias serem ouvidas dentro do futebol brasileiro.

Prestes a iniciar, a recém formada Liga Sul-Minas-Rio (Primeira Liga) é vista por Saam como atitude necessária dos clubes, antes mesmo de julgá-la como benéfica ou não.

– Para mim, não é uma questão de ser bom ou ser ruim. A questão é: vários países ou todos os grandes países da Europa possuem uma liga. Uma liga é a criação de algo para um bem maior, o bem dos clubes. A CBF pensa na Seleção, alguém tem que pensar nos clubes. Qualquer forma de liga que seja é sempre benéfica para o futebol brasileiro.

Temporada 2015/16

Enquanto os torcedores da tida “nação do futebol” almejam ver suas equipes participando de uma Libertadores (ou Champions das Américas) padrão Liga dos Campeões, Saam Momen segue seu trabalho no mundialmente consolidado torneio europeu. O caminho é extenso e, nesta temporada, terminará no Estádio San Siro, em Milão (Itália), no dia 28 de maio de 2016, quando mais de 800 profissionais estarão em cena para garantir aquilo que engloba além das cifras.

– A Champions League se tornou um produto de prestígio, mais até que financeiro. As emissoras querem poder dizer que são donas dos direitos deste torneio – frisa o Diretor de Partidas da Uefa, que preferiu não comentar a suspensão de 90 dias, imposta pelo comitê de ética da Fifa ao seu presidente, Joseph Blatter, e ao mandatário da Uefa, Michel Platini, por conta do suposto pagamento de 2 milhões de francos suíços (R$ 8,2 milhões) do dirigente da entidade mundial ao ex-jogador da seleção francesa, sem documento escrito.

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