Amor que não se mede: torcedores transbordam devoção pelos clubes em SC

- +
Em um tempo onde a sociedade ainda tenta entender uma maneira de se reinventar, torcedores esbanjam devoção pelos seus clubes do coração, que ganham mais um motivo para crer em dias melhores

Amor. Não há justificativa diferente ou até necessária diante do mais puro dos sentimentos. O que dizer, sendo assim, da mais cristalina maneira de sentir do ser humano dedicada a uma agremiação?

Trata-se de uma pergunta sem resposta. Por não haver uma alternativa “correta”, é bem verdade, mas principalmente porque amor não se mede.

O futebol, talvez a maior invenção do ser humano e principal metáfora da vida, dá diárias mostras de até onde tanto fervor (não) pode chegar.

Com um misto de devoção e insanidade, a reportagem do Grupo ND foi atrás de histórias que transcendem a linha do racional e que, em tempos de pandemia, ficam mais evidentes.

Em março de 2020 a OMS (Organização Mundial da Saúde) decretou a condição de pandemia. De lá para cá a humanidade nunca mais foi a mesma.

Amor de torcedor: não se mede. JEC sonha em recolocar, se não no estádio, no seu quadro de sócios – Foto: Divulgação/JECAmor de torcedor: não se mede. JEC sonha em recolocar, se não no estádio, no seu quadro de sócios – Foto: Divulgação/JEC

O futebol, como tudo na vida e na rotina de cada habitante da terra, precisou se adaptar a uma nova maneira de consumo.

Sem o seu grande patrimônios os clubes, nessa mesma roleta, tiveram que reacomodar – também – as finanças uma vez que o distanciamento do público acarretou em incontáveis prejuízos financeiros para, no Brasil, combalidos cofres.

É justamente nesse limbo que se enquadra o nobre torcedor. O personagem que mais sente as variáveis da modalidade e o que menos recebe para isso quando entramos em um âmbito, sobretudo, financeiro.

Como nem tudo na vida é dinheiro, a reportagem pinçou algumas histórias dignas dos maiores romances da humanidade, afinal, amor não se mede. Amor se sente.

Sentimento catarinense

Santa Catarina está um tanto distante da condição vitoriosa constatada em outros estados e isso não chega a ser exatamente uma novidade.

O que não sugere um demérito quando o tema é devoção. A reportagem encontrou histórias que vão desde um casamento em verde e branco, ao torcedor que deixou mãe e filha na maternidade, menos de 24h depois do nascimento da primogênita, para assistir o Figueirense no estádio Orlando Scarpelli.

O clássico caso do amor de pai para filho, no Sul do Estado, bem como o comportamento resiliente de torcedores do JEC, no Norte do Estado, cientes de que se a situação está ruim assim, poderia ser muito pior sem essa postura.

Teimosia no Norte

O sonho da Série B parece distante para a realidade atual do JEC, que quer dar um passo de cada vez para voltar a sonhar com a elite do futebol nacional, onde estava há seis anos.

Em 2013, um ano antes de conquistar o título da segunda divisão o número de sócios aumentava a ponto de superar os 10 mil e fazer com que a diretoria sonhasse com os 15 mil, número próximo da lotação da Arena Joinville.

“Eu quero que meu filho veja o JEC que eu vi”, manifestou Ilírio Deretti – Foto: Arquivo Pessoal/ND“Eu quero que meu filho veja o JEC que eu vi”, manifestou Ilírio Deretti – Foto: Arquivo Pessoal/ND

Em 2021, o cenário é bem diferente, tanto dentro como fora de campo. Na Série D, o JEC tem sérios problemas financeiros e luta para aumentar a receita do clube ainda mais prejudicada devido à pandemia. Enquanto isso, o número de sócios também despencou, assim como o time, queda após queda. Hoje, o Joinville Esporte Clube tem apenas 1,7 mil sócios ativos, quase metade do que tinha antes da pandemia, quando eram 3 mil torcedores distribuídos nas modalidades que o clube oferece.

Mas se há esperança, é devido aos que se mantiveram fieis e entenderam a importância da contribuição do torcedor em um dos momentos mais delicados da história do clube que acabou de comemorar 45 anos. Um deles é o aposentado Ilírio Deretti, que aos 55 anos, continua exibindo com orgulho a carteirinha de sócio que, entre idas e vindas, ostenta desde os áureos tempos do Ernestão.

“Eu gosto do clube e sei que somos um grão de areia no deserto, mas se está ruim para nós, o clube fica ainda pior se não houve sócio. O mínimo que podemos fazer é pagar e, de uma forma ou de outra, ajudar o clube para que ele possa se manter e se reabilitar no cenário do futebol. Reclamamos, mas se abandonarmos na hora que mais precisa, não teremos o clube onde achamos que ele merece estar”, fala.

Para ele, o JEC deveria ter, no mínimo 5 mil sócios, apesar das dificuldades impostas pela pandemia e pelos resultados recentes. Ilírio reforça a força da maior cidade de SC e chama atenção para o que classifica como “falta de interesse” no clube.

“A cidade tem tanta gente, se cada um pagasse o plano mais simples, teríamos uma arrecadação diferenciada. Moramos no maior polo industrial do Estado e as empresas não se interessam pelo time da cidade. A maioria só reclama e não faz nada para ajudar”, avalia.

Amor de pai para filho no Sul

Talvez um dos maiores clichês no que diz respeito a “escolha” de um clube do coração, em Criciúma, foi dessa maneira que o Edson Padoin, 21 anos, estudante de jornalismo, salienta sua ligação com o Tigre.

