Futebol e migração: como o esporte integra refugiados no Brasil

Academia Pérolas Negras é iniciativa de futebol da Viva Rio (Foto: Vitor Madeira/Viva Rio)
Academia Pérolas Negras é iniciativa de futebol da Viva Rio (Foto: Vitor Madeira/Viva Rio)

Durante a trajetória da França pelo bicampeonato da Copa do Mundo, um debate de extrema importância voltou à tona: políticas de imigração, refugiados e o impacto de tudo isso no mundo do futebol. Com grande parte dos Les Bleus sendo descendentes diretos de famílias africanas (no geral, de países que foram colonizados pela França) ou então naturalizados franceses, tornou-se possível discutir geopolítica e sociedade a partir do mundo da bola.

Em meio à maior crise de refugiados da história, traçar políticas esportivas é um das medidas de sucesso para a integração dos indivíduos na sociedade. Mas como esses movimentos de migração se refletem no futebol do Brasil? Um exemplo é a equipe do Pérolas Negras, que tem uma de suas sedes em Paty do Alferes, no Rio de Janeiro. Rubem César, secretário-executivo da Viva Rio (organização que controla a equipe) conversou com o LANCE! sobre as origens do projeto.

– Os Pérolas surgiram de um trabalho do Viva Rio no Haiti em bairros mais expostos à violência e muito pobres. Percebemos que com o futebol a gente tem um acesso imediato àquela garotada envolvida na violência. Foi um trabalho pra reduzir a violência na comunidade, um programa que a ONU depois adotou com o nome de ‘Redução da Violência Comunitária’. (…) O país para quando tem jogo, eles são muito torcedores do Brasil, do futebol brasileiro – disse o dirigente.

A paixão haitiana pelo futebol chamou a atenção da organização, que decidiu investir em um centro de treinamento. O intuito principal da ideia era elevar o projeto humanitário no país a outro patamar, destacando o talento esportivo em meio à pobreza. Era necessário quebrar o paradigma de que ‘o Haiti é só tristeza’.

Academia do Pérolas Negras

CT do Pérolas Negras no Haiti (Foto: Divulgação/Viva Rio)

O CT foi criado nas periferias da região metropolitana de Porto Príncipe, capital haitiana, em 2008. O projeto evoluiu em 2009, mas teve que recomeçar do zero após o devastador terremoto que assolou o país em 2010. O nome ‘Pérolas Negras’ é derivado do apelido ‘Pérola das Antilhas’ dado ao Haiti, devido à riqueza ambiental e geográfica do território.

– Correu tudo tão bem que começamos a achar que tínhamos que abrir uma segunda sede dos Pérolas, dessa vez no Brasil. Era para que eles continuassem crescendo e encontrassem no Brasil o caminho do profissionalismo – completou Rubem César.

O projeto serviu como uma espécie de ponte por meio do futebol entre Haiti e Brasil, tudo isso durante a missão de pacificação do país caribenho, liderada pelo exército tupiniquim. Foi nesse contexto da missão da ONU em que surgiu o Pérolas Negras.

Exército

Exército brasileiro liderou pacificação no Haiti (Foto: Contingente do Brasil no Haiti/Divulgação)

Os meninos e meninas selecionados pela Academia Pérolas Negras são geralmente ‘pescados’ em campeonatos comunitários de futebol de rua. Com a crescente fama da instituição, crianças e adolescentes procuram a organização; o projeto, então, envia responsáveis para caçar os novos talentos. Hoje, o time no Brasil é aberto não só a haitianos (vindos ao país com visto humanitário), mas a refugiados no geral: há sírios, ugandeses e também o venezuelano Juan Andrés Rodriguez Collado, que já tinha até atuado por sua seleção sub-15.

