O trabalho nos bastidores para a bola rolar num jogo de futebol

O futebol é a maior metáfora da vida e esse é apenas um dos mandamentos desse esporte sedutor. Mas nem só de clichês e obviedades vive o mundo da bola. Por trás do espetáculo há centenas de pessoas apaixonadas e abnegadas que fazem a bola rolar sem a necessidade de mostrar o rosto e, mais que isso, expõem uma face muito além dos 90 minutos: que o jogo, embora seja ilustrado a partir do apito da arbitragem, pode começar até um ano antes.

Seguranças aguardam o momento da abertura das catracas na Ressacada – Diogo de Souza

Dentre milhares, há apenas uma verdade que engloba também o setor logístico e organizacional de um clube: o futebol vive de resultados. É o sucesso do time em campo que reflete (também) nos bastidores de um clube de futebol. Apesar de não constar em lugar algum, não ser mencionado no alto-falante e muito menos aparecer em um campo virtual, a escalação dos bastidores é extensa e passa pelos mais variados setores da sociedade.

“Começa bem antes, pensamos na infraestrutura, segurança, capacidade de disponibilização de ingressos; tem a vigilância sanitária, a mobilidade urbana, Polícia Militar, Polícia Rodoviária Estadual, ambulância, policiamento privado, escolta, tudo isso, de acordo com o público que vamos ter, quais portões vamos abrir”, resumiu Ivone da Costa Carvalho, gerente de infraestrutura e logística no Avaí, clube que ela já soma 18 anos de dedicação.

Ivone conta que esse passo a passo segue uma cartilha, o POP (Procedimento Operacional Padrão), mas que começa muito antes. “Para ter um campeonato em vigência, tem que estar tudo em dia, o laudo de segurança, o laudo elétrico, de estrutura, enfim, são documentos e necessidades cobradas na esfera estadual e do País e que começa muito antes do campeonato”, explicou Ivone.
A funcionária, que descreve o Avaí como sua “vida”, retrata o lado humano do futebol que na maioria das vezes é deixado de lado. Ela mostra, com exemplos, as duas realidades do esporte já que esse bastidor está diretamente ligado ao resultado do campo.

“Tudo depende de resultados, um rebaixamento a gente nunca quer, mexe muito com o coração da torcida e acaba prejudicando quem está aqui dentro. Só estando aqui dentro para conhecer. É muito gratificante para nós que o espetáculo aconteça e no final dê tudo certo, que todo mundo volte para casa tranquilamente”, explicou e ainda lembrou que um momento específico em que admitiu se emocionar: “Quando o estádio está cheio, cantando o hino, é tudo de bom, é lindo, me conforta o coração, eu me emociono”, conclui.

Sustentabilidade

O Avaí entra em campo neste sábado, contra o São Paulo, no estádio da Ressacada, a partir das 21h, pela oitava rodada da Série A. O adversário em questão representa um dos poucos jogos que “se pagam” dentro do clube. Luciano Corrêa, diretor administrativo, lembra que as agremiações, de uma maneira geral, pagam para fazer futebol, sonha um dia ver o Leão da Ilha um clube “viável” e ainda revela: cada torcedor custa R$15 para o clube.

Luciano é mais um exemplo de avaiano “roxo”. Há 18 anos na Ressacada, já passou por diversos setores e hoje administra toda logística no Sul da Ilha. Seu sonho, segundo admitiu, não é um cargo, e sim, ver o clube atingir a marca de 20 mil sócios um número que, no seu entendimento, faria o Leão autônomo e capaz de se manter na elite do futebol. Para isso, além de abraçar o escudo, o torcedor precisa ser mais “tolerante”.

“Torcedor é parte de toda essa engrenagem. Se o Avaí cai e ele deixa ou cancela a associação, ele prejudica o clube. Meu sonho é ter 20 mil sócios para que possamos manter e evoluir em toda a estrutura. O Avaí não é do Luciano, do [presidente Francisco] Battistotti, não é do Marquinhos. O Avaí é da nação avaiana”, acrescentou.

O dirigente reforçou a tese de que o campeonato estadual é deficitário. Para ele, são ínfimos os jogos onde a competição se paga. “É o clássico, a semi e a final. Só”.

A Série B ele nem menciona e na Série A, a nata do futebol no País, a metade dos jogos valem a pena no quesito faturamento, sobretudo, com torcida adversária. “Flamengo, Vasco, Corinthians, Palmeiras, São Paulo, Grêmio e Inter, esses são os clubes que enchem o setor visitante. O resto, não”, enumerou.

Entre o dinheiro que entra com ingressos (e ele pondera que, nesse caso, não entra o valor do sócio) e todos os custos que o estádio traz, cada adepto que roda a catraca custa R$15 para o clube, em média. “Tem taxa para federação, CBF, arbitragem e, agora, tem ainda o VAR”, acrescentou.

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