Sorriso tímido e bola no pé: Sarah Maciel rompe barreiras em nome de um sonho

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Sarah Maciel, jovem prodígio do futebol feminino – Anderson Coelho/ND

“Um dia fui chamada para uma reunião na creche. As professoras vieram me contar que, ao invés de ela se direcionar para casinha de boneca, ela corria para onde tinha bola”. O relato é de Soraia Lanziotti Cruz, 43, ao descrever os primeiros anos da sua filha.

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Sarah Lanziotti Maciel, hoje com 12 anos, é mais uma promessa do futebol feminino local. Sarinha, como é conhecida, tem o sorriso tímido, o fanatismo elucidado pela sua mãe e o dom atestado (também) por profissionais. É só mais uma sementinha regada por essa edição da Copa do Mundo de Futebol Feminino.

Mãe e filha vieram de Porto Alegre (RS) e moram no Norte de Ilha há três anos. Em busca de mais oportunidades, desembarcaram na capital catarinense com uma bagagem pesada, mas não de roupas e utensílios, sim de esperança, amor e de muita prática.

“O pai dela, que ficou lá [em Porto Alegre], sempre viu potencial nela. Era ele que jogava com ela. Eu fui ver apenas aqui, quando ela começou em uma escolhinha de futebol na Cachoeira do Bom Jesus”, contou Soraia.

A jovem prodígio “faminta” por futebol e sem muita alternativa na região Norte da Ilha teve que praticar a modalidade em meio aos meninos. Galgou mais alguns degraus, fez seu nome e encaminhou mais um importante passo em prol da sua carreira. Sem antes, é claro, sentir na pele o quão corrosivo é o preconceito.

Pouca idade e (mas) experiências

Apesar de tão nova, a jovem já contabiliza as cicatrizes do (des) prazer de qualquer e cotidiana vida. Soraia admitiu que em meio a pouca idade, as dificuldades naturais do dia a dia e todo o amor de Sarah pelo futebol, fez com que ela “apanhasse” em algumas ocasiões.

Soraia (à esq.) mãe da menina Sarah – Anderson Coelho/ND

“Teve que passar pela aceitação, ela apanhou nas escolas para poder jogar futebol, principalmente aqui em Santa Catarina. Mesmo assim ela sempre levou de maneira natural”, argumentou a mãe que ouvia da sua própria filha “deixa, mãe, eu vou conquistar o meu espaço”.

Ainda diante de tal cenário o espírito materno falou mais alto. Paralelo às dificuldades, Soraia revelou apoio incondicional ao que Sarah sempre sonhara.

Questionada a menina, mesmo com poucas palavras, ela revelou esses momentos “tristes” da sua curta e inspiradora história.

“Já recebi ‘xingão’ tipo, ‘não joga, não deixa ela jogar, ela é frágil, ela é menina, não sabe jogar futebol’”, revelou e confessou ser momentos e palavras que, antes, a entristeciam.

Associação Desportiva Sanrosé

Não foi só a figura materna que viu em Sarah essa mescla de amor pela modalidade e capacidade com a prática. Depois de um ano jogando em uma escolinha localizada na Cachoeira do Bom Jesus, Sarah foi pinçada pela Associação Desportiva Sanrosé, um projeto desenvolvido junto a prefeitura de São José que capacita meninas a jogar futsal em várias categorias.

Reginaldo Vieira, 28, é professor de educação física, josefense e idealizador do projeto que nasceu em abril de 2013. Reginaldo, mesmo sem conhecer Sarah, revelou que ficou convencido não só pelo evidente dom da jovem, mas pelo “brilho do seu olho”.

“Tenho sensibilidade e o que me chamou a atenção foi o jeito e o brilho que ela tem com a bola. Mostra maturidade e uma intimidade que vemos nas categorias mais adultas. Ela é diferente”, analisou Reginaldo que, mais de uma vez, referiu-se a condição técnica da menina, mais de uma vez, como acima da média.

Em poucas palavras, a menina que se espelha na craque Marta e torce para o Grêmio-RS, resumiu seu clarividente sonho:

“Futebol é um esporte que eu amo, sempre quis jogar e sempre gostei de jogar. Quero ser jogadora de futebol”, projetou orgulhosa e sorridente.

Sarah Maciel, 12 anos – Anderson Coelho/ND

Copa do Mundo Feminina