Passado colonialista da França no Haiti
A ligação da França com o Haiti é um pouco menos conhecida do que seu histórico em países da África, mas nem por isso é de menor peso. O país caribenho foi colonizado pelos europeus e inclusive marcou a história com a primeira revolução organizada por escravos (também conhecida como Revolta de São Domingos), que resultou na independência do Haiti e a abolição da escravatura em todas as colônias francesas (entre 1791-1804).

Kimpembe

Kimpembé é filho de mãe haitiana (Foto: AFP)

O levante foi diretamente inspirado pelos ideais recém-chegados à ilha da Revolução Francesa (1789). No atual esquadrão dos Les Bleus, em 2018, Kimpembe é um dos únicos “representantes” do passado colonialista francês na América Central, tendo em vista que é filho de mãe haitiana (e pai congolês). Já Thomas Lemar nasceu em Guadalupe e o pai de Raphael Varane é de Martinica; ambos os países são territórios da França ultramarina, mas também tem seleção própria.

Fluxo migratório dos haitianos ao Brasil
A “preferência” das terras tupiniquins como destino para os haitianos em situação de refúgio não é de se espantar. Além da óbvia proximidade geográfica – muito menor do que a distância Haiti-França -, deve-se levar em consideração que o Brasil liderou de 2004 a 2017 a Missão das Nações Unidas para Estabilização do Haiti (MINUSTAH), instaurada pela ONU após uma série de turbulências políticas no país. Com isso, houve uma aproximação entre os governos dos dois países.

Muitos haitianos não se encaixavam nos critérios do Conselho Nacional para Refugiados (CONARE) a princípio, o que fez com que o Conselho Nacional de Imigração (CNIg) declarasse uma resolução normativa para que nascidos no Haiti recebessem visto permanente por razões humanitárias, especialmente após o terremoto em 2010.

Solon, auxiliar técnico do Pérolas Negras, com o filho Vavá

Solon, auxiliar técnico do Pérolas Negras, com o filho Vavá (Foto: Vitor Madeira/Viva Rio)

E quando a bola rola, o que pesa mais? A terra de suas origens ou o país que te acolheu? Solon é auxiliar técnico do Pérolas Negras e um dos haitianos que chegaram ao Brasil com visto permanente de acolhida humanitária, conforme recomendado pela Declaração de Cartagena de 1984. Seu filho, Vavá, também é nascido no Haiti. Num futuro distante, o desejo do profissional é que seu filho siga carreira como jogador de futebol, mas não ‘escolheu’ um país para ser defendido pelo menino.

– O meu filho vai ser jogador profissional e isso é meu objetivo. O Vavá vai viver muito tempo aqui no Brasil, é um país que eu gosto. Ele pode dizer que vai jogar pela Seleção Brasileira, ou então no futuro pode dizer que vai jogar pelo Haiti. São dois países que estão no meu coração – revelou Solon.

Instituto ADUS visa reintegração de refugiados no Brasil
Além do Pérolas Negras, o Instituto ADUS é outra organização que presta serviços à sociedade visando a reintegração de indivíduos em situação de refúgio. As áreas de atuação da ONG incluem aulas de português para os refugiados, um projeto para inserção no mercado de trabalho, além de aulas de inglês, francês e espanhol. A ideia de fundar o instituto veio após um crescente interesse dos fundadores na temática de migração, impulsionada por pesquisas na faculdade em 2006.

– Nos envolvemos tanto, que vendo a necessidade que essas pessoas tinham, vimos que precisávamos sair do campo da pesquisa e fazer algo prático em prol dessas pessoas. (…) Recebemos pessoas de 82 nacionalidades. O Brasil se caracteriza muito pela variedade de refugiados que aqui estão, não tanto pela quantidade. Hoje temos cerca de 10 mil refugiados e 86 mil solicitantes de refúgio, o que não é uma quantidade muito grande se comparada à realidade global. É pouca gente, mas já é um número significativo para a região da América Latina – revelou Marcelo Haydu, um dos fundadores do instituto.

