LaMotta era conhecido pela coragem no ringue e pelas confusões fora dele

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EDUARDO OHATA

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – O ex-campeão de boxe Jake LaMotta estava inconformado enquanto os créditos finais de “Touro Indomável”, sua cinebiografia, rolavam e as luzes no cinema começavam a acender. Cutucou sua segunda ex-mulher, Vikky, que assistiu à pré-estreia do filme ao seu lado, em 1980, e perguntou sem rodeios:

“Vikky, eu era tão mau como no filme?”

“Não, Jake”, respondeu Vikky, para logo na sequência complementar. “Você era pior, Jake, muito pior…”

O filme não poupou LaMotta. Mostrou-o em arroubos de fúria, bateu na mulher por ciúmes, no irmão, ficou satisfeito ao desfigurar e nocautear um rival que Vikky havia achado bonito, bebia, foi preso por empregar uma menor em uma casa noturna de péssima reputação, entre outras passagens de sua vida.

Foi assim que Jake LaMotta, que morreu aos 95 anos de pneumonia nesta terça (20), foi eternizado no cinema, papel que rendeu a Robert de Niro o Oscar de melhor ator.

Como, então, o anti-herói, ou mesmo vilão, LaMotta se tornou uma figura tão querida pelo público? Era normal ver durante as lutas de Mike Tyson na década de 1980, Jake ser uma das celebridades mais ovacionadas.

“Porque sou um sobrevivente, e as pessoas admiram essa qualidade”, afirmou LaMotta, ao ser questionado sobre a aparente contradição.

TOURO DO BRONX

Jake, nascido Giacobbe LaMotta, em 10 de julho de 1922, filho de imigrantes italianos, teve, como a maioria dos boxeadores, uma origem humilde. Aprendeu a boxear em um reformatório, onde ele foi parar por tentativa de roubo.

“Touro Indomável” (ou “Raging Bull”, nos EUA) foi o título mais chamativo que deram ao filme, mas seu apelido real era “Touro do Bronx”, que ganhou por conta de seu estilo de luta.

Ele ia incessantemente para cima dos adversários, recebendo, ou aparentando receber, dois, três, quatro golpes, que conseguia ignorar para então acertar o seu soco no adversário.

O apelido de LaMotta dá a entender que ele era um destruidor, nos moldes de um Tyson. Nada mais distante da verdade. De suas 83 vitórias, apenas 30 foram por nocaute, o que mostra que não tinha a mão tão pesada. Mas o que não tinha em pegada, mais do que compensava em coragem e determinação.

Ele não escolhia adversários, por isso mesmo enfrentou seis vezes o mítico “Sugar” Ray Robinson, considerado o melhor lutador da história do boxe.

Além de ter provocado a primeira derrota da carreira de “Sugar” Ray, em fevereiro de 1943, ficou famosa a sexta luta entre eles, que ficou conhecida como “O Massacre do Dia de São Valentino”, quando perdeu corajosamente no 13º assalto, sob intenso castigo, mas de pé, até o árbitro encerrar o combate por conta dos seus ferimentos.

LaMotta aguentava o castigo, tinha, além da coragem, um queixo de aço. Tanto que sofreu apenas uma queda em 106 lutas. E até aquele knockdown era questionado pelo próprio LaMotta.

O “Touro do Bronx” tentou fazer as coisas, como diria a música de Frank Sinatra, “do seu jeito”, mas não teve jeito.

Para poder disputar o título mundial dos médios, então controlado pela máfia, foi convencido a perder intencionalmente uma luta.

LaMotta era o favorito, mas na última hora, foram registradas apostas volumosas no azarão Billy Fox, que “venceu” o duelo realizado em novembro de 1947. Apesar de ter negado à época, anos depois, LaMotta confirmou que “entregou” a luta em depoimento a uma subcomissão do senado americano.

“Era o único jeito de ter uma oportunidade pelo título”, justificou o boxeador, que ganhou uma chance 17 meses depois, e aproveitou, tomando o cinturão do francês Marcel Cerdan, que morreria em um acidente aéreo quando ia para os Estados Unidos para disputar a revanche contra o americano.

LaMotta defendeu o título por duas vezes, até perder para “Sugar” Ray, no sexto confronto da dupla. Ele entrou para o Hall da Fama em 1990.

STAND UP

Depois de perder milhões de dólares, se reergueu como comediante stand up e viveu com os rendimentos de uma fábrica de molho de tomate gerenciada por seu filho Joseph, que morreu em 1988 em um desastre aéreo.

“É a pior coisa que pode acontecer, um pai sobreviver ao filho”, lamentou LaMotta, que no mesmo ano perdeu o filho Jack, para o câncer.

Anos depois de aposentado, LaMotta não perdeu a mentalidade de “durão”.

Ao ver o peso-pesado Carl Williams, nocauteado em 93 segundos por Tyson em uma disputa de título, ser salvo pelo árbitro e ainda reclamar, em 1989, Jake lembrou: “Na minha época não tinha nada disso, o árbitro deixava a coisa correr. Se esses garotos não aguentam [os rigores do boxe], eles que procurem outra coisa para fazer”.

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