Guilherme Fiuza

Jornalista e escritor que iniciou a carreira em 1987, no "Jornal do Brasil". Entre outras redações, trabalhou em "O Globo" e revista "Época". Escreve também sobre política para a "Gazeta do Povo".


A ciência dos chutadores

A ciência dos chutadores vai acabar descobrindo que o ar puro faz mal à saúde

Futebol é pecado. Estão discutindo por aí a questão de liberdade de crença, mas observando-se as novas cartilhas de comportamento pode-se notar que, independentemente da sua crença, correr atrás da bola virou sacrilégio. A decisão da Supercopa em Brasília confrontou Flamengo e Palmeiras.

Flamengo e Palmeiras disputaram, em Brasília, a final da Supercopa do Brasil no último domingo (11) – Foto: NAYRA HALM/AGÊNCIA O DIA/AGÊNCIA O DIA/ESTADÃO CONTEÚDO – Foto: ESTADÃO CONTEÚDO/NDFlamengo e Palmeiras disputaram, em Brasília, a final da Supercopa do Brasil no último domingo (11) – Foto: NAYRA HALM/AGÊNCIA O DIA/AGÊNCIA O DIA/ESTADÃO CONTEÚDO – Foto: ESTADÃO CONTEÚDO/ND

Um grande jogo, bem jogado, emocionante até o fim e decidido numa disputa de pênaltis eletrizante – em que os dois times se alternaram nas chances de liquidar a fatura, mas estavam diante de dois dos goleiros mais prodigiosos na mágica de defender o indefensável. Eles só não podem defender o indefensável princípio de constranger a alegria do futebol.

O jogo se deu em Brasília, no estádio Mané Garrincha. O lendário anjo das pernas tortas a quem o estádio homenageia era também conhecido como “a alegria do povo”. O que diria Garrincha desse futebol embalado em culpa e constrangimento? O que diz o povo?

Sem entrar em maiores conjecturas, vamos deixar claro de saída: a disputa de uma partida de futebol nas exatas circunstâncias em que jogaram Palmeiras e Flamengo não afronta absolutamente nenhum protocolo de segurança sanitária com eficácia aferível dentro da atual crise de saúde.

Uma atividade como essa só pode ser considerada inconsequente na cartilha dos que resolveram condenar qualquer atividade humana fora de casa – baseados em ciência nenhuma. E quem disse que dentro de casa é seguro? Quem disse está mentindo. O isolamento perfeito que protegesse os seres humanos dos seres humanos não existe.

Como demonstrou o epidemiologista John Ioannidis da Universidade de Stanford, as áreas mais trancadas não são as que têm os melhores resultados no enfrentamento da pandemia.

O estado norte-americano do Texas acaba de prover resultados eloquentes reduzindo os embargos totais a diversas atividades sociais e substituindo-os por medidas de distanciamento responsável entre as pessoas, higiene, não circulação de sintomáticos, etc.

Os casos de Covid estão caindo no Texas – e o estado não está entre os que mais vacinaram. Por todo o exposto e vivido em mais de um ano de pandemia, um jogo de futebol não é uma heresia. A não ser para aqueles que por algum motivo insondável resolveram propagar que a única forma segura de proteger vidas é não viver.

Um jogo de futebol pode ser justamente o oposto do que dizem os apocalípticos: uma atividade propícia ao exercício da responsabilidade sanitária, do controle rigoroso sobre as reais possibilidades de contágio – não a “empatia” demagógica dos que gritam fique em casa e fecham os olhos para o transporte público cheio.

O time carioca foi campeão em Brasília. No Rio de Janeiro, o prefeito proíbe o lazer do futebol ao ar livre e permite ginástica em academia fechada. A ciência dos chutadores vai acabar descobrindo que o ar puro faz mal à saúde.

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