Equipe do Congo venceu o terceiro Campeonato Multicultural

Equipe do Congo venceu o terceiro Campeonato Multicultural (Foto: Divulgação ADUS/Antônia Souza)

Nos anos de 2014, 2015 e 2017, o ADUS realizou o “Campeonato Multicultural”, torneio de futebol entre equipes de refugiados representando seus países de origem. Na opinião de Marcelo, o esporte é ferramenta essencial para a integração dos refugiados, já que permite às pessoas se verem em condição de igualdade, além da troca de experiências.

– Acho que o futebol tem essa poder de fazer com que as pessoas estejam nesse mesmo espaço em pé de igualdade. Ali, não tem o mais rico ou o mais pobre, estão todos em prol de um mesmo objetivo. É um dos raros momentos na vida em que as pessoas não se veem como diferentes, independente de sua classe social, país de origem, religião. A gente possibilitou esse campeonato não apenas para os refugiados terem um espaço de distração e divertimento para sair da caixa, mas também para terem contato com brasileiros e outras pessoas, que é fundamental nesse processo de integração local – disse Marcelo.

África do Coração, a Copa dos Refugiados e Zico
O Campeonato Multicultural foi renomeado para Copa dos Refugiados e é atualmente organizado pela ONG África do Coração. O criador da instituição, jean Kapumba, é congolês, formado em engenharia civil e está há cinco anos no Brasil.

Foi uma recepção de acolhimento, como sempre falam do Brasil (…), mas um pouco pela metade. Não existe um acompanhamento desse acolhimento, só palavras. Eu não falava português, me deram documento e uma carteira de trabalho, fui largado na rua e tive que buscar trabalho. Não se pensa na estrutura pública e política para imigração, que poderia ajudar que eu me estabelecesse. Tem ignorância, tem preconceito, tem xenofobia – disse.

As dificuldades linguísticas encontradas por Jean não são vistas no futebol, tida por ele (e por muitos) como uma ‘linguagem universal’. Todas as edições da Copa dos Refugiados têm um objetivo e um lema, usando do futebol como ferramenta de integração.

Copa dos Refugiados 2018 teve etapa na Arena do Grêmio

Copa dos Refugiados 2018 teve etapa na Arena do Grêmio (Foto: Divulgação/Copa dos Refugiados)

– Nesta, o lema é ‘não me julgue antes de me conhecer’. A ideia da Copa surge a partir de um julgamento adiantado, o preconceito, que é o pai do racismo, da discriminação, da xenofobia. A Copa surge para acabar com esse preconceito, fazer a sociedade entender que há diversidade no mundo. (…) No campo, eu não sou especial, não tenho privilégios. ‘Se eu consegui fazer um gol, você também consegue, levanta!’ É assim que a Copa mostra aos refugiados que o Brasil não vai ser fácil, porque também não é fácil para o brasileiro – completou.

Porto Alegre e São Paulo já receberam três disputas da edição 2018 do torneio; no Rio de Janeiro, seis jogos da primeira etapa da disputa (quartas e semifinais) serão no campo do Centro de Futebol Zico (CFZ), nos dias 4 e 5 de agosto. O Galinho de Quintino foi convidado para ser embaixador da disputa, mas lamentou ao LANCE! não poder aceitar a proposta.

O ex-camisa 10 do Flamengo e da Seleção Brasileira recentemente retornou ao cargo de diretor técnico do Kashima Antlers, do Japão, país onde foi responsável por popularizar o futebol. Os compromissos de dirigente começam poucos dias antes da competição de refugiados; mesmo assim, Zico vê grande importância na integração dos países no torneio.

– Gostaria muito de estar presente, mas infelizmente não posso fazer isso. Não estarei no lançamento nem na competição devido a minha ida para o Japão no dia 1º de agosto. Sou um apoiador. (…) Acho importante essa competição, uma grande integração de países. Espero que seja um sucesso – disse o Galinho.

*Sob supervisão do editor Leonardo Martins

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