Conteúdo por Gazeta Esportiva

Nos EUA, ex-palmeirense teme covid, aprova protestos e mira retomada

Contratado pelo Dallas após passar pelo Palmeiras, Thiago Santos disputou apenas duas partidas com a camisa do novo clube. Nos Estados Unidos, receoso com a covid-19, o meio-campista aprova a série de protestos pelo assassinato de George Floyd e mira a retomada da Major League Soccer (MLS).

Com o torneio paralisado desde 12 de março, o recém-chegado Thiago Santos pensou em retornar ao Brasil ao lado da família, mas decidiu permanecer nos Estados Unidos. Durante a quarentena, viu a escalada de mortes por covid-19 no país e as repercussões pelo assassinato de Floyd.

“Acho importante as pessoas lutarem por suas causas. É difícil se manter calmo diante de uma situação dessas. Só quem já sentiu o racismo na pele sabe o que essas pessoas passam”, disse Thiago Santos, que se sentiu discriminado ao lado do então companheiro Keno enquanto fazia compras em uma loja de roupas de São Paulo.

Ganhador das edições de 2016 e 2018 do Campeonato Brasileiro, o combativo Thiago Santos marcou seis gols em 180 partidas pelo Palmeiras. O reforço do Dallas teve um companheiro diagnosticado com covid-19 na semana passada e, agora, mira a retomada da MLS, que planeja encerrar seu torneio em Orlando.

Gazeta Esportiva: Após quase três meses de incerteza na Major League Soccer, a ideia é concluir o campeonato de 2020 em Orlando. Como você recebeu essa decisão?

Thiago Santos: É uma alegria muito grande poder voltar a campo pela liga. Depois de tudo que passamos nesse ano, ver as coisas voltando pouco a pouco ao normal dá um novo ânimo e esperança. Tivemos um bom começo de campeonato e espero que possamos retornar com a mesma garra e empenho. Acredito que nós todos do Dallas estamos voltando com uma vontade ainda maior de jogar e fazer uma boa campanha pelo clube.

Gazeta Esportiva: Na semana passada, o Dallas interrompeu as atividades individuais após um jogador ser diagnosticado com covid-19. Agora, vocês estão voltando com treinos em pequenos grupos. Dá um certo receio retomar os trabalhos com os companheiros?

Thiago Santos: Dá um pouco de medo, sim. Tenho amigos no Brasil que pegaram covid-19. Alguns sem sintomas e outros, de uma forma mais grave. A gente nunca sabe como o corpo vai reagir com a doença e dá medo de passar para a família. Mas o Dallas está tomando todas as precauções e cuidados para que possamos treinar com total segurança.

Gazeta Esportiva: Com o campeonato paralisado desde 12 de março, os Estados Unidos são o país com maior número de mortes por covid-19. Para alguém recém-chegado do Brasil, como foi enfrentar esse longo período de quarentena com a família em um país desconhecido?

Thiago Santos: Não foi fácil. Aqui em casa, ninguém fala inglês, o que acabou dificultando ainda mais. Ficamos o tempo todo em casa e eu só saía para o mercado quando era realmente necessário. Pensei algumas vezes em fazer minhas malas e voltar ao Brasil para passar tudo isso em casa, perto da família, mas, depois, vimos que era melhor ficar por aqui. Fiquei preocupado e com medo de não conseguir voltar.

Gazeta Esportiva: Após o assassinato do George Floyd, você e muitos atletas de diferentes modalidades e nacionalidades se manifestaram. Como jogador profissional, brasileiro e negro, o que pode falar sobre esse episódio?

Thiago Santos: Foi muito triste o que aconteceu. É triste ver que casos como esse continuam acontecendo. No futebol, vemos o tempo todo jogadores sofrendo racismo em vários países. Eu fico indignado com qualquer tipo de preconceito, por raça, sexo, religião, o que seja. Somos todos seres humanos e deveríamos ser respeitados igualmente. Fiquei feliz por ver tanta gente se manifestando por essa causa. Espero que não seja só modinha, que as pessoas estejam realmente se conscientizando de que ninguém merece ser tratado com diferença por ter a pele escura. Devemos ser julgados pelo nosso caráter e não pela cor.

Gazeta Esportiva: O assassinato do George Floyd foi o estopim de uma série de protestos em várias cidades dos Estados Unidos, alguns com episódios de violência e confronto com a polícia. De que maneira você está enxergando tudo isso?

Thiago Santos: Eu acho importante as pessoas protestarem e lutarem por suas causas. É difícil se manter calmo diante de uma situação dessas. Só quem já sentiu o racismo na pele sabe o que essas pessoas passam.

Gazeta Esportiva: Você já sofreu preconceito racial como atleta ou na sua vida cotidiana fora dos campos?

Thiago Santos: Graças a Deus, no futebol, nunca passei por isso. Pelo menos, nunca percebi nenhum preconceito comigo. Mas tenho amigos que já sofreram e a cor deles é a minha cor. Então, a dor deles é também a minha dor. Nos tempos de Palmeiras, eu e o Keno fomos fazer compras em uma loja de roupas em São Paulo e percebi que o segurança ficou nos vigiando. O Keno chegou a tirar o boné para ver se o cara nos reconhecia como jogadores. Depois de pagar pelas compras, encarei o segurança e perguntei se ele queria nos revistar. O cara, então, disse que queria tirar uma foto. Acho que foi alertado por alguém.

Gazeta Esportiva: Você fez dois jogos pelo Dallas como titular e deixou boa impressão. Depois desse começo tumultuado nos Estados Unidos, quais são seus objetivos pessoais para 2020?

Thiago Santos: Fiquei muito feliz com as minhas atuações nos dois primeiros jogos e com o reconhecimento em relação a isso. Espero que o time volte com o mesmo entrosamento que estava no começo. Meu desejo para o resto do ano é que possamos vencer de vez esse vírus, que a volta do futebol possa levar um pouco de alegria depois de tantas tristezas que passamos e que o Dallas faça uma ótima campanha. Quem sabe, que possamos conquistar o título da MLS para fechar o ano com chave de ouro.

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