Edson Padoim, torcedor do Criciúma, que herdou a paixão do pai – Foto: Arquivo Pessoal/divulgação/NDEdson Padoim, torcedor do Criciúma, que herdou a paixão do pai – Foto: Arquivo Pessoal/divulgação/ND

Sócio do clube convicto, o jovem exemplifica um episódio em 2006 quando, aos 7 anos, viu o Tigre conquistar a Série C do campeonato brasileiro, o terceiro título nacional do tricolor – antes já havia conquistado a Copa do Brasil, em 1991 e a Série B em 2002.

Foi por intermédio do seu pai que, ao leva-lo ao estádio Heriberto Hülse, lapidou o sentimento que hoje, segundo ele, é soberano em seu cotidiano.

Ciente da sua paixão, Edson pondera pelas dificuldades enfrentadas pelo Criciúma nos últimos anos, sobretudo, no âmbito competitivo.

“O que o Criciúma representa para mim, foi a pergunta que eu me fiz, mas ao olhar para trás eu vi no amor e na esperança me fizeram me manter como um torcedor, como um sócio”, argumenta.

Segundo Vitor Marcelo, responsável pelo comercial do Tigre, o atual quadro de sócios do Criciúma conta com 2.500 nomes. Deste total, aproximadamente 1.900 estão adimplentes – com os pagamentos em dia – com o clube, o que gera uma receita mensal de R$ 80 mil para os cofres do Carvoeiro.

Vitor, também inspirado em casos como do Edson, lembra que o torcedor precisa do sentimento de pertencimento ao clube.

O atual plano de sócios do Criciúma foi lançado em janeiro deste ano, sendo que o principal objetivo da diretoria é de atingir a marca de 10 mil sócios, o que iria gerar uma renda de R$ 500 mil por mês para os cofres do clube.

Nascimento da filha

É uma verdade universal: o nascimento de um filho é a maior dádiva de um ser humano.

Não para Gilberto Machado, manezinho, 38 anos, torcedor do Figueirense.

Não quer dizer que o empresário desgoste sua filha ou que, por ventura, não nutra tudo o que há de melhor. É que, dentro de um entendimento herdado do seu pai, ele vê no Figueirense uma necessidade fisiológica.

Torcida do Figueirense: considerada uma das mais fanáticas de SC – Foto: Patrick Floriani/FFC/divulgaçãoTorcida do Figueirense: considerada uma das mais fanáticas de SC – Foto: Patrick Floriani/FFC/divulgação

Presente em partidas do Figueirense há, pelo menos, 15 anos e de maneira initerrupta, Gilberto coleciona memórias do alvinegro como a grande prioridade de sua vida.

Ainda em 2014, às vésperas do nascimento da filha, juntamente com a mãe Gilberto “combinou” uma cesárea e fez questão de sugerir uma data que não coincidisse com um jogo do Figueirense que, na ocasião, desfilava na Série A do brasileiro.

O detalhe é que a filha veio antes da data “programada” e, o dia, era justamente um duelo do Furacão, no estádio Orlando Scarpelli, contra o Fluminense.

Gilberto acompanhou o nascimento da pequena, pela parte da manhã e as primeiras horas da filha neste “plano”. Mas foi só o sinal positivo da mãe do bebê que o alvinegro encontrou sua “brecha” para ir até o estádio e, na ocasião, ver o Figueira ser derrotado pelo Fluminense por 1 a 0.

“É uma questão familiar, veio de avô para pai e do pai para mim. Meu pai apoiava o Figueirense na Série C, fazia tudo, acompanhava, como que eu não vou fazer isso agora”, explicou o torcedor que é sócio há 15 anos do clube e sequer cogitou abandonar seu plano ao longo da pandemia.

Gilberto, ainda, lembrou que, independente da Série, o amor pelo Figueirense é o mesmo.

Um amor fruto da Chapecoense

É exatamente isso. A Chapecoense foi a grande responsável por cruzar os caminhos de Daniel Augusto Pilz, 31, engenheiro civil; e Gabriela Conrado Pilz, 29, auxiliar administrativo.

Casal Chapecoense: Daniel e Gabriela, noivos que se conheceram com as credenciais de torcedores Condás – Foto: Foto Chapecó/arquivo pessoal/divulgaçãoCasal Chapecoense: Daniel e Gabriela, noivos que se conheceram com as credenciais de torcedores Condás – Foto: Foto Chapecó/arquivo pessoal/divulgação

Ambos contam, com carinho e diversão, que foram apresentados com as seguintes credenciais: torcedores da Chapecoense.

“Nos conhecemos por torcer pelo mesmo time, boa parte dos nossos assuntos tinha a ver com a Chapecoense. Nossa história de amor tem tudo a ver com o time”, contou Daniel, orgulhoso.

Ambos, inclusive, foram notícia no Oeste ao realizar um casamento com absolutamente tudo da Chapecoense. Desde a decoração, passando pelos enfeites, os padrinhos tudo foi inspirado em verde e branco.

Mais que isso, os noivos foram até surpreendidos pelos padrinhos que conseguiram os instrumentos de uma torcida organizada da Chapecoense e protagonizaram grande festa.

Sócios do Verdão do Oeste desde 2009 ambos são precisos ao responder que não cogitaram o desligamento do clube.

“A Chapecoense é tudo para nós. Não tem história que a gente não conte que não coloque a Chape”, acrescenta Gabriela.