Sérgio da Costa Ramos

Escritor e jornalista, membro da Academia Catarinense de Letras, autor de doze livros de crônicas, e figurou na imprensa diária nas últimas duas décadas.


Torcer é a boa doença

A perfeição do futebol não está, como o leitor imagina, dentro do campo. Está, certamente, na arquibancada

Torcedor é um maluco de berço, um doidinho animado, um “vivo” sempre pronto pra correr atrás do trio elétrico. Neste ano de muitas tristezas, algumas torcidas comemoraram alegrias incontidas – como as do Palmeiras e do Avaí, inebriadas pelas glórias que disputavam.

Mestre Armando Nogueira – uma espécie de Machado de Assis da crônica esportiva – traçou em letras de irônica ourivesaria o perfil do torcedor apaixonado:- A perfeição do futebol não está, como o leitor imagina, dentro do campo. Está, certamente, na arquibancada.

Avaí, torcida ressacada, – Foto: Frederico Tadeu/Avaí/NDAvaí, torcida ressacada, – Foto: Frederico Tadeu/Avaí/ND

Ali, feroz ou silencioso, o torcedor exerce o seu dom divino de acertar sempre. Não erra um chute, não erra um drible, não erra um passe. E é precisamente essa soberana competência que o leva a vaiar o próprio ídolo que perdeu o gol; o gol que ele nunca deixou de fazer, lá de cima, chutando as pernas do vizinho.

Só o torcedor está autorizado a pronunciar a verdade de cada partida, aquela verdade que o “politicamente correto” não permite aos cronistas esportivos. Todas as torcidas costumam ser sinceras, quando xingam ou quando amam:- Aqui tem um bando de loucos – confessa, com absoluta lucidez, a torcida do Corinthians… O torcedor honesto sabe quando o seu time não vai bem.

Quando ele está em ascensão, até a “urucubaca” vai embora. “Torcer”, em futebol, é um pouco esse desejo irracional, conjugado com outras associações mais ou menos descontroladas do “ego” humano – harmonizado com o seu “id” primitivo – que se expressa pela “voz rouca e vociferante dos estádios”. Torcer, na verdade, é “distorcer”. Distorcer o sentido, o significado das coisas ou a proporção da realidade, alterando-a e desvirtuando-a .

Não chega a ser a síndrome de Estocolmo – que leva os sequestrados à loucura de amar os sequestradores – mas a síndrome da arquibancada, que induz o torcedor a interpretar todos os acontecimentos segundo a cor da camisa do seu time. “Inticar” faz parte do arsenal das torcidas. Sem essas “gracinhas” de parte a parte, torcer pareceria chato, enfadonho.

Refere-se ao ato de “inticar” – com uma pequena modificação – o mesmo adágio aplicado à bola pelo machadiano Armando Nogueira: – Se a bola não quica, mau caráter indica. Ou, com o torcedor no lugar da bola:- Se o torcedor não “intica”, mau caráter indica… Se o seu time caiu, levante-se. Se for o caso deixe-se “inticar”. Faça de conta que a Série C é o Nirvana. O único campeonato que seu time pode vencer.

Aos que subiram para a série A, vale reviver a inenarrável vitória do último domingo, em que o Avaí confirmou seus velhos sintomas de paradoxal euforia esportiva, escolhendo chegar ao objetivo pelo método do pior sofrimento.Se é possível escolher uma conquista mais simples, segura e lógica, não é o Avaí. Sem falar que confirmou, nacionalmente, a velha lenda: nunca na história do “Coisa Feita” o Avaí fez tanta “coisa”

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